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Água benta e kits de oração: uma manhã com o 'motivador' Fábio Teruel

Show-culto do motivador e evangelizador Fábio Teruel, no Centro de Tradições Nordestinas, em SP - Keiny Andrade/UOL
Show-culto do motivador e evangelizador Fábio Teruel, no Centro de Tradições Nordestinas, em SP Imagem: Keiny Andrade/UOL

Paulo Sampaio

Do TAB

17/11/2020 04h01

A vereadora eleita por São Paulo Ely Teruel (Podemos), 44, fala com muito orgulho do marido, o radialista "evangelizador motivacional" Fábio Teruel, 49, que tem 2,9 milhões de seguidores no "insta". Nas palavras dela, os dois nasceram um para o outro. "A gente se completa."

A completude é tamanha que Ely quase não precisou fazer campanha para conseguir os 23.063 votos que a elegeram. "Não fui atrás de votos, nem tenho tempo. Quem vai nos eleger são as pessoas que nos conhecem, nosso público", disse ela, no sábado (14), empregando o plural.

Naquele dia, véspera da eleição, Fábio apresentou um show para cerca de 1.800 pessoas no palco do CTN (Centro de Tradições Nordestinas), no Bairro do Limão, zona norte de São Paulo. Normalmente, o evangelizador reúne até 8 mil adoradores no local, mas, para obedecer à legislação imposta pela quarentena da Covid-19, a casa restringiu a lotação.

"A gente nunca cobrou ingresso, nem um tostão, nada, mas desta vez precisávamos ter o controle da capacidade autorizada pela lei", disse a agora vereadora recém-eleita. Ela justifica a escolha do CTN para apresentar o show com o fato de muitos dos seguidores de Fábio serem nordestinos. O casal estabeleceu o valor de R$ 5 pelo ingresso.

Segundo Ely, a única coisa que ela e o marido pedem a quem quiser colaborar com o trabalho social que eles realizam — com mães de crianças carentes — são latas de leite em pó. "Por mês, entregamos três mil latinhas abençoadas, cestas básicas e fraldas."

Atrás do 'sem-vergonha'

O começo do show estava marcado para as 8h, mas, enquanto o marido não chegava, foi Ely quem comandou o espetáculo, nos bastidores. Em tom imperativo, ela distribuiu tarefas a assessores munidos de mini-rádios, que respondiam que estava "tudo sob controle". "Parece que tem um sem-vergonha vendendo ingresso a R$ 30", avisa ela. "Vê isso, manda alguém atrás!"

Morena, rosto redondo, olhos vivos cor de azeitona e cabelos lisos, Ely Teruel usa uma calça muito justa preta, uma blusa tomara-que-caia de babados no mesmo tom e uma sandália plataforma cor de camelo, coberta pela boca de sino. "Quem não gosta de um pretinho básico para esconder os pneu?"

Em uma mesa do pavilhão, ela mostra na tela do celular uma série de imagens que atestam a popularidade de Fabio. "Isso é em Osasco. Fechamos uma rua. Olha a quantidade de gente... Aqui é em Barueri", continuava ela, que disse ser formada em eventos.

Em quinze minutos, a produção libera a entrada da fila de crentes (do tipo católico ou sincrético). Ely sorri apressadamente para todos, prestando mais atenção no trabalho de seus colaboradores, e posa para fotos abraçando mães e parentes de pessoas com deficiência. A uma criança, ela pergunta: "Qual é o seu nome, hein?"; e para a mãe: "Qual o nomezinho dele?"

A doméstica Daiane Alves Silva, 32, no show-culto do motivador e evangelizador Fábio Teruel no Centro de Tradicoes Nordestinas, em SP - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
A doméstica Daiane Alves Silva, 32, no show-culto de Fábio Teruel no CTN, em SP
Imagem: Keiny Andrade/UOL

Aos poucos, os restaurantes de comida nordestina, incluindo os boxes no corredor de entrada, vão abrindo suas portas.

Sobrancelha cor de cenoura

Em meia hora, Fabio Teruel entra em cena. Calça preta, camisa idem e sapato também, ele avança pelo palco elevado, em forma de "T", até bem perto dos fiéis. "O Fábio não é pastor nem padre, é evangelizador", esclarece Ely, meio que tirando o corpo fora. "Também não gosta de ser tachado de artista."

