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A ciência pós-pandemia: futuro pode estar nos dados e na colaboração cidadã

William Iven/Unsplash
Imagem: William Iven/Unsplash

Luiza Pollo

Colaboração para o TAB

11/06/2020 04h00

Fazer pesquisa custa caro, leva tempo e exige o envolvimento de muita gente. Durante a pandemia do novo coronavírus, a carência de recursos e a correria para encontrar remédios e uma vacina eficazes são tropeços. Ainda assim, a ciência ganhou protagonismo e prestígio, como constatam os próprios cientistas.

"A gente entende que essa transformação, embora seja um momento muito, muito triste, por outro lado trouxe um olhar para a tomada de decisões baseada em evidências", avalia Ricardo Cappra, cientista-chefe do Cappra Institute para Data Science e professor da PUC-RS Online. Ele, que trabalha diretamente com empresas, afirma que o termo "ciência baseada em evidências" começou a aparecer cada vez com mais frequência no vocabulário de executivos.

COMO ERA: A ciência de dados já vinha ganhando protagonismo há alguns anos, reconhece Cappra. O especialista acredita, contudo, que a análise de informações em tempo real durante a pandemia — com destaque para o sequenciamento em tempo recorde do RNA do vírus e diversas colaborações online — fez "brilhar os olhos dos executivos", nas palavras dele, aumentando a demanda por análises mais rápidas e a curiosidade pela ajuda das máquinas na tomada de decisões. Além disso, na paralela, um movimento vem ganhando espaço no Brasil há aproximadamente 15 anos, explica o biólogo Vinicius Giglio, pesquisador na Unifesp. "A ciência cidadã começou como um movimento nos Estados Unidos e na Inglaterra, e hoje em dia é como se fosse uma ferramenta inclusiva de pesquisa", explica. "Além de fazer com que as pessoas contribuam, é um meio de sensibilizá-las para a ciência."

Por redes sociais ou site, pesquisadores conseguem manter contato com cidadãos diletantes. A área das ciências naturais é uma das que mais atraem cientistas leigos, como mostram os projetos brasileiros. Há os apaixonados por aves em diversas partes do mundo, que ajudam a identificá-las e catalogá-las em passeios de observação. Há turistas curiosos que fazem vídeos e fotos para compreender melhor as espécies capturadas na pesca recreativa no banco do Arquipélago de Abrolhos, no litoral baiano. E há ainda os fãs de flores que fotografam as espécies da Chapada Diamantina e ajudam na observação da polinização.

COMO FOI ADAPTADA NA PANDEMIA: Cappra considera que a pandemia de Covid-19 provocou uma desburocratização da pesquisa — laboratórios, universidades, pesquisadores iniciantes, médicos e até pessoas "comuns" encontram formas de contribuir para chegar a resultados com mais rapidez. "Você vê pesquisadores jovens trabalhando com gente da Universidade de Harvard, juntos, para construir soluções e alternativas", afirma. A ideia da ciência cidadã é que qualquer um de nós pode colaborar com uma pesquisa — seja enviando uma foto de um coral pelas redes sociais para o projeto De Olho nos Corais, seja ajudando o Etch a Cell analisar células, entre diversos outros projetos em curso pelo mundo. "A pandemia tem mudado nossa forma de comunicação. Ela nos tem feito pensar em coisas que a gente não pensava antes, ou pensava muito pouco. E as redes sociais, essas novas ferramentas de comunicação, têm sido muito importantes no processo de geração de conhecimento", diz Giglio.

No campo da ciência cidadã, iniciativas nas mais diversas áreas de pesquisa, como psicologia e medicina têm chamado atenção. O projeto do Boston Children's Hospital chamado Flu Near You, que reúne e mapeia informações de cidadãos sobre sintomas da gripe nos Estados Unidos, por exemplo, ganhou uma versão chamada Covid Near You, com o objetivo de prever onde a doença pode se espalhar a seguir. A ideia é simples: você entra no site e responde a algumas perguntas sobre os principais sintomas de infecção pelo novo coronavírus, se viajou recentemente ou entrou em contato com alguém infectado. O site reúne essas informações e mostra, em um mapa, onde há mais gente reportando sintomas, além da concentração de testes positivos.

Também ganham projetos que estariam parados durante a pandemia, não fosse a colaboração de internautas. O Etch a Cell, por exemplo, diz ter registrado o dobro de tráfego no site durante a pandemia quando comparado com outros tempos, apesar de o laboratório do qual faz parte estar praticamente parado.

COMO SERÁ DEPOIS: Com o aumento da participação não especializada no fazer científico, a atenção precisa ser redobrada. Giglio explica que há projetos para os quais os cientistas cidadãos precisam ser treinados para realizar um trabalho de qualidade. Tirar uma foto de um coral e enviar para um projeto pode ser coisa simples, mas analisar as partes de uma célula, por exemplo, exige o mínimo de conhecimento. A ideia não é que a população realize tarefas que são da formação específica dos cientistas, mas sim que contribuam com "mão de obra" para acelerar o processo de produção científica e enriquecê-lo — principalmente em um mundo em que viajar para pesquisar e participar de conferências pode ser mais complicado.

CENÁRIOS POSITIVOS: A colaboração entre diferentes empresas também vem crescendo e pode, como mostra a revista científica Nature, acelerar até mesmo o processo de teste e aprovação de novos medicamentos. Além disso, esse envolvimento pode inclusive ajudar a formar novos cientistas. Os jovens brasileiros são, sim, interessados em ciência, como aponta uma pesquisa de 2019 realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia. Quase 70% dos entrevistados disseram ter interesse em ciência e tecnologia, perdendo apenas para meio ambiente (com 80% de interessados) e medicina e saúde (74%) — temas ligados à ciência. Com o holofote que a área vem ganhando durante a pandemia, até mesmo as redes sociais entraram nessa equação.

CENÁRIOS NEGATIVOS: Cappra diz ter receio que a valorização da ciência não se sustente no pós-pandemia. "Talvez a ciência seja colocada um pouco de lado. Tenho preocupação de que, talvez, quando sairmos desse estado de emergência, as coisas voltem ao que era normal antes. E seria uma pena", avalia ele. Um dos problemas apontados pela comunidade científica é que a pressa para validar testes e medicamentos tem atropelado o método científico clássico, que precisa de tempo para avaliar a eficácia ou não de determinados processos. O público, que procura uma solução definitiva, reclama do vaivém das declarações e recomendações. Com isso, a pesquisa científica corre o risco de perder credibilidade, exatamente por não atender ao anseio de respostas rápidas. Ainda assim, o susto e o risco econômico de atravessar uma crise pandêmica despreparado servem de alerta aos países, que têm agora a chance de reequipar institutos de pesquisa e órgãos de saúde pública.

Fontes: Ricardo Cappra, cientista de dados e professor da PUC-RS Online (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e Vinicius Giglio, biólogo e pesquisador da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)