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'Igual Roddy Ricch': jovem viraliza cantando em inglês em Cidade Tiradentes

Filype Kaique da Silva, 24, o VulgoFK, com a Cohab de Cidade Tiradentes (SP) ao fundo - Arquivo pessoal
Filype Kaique da Silva, 24, o VulgoFK, com a Cohab de Cidade Tiradentes (SP) ao fundo Imagem: Arquivo pessoal

Giacomo Vicenzo

Colaboração para o TAB

07/12/2020 04h01

Atrás das lentes cor de rubi que brilham como fogo está Filype Kaique da Silva, 24. Vestindo uma camisa do Flamengo, ele canta a capella os versos em inglês da música "Down Below" do rapper norte-americano Roddy Ricch. Acompanhada de palmas, montado em sua moto vermelha Hornet 600 cilindradas, da cor dos prédios da Cohab, sua voz suave briga com o barulho do escapamento. O estrondo grave bate nas paredes dos prédios quando o giro do motor sobe.

Silva é mais conhecido como VulgoFK, e a cena narrada acima é trecho de um vídeo que viralizou nas redes sociais, gravado na região conhecida como Morro do Urubu, na Cidade Tiradentes, bairro em que nasceu e cresceu, periferia do extremo leste de São Paulo.

Em seu Instagram o conteúdo tem mais de 950 mil visualizações, mas o sucesso não foi barrado na fronteira, ao menos não no universo da internet. A página oficial de Roddy Ricch no YouTube também explodiu com comentários de brasileiros. Em tom de brincadeira, os fãs reivindicam que a música é na realidade propriedade do brasileiro, e que Roddy Ricch estaria só fazendo um cover e esquecendo de citar o detentor dos direitos autorais.

"Então esse é o cara que copiou o gordinho da camisa do Flamengo"

"Só quem veio pelo cara da camisa do Flamengo vai curtir"

Os comentários em português fazem sumir os escritos em inglês.

Os versos interpretados pelo brasileiro fazem menção a uma fase pesada na vida do rapper californiano. Ricch passou um curto período na cadeia — aos 18, bateu o carro e foi preso por porte de arma. Como Filype, morava em um modelo de habitação social dos EUA destinada às pessoas com menos recursos financeiros conhecido como projects (public housing projects).

Filype Kaique da Silva, 24, o VulgoFK - Divulgação - Divulgação
Filype Kaique da Silva, 24, o VulgoFK
Imagem: Divulgação

A canção não foi escolhida por acaso. Fluente em inglês, ele sabe muito bem o que está cantando e viveu realidades semelhantes no Brasil e nos Estados Unidos. "É pelo que ele [Roddy Ricch] fala mesmo, para as pessoas buscarem uma tradução e verem que é uma letra da hora", comenta.

Vivência de quebrada na gringa

O brasileiro foi algumas vezes aos EUA. Na primeira, em 2015, fez um programa de intercâmbio para aprender inglês que durou três meses. Silva arcou com os custos vendendo uma moto que tinha na época. "Eu trabalhava na região da R. 25 de Março e vi um negócio de intercâmbio, não era tão caro. Tive que investir uns R$ 7.000 em tudo. Vendi a minha CB 300 por R$ 10.000 na época para bancar", lembra.

Filype cursava publicidade e propaganda quando foi estudar nos EUA. Ficou em Los Angeles, no ELS Language Center, que fica dentro do campus da The Los Angeles Film School.

A viagem lhe rendeu um inglês mais aprimorado, mas de quebra o fez bombar em algumas disciplinas na faculdade. Filype trabalhou por cerca de um ano e seis meses em uma agência de audiovisual. Já em 2019, sem emprego, ficou sem perspectiva de recolocação.

"A maioria das pessoas dessa área de audiovisual e propaganda tem condição financeira boa. Não tinha contatos para entrar em agências. Recebi a proposta para morar e trabalhar fora de um colega que já estava nos EUA e fui", lembra ele.

A busca pelo sonho americano o levou de uma periferia a outra. Filype saiu do maior conjunto habitacional da América Latina, em Cidade Tiradentes, para a área do gueto de Baltimore, no estado de Maryland. Morava com o amigo que o convidou em um apartamento semelhante aos que tomam conta do horizonte do seu bairro natal. "Fiquei nos projects, semelhantes aos apartamentos da Cohab. São predinhos de quarto, sala e cozinha", lembra ele.