Cabelos marrom-farmácia, pele muito lisa, sobrancelhas permanentemente erguidas nas laterais e coloridas com um tom "acenourado" — próximo ao do favorito de Donald Trump —, o evangelizador usa todo seu charme na interpretação de "Nasci para Te Servir", "Minha Vida é Adoração", "Ah, se eu pudesse" e outras. O repertório do show é formado basicamente por músicas de seu último CD, "Por Águas Profundas" (R$ 25).

Teruel fala muito de Deus, mas foca em Nossa Senhora da Aparecida. Em um crescendo de emoção, ele clama: "Pisa na cabeça do inimigo, Mãe, pisa na cabeça da serpente, Mãe, da serpente que me faz tomar remédio para dormir, Mãe, para acordar, Mãe, para pressão alta, para diabetes. Abre os caminhos, Mãe, afasta esse homem das drogas, afasta esse jovem da pornografia, Mãe..."

Barraquinho de madeira

Um coro espetaculoso entoa "Ohhhh, Ohhhh, Ohhh", enquanto Teruel chama: "Vem, Maria! Vem, Nossa Senhora! Você pode! A minha casa é simples, Mãe, um barraquinho de madeira, Mãe, só tem um cômodo e um banheiro, Mãe, mas é o meu reino."

Em um "momento superação", o evangelizador motivacional repete sua própria experiência, que todos ali conhecem de cor. Diz ele que, no começo da carreira, quando esteve desempregado e acumulou uma dívida de R$ 500 mil, passou por uma depressão profunda. "Sujei o nome da minha mulher, o da irmã dela, o da mãe dela, passei a beber", lembra. "Até que Deus me fez ver que o caminho para sair daquele estado era ajudar as pessoas."

Kit "Vai na Frente"

Para dar uma mostra de sua imensa generosidade, ele desabafa. "Vocês não sabem o quanto está incomodando ter de cobrar R$ 5 pelo ingresso. Eu sei que muitos aqui mal conseguem juntar o dinheiro da condução para vir me assistir."

Pessoas aguardam na fila para entrar no show-culto do evangelizador Fábio Teruel, no CTN, em São Paulo - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Pessoas aguardam na fila para entrar no show-culto do evangelizador Fábio Teruel, no CTN, em São Paulo
Imagem: Keiny Andrade/UOL

O intrigante é que o evangelizador não menciona incômodo em vender, para o mesmo público, o kit "Maria Vai na Frente" (R$ 195, ou 6 vezes de 32,50, no cartão de crédito). Uma turma de voluntários circula entre as mesas, oferecendo as caixas abençoadas.

Contém: um conjunto de incensos da devoção das 3 Aves Marias, para 21 dias de oração; a novena minuto de Santa Rita + oração para solução em casos difíceis; a novena minuto de São Judas + oração para os momentos de aflição; a carteira de trabalho de São José Operário + oração para novas oportunidades profissionais; um cartão sanfonado com promessas de Deus para o seu crescimento financeiro; a dezena de dedo da batalha espiritual; um ímã de geladeira com as regras de uma casa abençoada; uma exclusiva medalha da revelação da face de Cristo, e um livro com 31 promessas de vitórias para a sua vida.

Caixa personalizada de Maria

No site do Instituto Azul (a cor do manto de Nossa Senhora da Aparecida), criado para administrar as benfeitorias do casal, informa-se que o kit é enviado com dois presentes: o cartão do manto de Maria e o óleo de canela de Santa Filomena. "Você receberá todos os itens dentro de uma caixa personalizada de Maria."

Para quem mora em um barraco de madeira e não tem dinheiro para a condução, é puxado. Mas os integrantes do "exército azul", como são chamados os fiéis de Teruel, não pensam duas vezes antes de gastar o que não têm para adquirir as novenas. Pelo que todos ali parecem crer, a pessoa só alcança uma graça quando oferece o kit a alguém.

"Deus reconhece a sua generosidade", explica a dona de casa Elaine de Moares, 31, que atribui uma gravidez e uma casa própria à oferta do kit. Não deixa de ser engenhoso. A pessoa "compra generosidade" por R$ 195, consegue alcançar a graça e, o mais importante, ajuda o evangelizador motivacional a quitar suas dívidas.

Vendem-se orações

A dona de casa Nilda Maria dos Santos, 62, conta que o filho Eric, 39, já está "quase falando". "Ele tem atraso mental, por causa de problemas sofridos no parto", diz. A neta de Nilda, segundo ela conta, conseguiu um emprego. E haja kit.

