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Covid-19 e a 'dupla morte': como lidar com a dor de um luto sem despedida

Caixões na igreja San Giuseppe in Seriate, próxima a Bérgamo - Piero Cruciatti/AFP (26.3.2020)
Caixões na igreja San Giuseppe in Seriate, próxima a Bérgamo Imagem: Piero Cruciatti/AFP (26.3.2020)

Mateus Araújo

Colaboração para o TAB

01/04/2020 04h00

As imagens de caminhões do Exército levando corpos de vítimas da covid-19, em Bérgamo, na Itália, para serem cremados, têm chocado o mundo inteiro. Epicentro da pandemia na Europa, a província que fica ao norte do país já tem mais de 1.300 mortos em decorrência do novo coronavírus, conforme balanço divulgado quarta-feira (25) pelo Ministério da Saúde italiano.

Com o grande número de mortes, a Itália já não dá mais conta de sepultar seus mortos. Os necrotérios dos hospitais estão cheios, e foi preciso improvisar outros espaços para armazenar os corpos, como uma pista de patinação de gelo e até salões de igrejas. Uma lei nacional impede velórios, e, com o isolamento social, amigos e familiares sequer podem se despedir dos seus entes queridos.

A "dupla morte", modo como alguns italianos têm definido, deixará marcas psicológicas em milhares de pessoas impedidas de viver o luto. O ritual do velório, quando se olha para o corpo de alguém morto para a despedida, é a maneira de se compreender que de fato aquela pessoa se foi. Pular esse momento, além de agravar a dor, traz efeitos psíquicos indesejáveis, segundo o psicanalista Christian Dunker.

"Para nossa realidade psíquica, admitir que a gente morre, o outro morre, que existe a morte, é algo muito difícil", pontua. "Freud dizia que é algo no limite do inaceitável. Por mais que a gente sabia [da morte], a gente sabe disso para os outros, mas não sabe para si." Estudos no campo da psicanálise apontam que parte das depressões mais difíceis de curar, por exemplo, decorrem de luto mal feito, mal elaborado, interrompido ou não reconhecido.

De acordo com Dunker, o luto é um processo de ressignificação da dor. "Quando a gente pode ter saudade de alguém, quando a gente gosta de lembrar de alguém, quando esse alguém se torna parte integrante de nossa jornada humana, é porque o luto terminou, que foi possível levar com a gente o essencial naqueles que nos antecederam", conta. "Quando a gente tem numa família um corpo que é perdido, um velório que não é feito, uma despedida que não se realiza, ali, naquele espaço do irrealizável, muita coisa pode ser introduzida em um plano traumático. Em tese, é muito ruim quando a gente não tem esse momento da despedida e da experiência do corpo como morto."

Comparação com a guerra

Em entrevista à BBC, funcionários de funerárias italianas contam como tem sido difícil para as famílias aceitarem esse impedimento, e ao mesmo tempo, como tentam amenizar a distância daquele momento. "Enviamos aos entes queridos uma foto do caixão que será usado, depois pegamos o cadáver no hospital e o enterramos ou cremamos. Eles não têm escolha a não ser confiar em nós", diz Andrea Cerato. "Não podemos vesti-los, não podemos pentear seus cabelos, não podemos maquiá-los. Não podemos prepará-los para parecerem bonitos e em paz. É muito triste."

Em contextos extremos como esse, analisa Christian Dunker, sem rituais de despedida e luto, altera-se não só o cotidiano mas a cadeia da qual fazemos parte. O psicanalista também faz um comparativo à situação de guerra, quando há uma perda coletiva e não se consegue contar os mortos, enterrá-los nem identificá-los. "É isso que define a catástrofe", frisa. "A guerra é um paradigma para a catástrofe, porque ela produz exatamente essa vala comum, essa impossibilidade de distinguir e valorizar cada vida, que é insubstituível."

"Quando a gente vê essa contabilidade obscena que alguns fazem: 'ah, vamos perder alguma vidas, mas no geral a gente ganha?', o que está sendo substituído e ultrapassado é o valor infinito que cada vida tem. Aqueles que acham que é possível contar a vida como a gente conta o dinheiro estão confrontando uma lei maior, que submete a economia, que torna a vida maior que a economia", aponta Dunker. "É bom voltar aos livros de História antes que essa catástrofe se torne ainda mais patológica do que poderia e deveria ser."

