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'Ser mulher é o mais adequado para fazer espionagem', diz ex-agente da CIA

Amaryllis Fox, ex-espiã da CIA que terá sua história contada em uma série da Apple - Michael Lionstar
Amaryllis Fox, ex-espiã da CIA que terá sua história contada em uma série da Apple Imagem: Michael Lionstar

Edilson Saçashima

Colaboração para o TAB

31/03/2020 00h04

Quando as torres gêmeas do World Trade Center desmoronaram no ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, a jovem Amaryllis Fox estava prestes a iniciar seu último ano de faculdade com a intenção de trabalhar na imprensa. Alguns anos depois, no entanto, Fox estaria disfarçada, à procura de terroristas. Ao invés de jornalista, ela havia se tornado uma espiã da CIA, a agência de inteligência norte-americana.

O que se seguiu em sua vida poderia virar um filme, mas não como Hollywood faz. Ser espiã, segundo Fox, está longe do estereótipo de "femme fatale". Em entrevista ao TAB, a ex-espiã conta mais detalhes de como se envolveu com a espionagem e como foram os anos servindo a agência de inteligência.

De sua experiência, ela conclui que, dadas as características que seriam tipicamente femininas, uma mulher seria uma profissional adequada para trabalhar com a espionagem. "A realidade é que mulheres são particularmente adequadas para esse tipo de trabalho — têm mais inteligência emocional, intuição, são multitarefas, e costumam seguir o instinto de colaborar em vez de conquistar", diz. Todas essas qualidades, segundo Fox, ajudariam para que a espionagem pudesse vir a ser um caminho para a paz e não para a violência.

A experiência de Fox com a espionagem está em seu livro de memórias "Life Undercover: Coming of Age in the CIA" (Uma Vida Disfarçada: Amadurecendo na CIA, em tradução livre).

Antes mesmo de chegar às livrarias, o livro agitou o mercado e o serviço de inteligência. Os direitos da obra foram comprados para virar uma série para o serviço de streaming da Apple com Brie Larson — que viveu a Capitã Marvel nos cinemas — no papel de Amaryllis Fox. Por outro lado, agentes da CIA colocaram em dúvida a veracidade de algumas informações do livro. Como é comum em casos como esse, a CIA não se pronunciou para esclarecer ou confirmar qualquer dado. Assim, não há uma resposta oficial à obra.

O livro de Amaryllis Fox, ainda sem previsão de lançamento no Brasil - Divulgação
O livro de Amaryllis Fox, ainda sem previsão de lançamento no Brasil
Imagem: Divulgação

Ao TAB, Fox disse que submeteu seu livro à apreciação da CIA, uma prática determinada pelo regimento da agência. Logo que foi lançado nos EUA, em outubro de 2019, o livro se tornou um best-seller. Segundo o jornal The New York Times, Fox compartilha uma série de "segredos feitos para Hollywood" — como deixar sinais no tijolo marcados com Rolaids (uma marca americana de pastilha antiácido) ou se comunicar com as fontes usando cartões do Starbucks. A autora deixou a espionagem em 2010. Hoje, aos 39 anos, ela vive com seus filhos e o marido, Robert F. Kennedy III, neto de Robert Kennedy. Na entrevista a seguir, Fox fala mais sobre a vida de espiã e como foram os anos servindo à CIA.

TAB: Por que você decidiu trabalhar para a CIA?

Amaryllis Fox: Não foi algo que eu tivesse almejado fazer. Estava planejando trabalhar como jornalista, mas os acontecimentos do 11 de setembro, antes do meu último ano como estudante de graduação em Oxford [Reino Unido], trouxeram de volta muitos dos temores que eu tive quando era criança. Tive um amigo querido que morreu com sua família no voo que explodiu sobre Lockerbie, na Escócia, em 1988. No 11 de setembro, percebi que precisava entender as causas do terrorismo — senão, eu não iria superar o medo disso. Dediquei os meus estudos a analisar dados históricos com o objetivo de melhorar a prevenção contra ataques terroristas nos dias atuais. E isso chamou a atenção da CIA.