A diarista Ivanilda Jesus da Silva, 36, outra consumidora do kit, diz que saiu da depressão causada por uma gravidez indesejada. "Aceitei a criança", conta.

A poucos metros, a baby sitter Lindalva dos Santos, 52, compra a "oração da semana". Sim, vendem-se orações ali também, por R$ 10. Lindalva conta que, depois de adquirir muitos kits e fazer novenas completas, conseguiu a guarda do neto. "A mãe dele era envolvida com drogas, mas não me deixava levá-lo. Fui abençoada pela decisão do juiz."

Show de Fábio Teruel no Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo - Keiny Andrade/UOL - Keiny Andrade/UOL
Imagem: Keiny Andrade/UOL

No pacote, ou avulso

A comerciária Selma Maria da Costa, 45, pergunta se o kit é "desmanchável" — se dá pra comprar os itens avulsos. "A senhora pode adquirir tudo separadamente, lá fora, na barraca do Instituto Azul", diz Ana Paula Sertori, 42, uma dos cerca de 20 vendedores de kits que circulam entre as mesas.

Eles usam um colete verde cítrico onde se lê "voluntário". Pergunto a Ana Paula se ela de fato não ganha nada para trabalhar para os Teruel. Ela responde: "O 'voluntário' só consta do colete. Estou trabalhando", diz.

A cuidadora Sandra Regina Tozatti, 56, trouxe a prima Edna dos Santos, 46, que "ia operar do cérebro". "Ela teve toxoplasmose, estava entre a vida e a morte", conta Sandra.

Edna chora ao lembrar como alcançou a graça. "Minha sobrinha de 10 anos disse que eu ia ficar boa. Ela viu Nossa Senhora, e falou que eu precisava conseguir um pedaço do manto azul dela. Eu disse: 'Mas isso é impossível!'. Então, descobri que o kit vinha com um pedaço do manto. E eu podia comprar! (ela chora muito)." A composição de itens do kit pode variar.

De repente, no tumulto de pedidos e penitências, uma devota de Teruel me toma por uma espécie de "assistente de evangelizador". Ao me ver com o bloquinho de reportagem na mão, ela passa a recitar seu número de telefone. Tento explicar que não sou da organização, mas ela ignora. E me orienta: "Diz que eu preciso muito falar com ele." Eu anotei, não custava.

Fábio Teruel no Centro de Tradições Nordestinas

Minalba benta

O show está chegando ao fim. Teruel enxuga o suor do rosto com um retalho azul, supostamente um pedaço do manto de Maria, e o atira a esmo na direção do público. Faz o mesmo depois, com flores brancas. Em seguida, vem até a extremidade do "T", fica de cócoras, mostra-se conectado com Nossa Senhora e com Deus. Volta para o fundo do palco, pega uma imagem de Maria e circula com ela à frente do rosto. Retorna, abençoa os "kitianos". Eles querem tocá-lo. O povo agora está amontoado, com as mãos aflitas estendidas na direção do evangelizador, como em um quadro renascentista.

Ao que parece, os cuidados para evitar o contágio da Covid-19 foram entregues às mãos de Nossa Senhora da Aparecida.

No encerramento do espetáculo, Fábio Teruel traz do fundo do palco garrafas plásticas de 510 ml de água e atira o líquido na direção do público, em um amplo movimento de braço. A meu lado, uma mulher me diz que a água é "benta". Imagino a possibilidade de haver uma "Minalba Benta" e me surpreendo com o poder do evangelizador.

Porta dos fundos

Teruel deixa o palco. De acordo com o combinado, aguardo que Ely me chame para conversar com ele. Mas isso nunca acontece.

Os dois, sempre muito sintonizados, mandam seus assessores informarem que "já foram embora". Pergunto se a candidata saiu a pé, já que a poucos metros dali está o inolvidável carro dela, cujas letras da placa são ELY. "Ela foi com o Fábio", diz o assessor, desconcertado.

A reportagem encarou a forma como a dupla se escafedeu como "fuga". Mas minha Nossa Senhora da Aparecida, por quê?

De qualquer maneira, a produção já havia dispensado os voluntários que empunhavam as bandeiras da propaganda eleitoral de Ely Teruel no portão do CTN.

Errata: o texto foi atualizado
O partido de Ely Teruel é o Podemos, e não o PSC, como publicado anteriormente. A informação foi corrigida.