"Morreram em completa solidão"

O consultor de indústria farmacêutica Alessandro Consorti, italiano que mora em Parma, conversou com TAB e lembra que as imagens do comboio de caminhões em Bérgamo comoveu todo o seu país e "realizaram algo que as notícias não conseguiram fazer: a gente se deu conta da gravidade da situação". "A gente entendeu qual poderia ser o impacto de caminhar pela rua, de não ficar em casa, de fazer uma vida seminormal. Tudo isso significava a morte para alguém, seus avós, seus parentes, quem sabe."

Apesar de não ter nenhum caso de morte entre seus familiares e amigo mais próximos, Consorti diz que os relatos de pessoas que não puderam ter uma despedida despertaram uma sensação de impotência. "É um luto duplo, morrer duas vezes, não poder ver pela última vez alguém que foi querido, não realizar completamente a morte de alguém que você sabe que faleceu mas não poder fazer nada. Essas pessoas morreram em completa solidão, sem o afeto dos queridos, tendo como companhia somente os outros doentes", diz. "Eu e meus amigos, no dia seguinte, comparamos (talvez injustamente) essa situação de não poder fazer adequadamente um velório a uma situação de guerra, na qual você não pode decidir, só pode suportar, ir pra frente."

Caminhões do exército italiano estacionados do lado de fora do Cemitério Monumental de Bérgamo - ANSA/AFP - ANSA/AFP
Caminhões do exército italiano estacionados do lado de fora do Cemitério Monumental de Bérgamo
Imagem: ANSA/AFP

Hoje Bérgamo se tornou uma cidade fantasma, segundo o italiano. "Já era assim desde o começo dessa pandemia, mas agora os vivos também parecem um pouco mais mortos, dado que a coisa mais natural foi negada a eles, o direito de enterrar os próprios queridos", afirma. "É uma situação que está bem longe do que nós podíamos pensar. Acho que aquela imagem alcançou os corações e as cabeças de todos nós, mais do que nunca sabemos o quanto é importante ficar em casa."

Para a vinhateira Nicoletta Loreti, que vive em Zagarolo, a 60 quilômetros de Roma, as imagens dos mortos "levam de volta aos períodos de ruína" da história italiana. "Não é a proximidade geográfica que nos faz sentir mais simpáticos a essa imagem. Não é a geografia que nos dá a medida da dor que entrou em todas as famílias", explica, ao TAB. "A julgar por essa imagem, acredito que não temos a medida do quanto esse vírus afeta a todos igualmente. Não há imunidade. Ninguém é poupado. Pode realmente afetar qualquer pessoa."

Assim como Alessandro Consorti, Loreti acredita que as imagens, além de evocar dor e luto, também servem como "um impulso vital muito forte, que diz respeito ao desejo de sair desse drama". "O impulso vital se manifesta através da atenção nas medidas a serem respeitadas com um senso de responsabilidade individual e coletiva. Somos chamados a prestar atenção a nós mesmos e aos outros da mesma maneira. O senso de comunidade é realmente importante. O sentido é preservar-se do vírus para preservar os outros."

Aprender um novo luto

A impossibilidade de velar e até enterrar os mortos não é apenas um problema na Itália. Em outros países, familiares e amigos também sofrem a "dupla dor" de não se despedir dos entes queridos.

A atriz canadense Nia Vardalos não foi ao velório do pai, no Canadá, que morreu no último dia 12, vítima do novo coronavírus. Ela mora nos Estados Unidos, e devido ao fechamento da fronteira entre os dois países, não conseguiu viajar. "No hospital, eles fizeram uma ligação por vídeo e me deixaram falar com ele. Eu pude agradecê-lo por ter me dado uma vida incrível, e dizer que ele foi um verdadeiro cavalheiro e um ótimo pai. Minha mãe segurou a mão dele e disse que estava tudo bem se ele quisesse partir", contou, em entrevista à revista Variety.

No caso da jornalista Carol Sassatelli, cujo pai morreu na última quarta-feira (25), em Uberaba, interior de Minas Gerais, aos 56 anos, com problemas de coração, a despedida não aconteceu devido às normas de isolamento social no estado. "A maior parte da nossa família é de São Paulo, todo mundo mais velho, os irmãos dele e os amigos. E como estamos todos em isolamento, não deu para fazer o velório. O máximo que aconteceu foi que meu irmão, que morava com ele, e mais cinco pessoas ficaram por meia hora na capela da clínica, velando o corpo", diz. "Eu não consegui ir, e nem ia dar tempo de chegar lá, porque a viagem dura seis horas."