TAB: Como você se tornou uma espiã?

AF: O meu orientador da tese [após a graduação em Oxford, Fox fez mestrado em Georgetown, nos EUA] me apresentou a um funcionário da CIA. Ele não era como eu imaginava. Era um sujeito mais velho, surpreendentemente quieto e humilde, com uma longa barba branca. Me lembro de quando ele perguntou se eu achava que conseguiria todos os dados históricos relevantes para prevenir ataques terroristas. Eu respondi que achava que tinha encontrado a maior parte do que estava disponível na biblioteca, mas que não tinha acesso à contribuição mais importante: um humano que tivesse suficiente confiança em mim para me contar honestamente por que ele achava que sua única escolha era acordar amanhã e pilotar um avião em direção a um prédio, matando pessoas inocentes. "É isso que eu quero entender", disse a ele. "Nós também", ele respondeu. E foi assim que tudo começou.

TAB: Que tipo de treinamento você teve para se tornar uma espiã?

AF: Foi um programa de treinamento longo e intenso, porque, uma vez que você está em ação, você não é só responsável pela sua própria vida, mas também das vidas daqueles bravos homens e mulheres que escolheram trabalhar conosco para prevenir ataques. Fazemos pelo menos um ano de treinamento introdutório e mais seis meses de simulação em um país fictício, onde os estudantes são cercados por agentes mais experientes, desempenhando papéis de terroristas, diplomatas e fontes. Durante todo o tempo, existe um forte senso de dever e responsabilidade de aprender bem todas as habilidades para proteger as vidas que estarão em risco. O treinamento inclui as coisas que você vê nos filmes — detecção de vigilância, manuseio de armas, navegação terrestre, direção defensiva e outros. Porém, muito mais importante, o essencial no treinamento é realmente construir laços de confiança com o seu adversário, de modo a trabalharem juntos para prevenir ataques. Essa parte não costuma aparecer na cultura pop, mas é o que torna a inteligência humana tão importante para a manutenção da paz.

TAB: Qual foi sua primeira missão como espiã? E a mais difícil?

AF: Eu estava trabalhando para manter as armas de destruição em massa fora das mãos de atores não-estatais, grupos de pessoas que pretendiam adquirir armas nucleares ou biológicas para prejudicar civis. Não estava focada em programas de Estado como Irã ou Coreia do Norte, mas apenas em grupos terroristas e seitas que pregam o fim dos dias. Era uma responsabilidade pesada e todos sentimos isso sobre nossos ombros. É difícil saber quando você é realmente bem-sucedido e quando um ataque foi simplesmente alterado ou adiado.

TAB: Quais estratégias adotou para se proteger durante uma missão?

AF: Foi uma combinação de cuidados com a minha segurança física — mantive a consciência da situação e usei técnicas de espionagem — e do meu bem-estar espiritual — meditava, checava regularmente minha "bússola moral" e meu verdadeiro e mais profundo norte.

TAB: Existe algo que você tenha aprendido como agente da CIA que você usa ainda hoje? Tem algum hábito que você adquiriu?

AF: Com certeza, o hábito de procurar por um possível ponto em comum com todas as pessoas — especialmente com aquelas com quem eu discordo. Isso me ajudou como agente, na carreira posterior como jornalista e como cidadã da minha comunidade local, porque estes são tempos de divisão, politicamente e socialmente. Descobri que dar às pessoas um descanso da discórdia para ressaltar o quanto nós temos para compartilhar pode ser muito saudável. Quando comecei [a trabalhar para a CIA], não esperava que isso se tornasse um legado do meu treinamento. Na melhor das hipóteses, os agentes de inteligência buscam maneiras improváveis de colaborar em nome da prevenção de atos de guerra.

TAB: Como você preparava seu disfarce nas missões? Havia ajuda da CIA?