Mas muito distante da vida macia que levava estudando inglês no passado em terras estrangeiras, o brasileiro encontrou uma rotina dura de trabalho de até 12 horas por dia e viveu em um bairro dominado por gangues. Com visto de turista, Silva era agenciado clandestinamente por uma agência de empregos e fazia serviços de jardineiro, colocador de pisos, churrasqueiro, cortador de carne, limpador de neve e outros serviços braçais que pintassem.

'Periferia é periferia em qualquer lugar'

Andar pelas ruas de Baltimore o fazia lembrar das periferias brasileiras, mas Filype considera as quebradas de lá ainda mais perigosas e abandonadas pelo Estado. "É a mesma coisa, só mudam os costumes. Lá eles andam armados e era muito mais violento. Com várias gangues, os conflitos eram constantes", lembra ele.

Encontrar tantas pessoas doentes e viciadas em drogas também impressionou o jovem. "Eram muitos usuários de crack. Em alguns lugares pareciam zumbis. Havia muitas senhoras mancando e tossindo muito pelos projects", comenta.

Filype sabe que a pobreza, nos EUA, impede muitos moradores locais a tentar um tratamento médico. "Tem bastante gente que reclama do SUS [Sistema Único de Saúde], mas sem ele a gente estaria ferrado no Brasil. Tudo que é relacionado à saúde pública eu defendo, porque sei a necessidade disso."

Apesar do local aparentemente hostil, o brasileiro andava pelas ruas à vontade e ainda desobedeceu uma ordem expressa de seu chefe para não conversar com os membros das gangues. "Estava morando no prédio dos gângsteres. O cara chegou, já se apresentou e disse que a gente estava protegido e instruiu sobre as quebradas. Disse que era para avisar quando fosse sair", comenta.

Apesar da rivalidade, Filype tinha colegas no país em grupos diferentes.

Apesar de sua postura amistosa, ele chegou a ser parado na rua por vestir peças de roupa na mesma cor com que uma gangue local se identifica. "Já aconteceu de um cara me mandar tirar um conjunto que estava usando, não pode andar com uma cor só. Um detalhe vermelho ou azul já diferencia uma pessoa comum de um gângster lá", explica.

Filype Kaique da Silva, o Vulgo FK, trabalhando com construção civil nos EUA - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Filype Kaique da Silva, o Vulgo FK, trabalhando com construção civil nos EUA
Imagem: Arquivo pessoal

Um cara que veio bem de baixo

Com medo de ser deportado, Filype voltou ao Brasil seis meses depois da experiência nos EUA. Ele conta ter amadurecido, mas não recomenda a experiência para ninguém. "Não aconselho ninguém a viver o sonho americano dessa forma. Lá fora você será faxineiro, não vai ganhar nem US$ 700 por semana. Passei frio e só não passei fome porque meu amigo que já estava lá há mais tempo estava um pouco mais estruturado", lembra ele.

A volta para o Brasil em 2019 lhe reservaria momentos difíceis. Apesar de cantar desde os 14 anos, passando por samba, pagode e rap, Filype não vislumbrava uma forma de ganhar dinheiro com a música, mas já experimentava como passatempo a mistura de palavras em inglês e português em suas rimas, que também foram incrementadas pelas inspirações das quebradas gringas.

Bem longe do microfone, Filype teve como instrumento de trabalho o volante do carro. Sem emprego, ele trabalhou como motorista de aplicativo até o começo de 2020. Um assalto e a chegada da pandemia minaram sua vontade de fazer corridas.

Pouco tempo depois, a família foi surpreendida pela morte do irmão de Filype, pouco mais velho que ele. Falar sobre o fato lhe calou a voz.

Foi apostando em seus posts no Instagram que ele chamou a atenção de um grande nome do funk, que nem imaginava. "Meu filho o ouviu cantando, gostou da voz dele e pediu para que eu fosse sua empresária em um projeto que estamos criando. Acreditamos muito no talento dele e a humildade dele chama a atenção", revelou Valquiria dos Santos, 41, mãe do funkeiro MC Kevin e agora empresária de Filype.

"Meu irmão tinha acabado de falecer e eu só pensava em trabalhar, estava sobre pressão para isso. Foi nesse momento que conheci meus empresários. O MC Kevin me ligou por ligação de vídeo. Agora ganho um salário. Um dia eu era um cara que trabalhava e no outro dia eu vivia de música", comenta Filype, com riso largo.

Lançando suas primeiras faixas autorais, ele continua cantando sucessos de Roddy Ricch. Em seu primeiro videoclipe, "Look The Stars", que homenageia o irmão e fala do lugar de onde veio, ele deixa o recado no trecho da música: "Um preto lá da Tiradentes buscando novos horizontes...".