O pai de Sassatelli não tinha covid-19. Era diabético e estava internado desde outubro de 2019, em decorrência de uma infecção no pé, após uma cirurgia. "O quadro evoluiu para um pneumonia, e, em seguida, para problemas no coração. No Hospital do Câncer, onde ele estava, não tinha especialista para o tratamento nem cardiologista. Com um caso de morte por pneumonia na UTI de lá, precisaram desocupar. Ele voltou pra clínica de antes, e ficou esperando uma nova vaga em UTI com cardiologista. Mas por causa dos casos do novo coronavírus, as UTIs estavam sendo preparadas. Mas ele terminou morrendo na madrugada de quarta", conta ela ao TAB.

"É estranho o sentimento de você estar impossibilitado de dar tchau, de fazer uma homenagem. Dá um sentimento de impotência", diz a jornalista. "Você não consegue passar pelo processo de chorar, é estranho. Parece que eu estou aprendendo um novo processo de luto. Já passei por outra situações de falecimento na família, e você via, ficava no velório, enterrava, depois vai pra casa."

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou uma cartilha no próprio dia 25 com normas para o manejo de corpos de pessoas que morrem em decorrência da covid-19, e entre os tópicos está a orientação para evitar velórios e funerais. No caso das famílias que optem por fazê-los, a agência diz que o caixão deve estar lacrado e fechado, e que a cerimônia não pode ultrapassar uma hora de duração nem ter mais de 10 pessoas.

A morte e o preconceito

Em outros momentos da história, corpos também foram enterrados em caixões lacrados, como na epidemia do HIV, entre os anos 1980 e 1990 — época em que o sofrimento da perda esteve associado ao estigma.

"Nunca tinha experimentado uma situação tão marcante como aquela, que ainda me incomoda", lembra o coordenador do Grupo de Trabalhos em Prevenção Positiva (GTP+), Wladimir Reis. Em 1994, o companheiro dele, Alberto, que era soropositivo, morreu de tuberculose. Naquela época, com o preconceito em torno da Aids, o corpo foi colocado em caixão fechado com pregos e enterrado com uma camada de cal por cima.

"No velório, me disseram: 'Não encoste no caixão, ele morreu de Aids, vamos colocar cal e fechar com pregos. A gerência do cemitério disse que os restos mortais precisariam ser retirados antes de dois anos, pois poderia infectar as pessoas que passassem ao lado de onde ele foi enterrado", conta Reis.

No entanto, o trauma do luto transformou-se em militância política. Há 29 anos ele vive com o HIV, e, "sujeito e sabedor dos meus direitos e deveres e do papel do Estado e da sociedade civil", diz que procurou "minimizar a discriminação, promovendo o conhecimento e a formação de cidadãos", através da ONG recifense fundada no ano 2000.

Já na epidemia de ebola na África, que teve início em 2013 e foi oficialmente contida em 2016, com 28.616 casos e 11.310 mortes, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), mexeu com o luto da população muçulmana do oeste do continente. "Para eles, os rituais de passagem, do nascimento, da puberdade, casamento e morte, dão a marcha da vida das comunidades", diz a doutora em antropologia Denise Pimenta, autora da tese "O cuidado perigoso: Tramas de afeto e risco na Serra Leoa", pela USP (Universidade de São Paulo).

"Para os muçulmanos, quando a pessoa morre, para ser recebida por Alá, tem que estar pura. Então existe a limpeza do corpo. Mulheres, quando morrem, são lavadas pelas mulheres mais importantes da comunidade. E os homens lavam os homens. Depois, os corpos são envolvidos num pano branco."

Com as mortes de ebola, os rituais mudaram. "No pico da doença, pelo número de infectados, as famílias não tinham como acompanhar nos hospitais. Na Serra Leoa, os primeiros mortos foram enterrados nos 'Cemitérios de Ebola'. E os primeiros túmulos não têm nome, só data. Começou a morrer tanta gente que não se sabia de onde estavam vindo, que eram essas pessoas", conta Pimenta. "Então a gente sai de um movimento cultural no qual a morte e seus rituais são extremamente importantes para um momento em que as pessoas são enterradas sem nome, sem rito. Isso gera uma celeuma nessa sociedade."

Apesar das regras sanitárias, no entanto, muitas comunidades chegaram a esconder os corpos das pessoas para fazerem os rituais. "O antropólogo Paul Richards diz que essas pessoas não são ignorantes. Elas sabem que o corpo morto é o momento mais perigoso para transmissão do vírus. Mas elas enfrentam o perigo para que a pureza dos ritos funerários sejam respeitados. Se assume um risco do perigo para que seus mortos virem seus ancestrais com pureza", afirma Pimenta.