AF: Disfarçar é grande parte do que mantém agentes de inteligência seguros no campo e toma muito tempo de reflexão e preparação. É o que faz ser tão importante ouvir sua voz interior, estar segura de lembrar seu verdadeiro eu, sua ética e motivação enquanto você entra e sai de seu papel numa operação.

TAB: Você recebeu algum tipo de orientação sobre como se comportar em sua vida privada (relacionamentos, família, amigos) durante uma missão?

AF: Mais que qualquer coisa, a orientação era ser o mais chato possível. Nos filmes nós vemos agentes de inteligência correndo pelos telhados e explodindo coisas. Na vida real, isso poderia comprometer seu disfarce e levá-lo a ser deportado ou preso imediatamente. Você realmente quer que suas interações diárias — sozinha, com a família, com os amigos — sejam o mais normal possível para evitar chamar qualquer atenção indesejada. Então, quando chega a hora de fazer a operação real, você terá menos chances de ser observada.

TAB: Como você lidava com o fato de viver uma "vida dupla"?

AF: Eu procurava a essência da minha autenticidade. Estava entrando e saindo de identidades diferentes por questão de segurança, mas a verdade essencial de quem eu era e porque acreditava em nossa missão estava bem solidificada. Até hoje, separo um tempo todos os dias para ficar quieta e ouvir minha voz interior. Alguns chamam isso de meditação; outros, de oração. Mas essa conexão com um universo maior e minha própria verdade foi crucial para assegurar que eu não esquecesse quem eu era como um ser moral, apesar de toda a estratégia de espionagem de uma operação indo e vindo.

TAB: Por que você decidiu abandonar a espionagem? Você teve que seguir alguma condição imposta pela CIA para deixar a agência?

AF: Deixei a CIA porque eu tinha uma filha pequena e queria dar a ela uma infância estável e tranquila. E também porque eu senti que a CIA e eu tínhamos dado tudo que poderíamos dar. Estabelecer essas relações com nossos adversários para prevenir ataques é um trabalho que acredito ser muito importante para construir a paz. É também um trabalho solitário. É algo que você pode fazer por um certo tempo e então precisa passar para a próxima geração e começar a criar um tipo de vida mais normal.

 Atualmente, Fox leva uma vida pacata ao lado da família - Brent Bolthouse
Atualmente, Fox leva uma vida pacata ao lado da família
Imagem: Brent Bolthouse

TAB: Você enviou seu livro para avaliação da CIA antes da publicação? Como isso funciona?

AF: Sim, fiz isso. É um longo processo e tem uma boa razão para isso. No meu caso, [o processo] demorou cerca de um ano. Há nomes, locais e detalhes de operação que tiveram de ser alterados por questões de segurança. Acho que foi um pouco mais fácil no meu caso porque eu saí da CIA há uma década e as estratégias de espionagem mudaram substancialmente nesse tempo.

TAB: Seu livro recebeu críticas porque algumas situações descritas não são fatos comprovados ou são de difícil comprovação. Como você responde a essas críticas?

AF: Eu realmente acredito que os leitores vão compreender a natureza de escrever de forma honesta sobre o mundo da espionagem. Acho que cada um dos leitores vai entender que certos detalhes operacionais precisam ser omitidos ou modificados. Eu aponto isso na primeira página. No final, achei que não precisava incluir identificações específicas de uma dada operação ou fonte para ser capaz de conduzir o leitor a esta jornada de o que é ser uma jovem de 22 anos de idade atraída pelo mundo da arte da espionagem, ser uma jovem esposa e mãe disfarçada durante a guerra ao terror, lutando com o que essa guerra realmente significa e como ela pode ter um fim.

TAB: Seu livro vai se tornar uma série da Apple TV+ com Brie Larson. Pode contar mais sobre o projeto?

AF: Me sinto muito sortuda por conseguir colocar esta história nas mãos de Brie. Ela é realmente uma força da natureza e tem sido verdadeiramente excelente nesse trabalho por si só. Ela e eu dividimos preocupações sobre como as mulheres são irresponsavelmente representadas nos filmes de espionagem em Hollywood. Quando as garotas inteligentes veem essas representações de espiãs do tipo femme fatale, elas não pensam nisso como uma forma de trabalho que possa ser adequado para elas. A realidade é que mulheres são particularmente adequadas para esse tipo de trabalho. Não é nenhuma surpresa para mim que a CIA agora tenha mulheres em todas as posições de liderança. Espero que vejamos mais jovens que consideram essa opção de carreira porque, no final, a comunidade de inteligência é tão boa quanto as pessoas que a compõem.

TAB: Nos filmes e na ficção em geral, uma espiã comumente tem o papel de seduzir alguém para ganhar sua confiança ou para obter informação. Isso poderia acontecer na vida real nos dias de hoje? Há alguma orientação da CIA sobre isso?

AF: Este é exatamente um exemplo do que eu disse antes. A realidade não poderia ser mais diferente. Você não apenas perde o seu emprego por seduzir uma pessoa importante para seu trabalho como pode ser processado criminalmente. Isso colocaria em risco a segurança de uma operação, e nenhuma agente mulher que eu conheço poderia considerar essa ideia. Essas representações reduzem a contribuição de tantas mulheres fortes, corajosas e capazes a mera fantasia. Me preocupo que elas possam impedir as melhores e mais brilhantes mentes femininas de servir. Isso seria uma tremenda perda para todos nós que valorizamos o diálogo ao invés da violência no mundo.

TAB: Ser mulher influenciou no tipo de missão para a qual você foi designada? A questão de gênero é relevante para a espionagem?

AF: Como disse antes, está cada vez mais claro que mulheres são adequadas para esse trabalho, de modo geral. Quando comecei, ainda havia muita condescendência e assédio de colegas homens, mas nos últimos vinte anos essa realidade mudou de verdade. Agora, cada funcionário homem da CIA tem uma mulher como sua chefe. Muitos têm várias mulheres acima deles na cadeia de comando. E isso me dá esperança em relação ao futuro da agência como um cultivador da colaboração silenciosa em nome da paz.

TAB: O que você faz em relação a sua segurança depois que deixou a CIA? Recebeu ameaças?

AF: Tenho sorte de viver em um dos países mais seguros do mundo e sinto muito orgulho de ter servido a esse país, desempenhando um pequeno papel na sua proteção e segurança. Trabalho muito em minha comunidade local agora, facilitando o diálogo entre membros de gangues rivais e aqueles que recentemente deixaram o sistema de justiça criminal. Descobri que, em vez de se fechar, é muito mais gratificante trabalhar para tornar a comunidade mais segura como um todo.

TAB: Como é sua rotina diária? É possível uma ex-espiã ter uma vida comum?

AF: Muito normal! Sou escritora e jornalista, casada com outro escritor. Passamos a maior parte dos nossos dias trabalhando e editando os projetos um do outro. Nos momentos de lazer, esquiamos com nossas filhas e nosso cachorro ou pegamos nosso ônibus escolar modelo 1962 para acampar em alguma floresta local. Acho que a intensidade e a solidão dos meus 20 anos de idade me fizeram particularmente grata por cada pequeno e silencioso momento da vida do dia a dia.

TAB: A tecnologia poderia substituir os espiões? Os espiões têm um papel importante para o serviço de inteligência dos EUA no mundo contemporâneo?

AF: Nada pode substituir a conexão humana — a confiança que é lentamente construída entre dois adversários até que eles percebam que, juntos, eles podem proteger a vida de suas crianças. A tecnologia pode fornecer dados sobre o que está acontecendo, mas apenas recursos humanos vão dizer o que vai acontecer em seguida e por quê.

TAB: É possível ter espiões da CIA no Brasil? E espiões brasileiros trabalhando para a CIA?

AF: Nunca trabalhei na América do Sul, então não posso responder. Ao redor do mundo, a CIA tende a considerar relacionamentos com aqueles que podem ajudar na proteção contra violência e prevenir atos de guerra.