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Casa própria e carro ainda são desejo da maioria dos jovens de periferia

A diretora de arte Olivia Vieira, seu esposo e filha - Arquivo pessoal
A diretora de arte Olivia Vieira, seu esposo e filha Imagem: Arquivo pessoal

Giacomo Vicenzo

Colaboração para o TAB

18/08/2020 04h01

Sem muito esforço, é possível encontrar dicas de consultores e coachings financeiros na internet que alertam sobre a má escolha que pode ser a compra de uma casa própria ou um automóvel. Alguns jovens, sobretudo de regiões centrais da cidade, já não veem a compra de uma casa ou carro como algo atrativo. No entanto, nas periferias, estes bens seguem como um sonho e um forte símbolo de segurança.

"Quando trabalhava em Pinheiros [bairro de São Paulo], colegas comentavam, na verdade tinham esse discurso na ponta da língua, que a compra de um imóvel é perda de dinheiro, que o melhor era investir. Para mim, aluguel é que não faz sentido, porque você está pagando uma coisa que não é sua. Sempre ouvi da minha mãe que era importante ter uma coisa própria pensando não no agora, mas lá na frente", opina a webdesigner Olivia Vieira, 28.

Vieira é autônoma, trabalha atualmente como diretora de arte e mora na região de Perus, zona noroeste de São Paulo. Viveu de aluguel na região central da cidade por pouco mais de dois anos. Com a chegada da pandemia de Covid-19, a renda familiar caiu 50% e fez com que ela tivesse de se mudar para um imóvel da família, pagando aluguel, mas com valor 60% menor.

A ideia de ter uma casa própria é uma preocupação de Olivia Vieira com o futuro e se tornou ainda mais forte com o nascimento de sua filha, há pouco mais de um ano. "Sinto ainda mais essa cobrança pela estabilidade. Como você vai pagar aluguel e alimentação com uma aposentadoria, lá na frente?", afirma a webdesigner.

O técnico em audiovisual Cassio Alecrim, 31, encarou, junto da esposa, um financiamento de 30 anos para comprar o primeiro imóvel do casal na região de Aricanduva, zona leste de São Paulo. "Estamos pagando o apartamento com a mesma quantia com que estaríamos pagando um aluguel na mesma região. Usamos o programa Minha Casa Minha Vida e temos juros reduzidos na parcela", diz Alecrim.

Ideia nômade importada

O sociólogo Paulo Alexandre de Moraes, mestre pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), lembra que esse debate entre casa própria e alugada veio principalmente da Europa e EUA. "Alguns jovens começaram a apostar num estilo de vida nômade, mais simples, de baixo consumo. São pessoas que já tinham um bom padrão de vida, mas passavam a vida inteira pagando financiamento da casa e carro. Na Europa, comprar um apartamento nas capitais é caro, é preciso trabalhar a vida inteira para conseguir um apartamento pequeno", afirma.

Moraes lembra que essa realidade nômade está longe da que vivemos no Brasil. "[Viver dessa forma] Custa, né? Mas, se der errado, as pessoas que têm condições ainda têm a casa própria dos pais."

Para Vieira, a ideia de não ter casa própria é elitista. "Isso vem de uma classe que não precisa se preocupar com o amanhã. O periférico tem o discurso de compra de imóvel porque ele escuta isso em casa, porque os pais precisaram trabalhar muito para conseguir um terreno, uma casa no CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano]", opina.

Em matéria de guarida

Para Tiaraju D'Andrea, professor do Instituto das Cidades na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e coordenador do CEP (Centro de Estudos Periféricos), a classe trabalhadora tem uma questão histórica com a casa própria. "No Brasil, a pessoa quer sair do aluguel para acabar com o risco do despejo. Porém, bancos e construtoras ganham muito com esse sonho da casa própria", explica o sociólogo ao TAB.

O financiamento imobiliário com recursos da poupança também caminha a passos largos. Em comparação com 2019, o volume foi maior em todos os meses, mesmo diante do cenário de pandemia, de acordo com dados cedidos pela Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

A contratação para crédito imobiliário pela Caixa Econômica Federal também apresentou crescimento no MCMV (Programa Minha Casa Minha Vida): R$ 6,5 bilhões foram cedidos no primeiro trimestre de 2019, e R$ 7,4 bilhões no período equivalente, em 2020.

Cassio Alecrim e sua companheira  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cassio Alecrim e sua companheira
Imagem: Arquivo pessoal

Palavra de investidor

O contador e educador financeiro Murilo Duarte, que se apresenta nas redes como Favelado Investidor, publica vídeos em seu canal do Youtube com dicas de investimento e finanças para moradores da periferia. Ele considera não ser uma boa opção entrar em financiamento, seja de carro ou imóvel.

"Financiamento é dívida, e quem financia uma casa em até 20 ou 30 anos acaba pagando às vezes até duas casas. É preciso ter paciência para comprar o imóvel ou um carro à vista", orienta Duarte.

D'Andrea concorda que pagar um aluguel barato e juntar recursos fazendo esse dinheiro girar até poder comprar o imóvel à vista é uma forma de não pagar juros abusivos aos bancos — mas quem é pobre dificilmente consegue juntar dinheiro e pagar aluguel em paralelo, afirma.

Cassio Alecrim, que trabalha como técnico de audiovisual, viu a sua renda despencar 60% durante a pandemia. Para ele, seria difícil juntar recursos se tivesse que pagar aluguel. "Se você ganha R$ 20 mil por mês, R$ 2 mil de aluguel não vai fazer tanta diferença. Mas uma pessoa assim vai pensar em comprar um apartamento de R$ 700 mil. Se você não ganha tudo isso, a situação muda", diz ele.

Para Olivia Vieira, o tempo também é um problema. "Eu não tenho 20 anos para guardar esse dinheiro. Não dá para confiar na estabilidade do mercado de trabalho."

Claudio Hermolin, vice-presidente de Intermediação Imobiliária e Marketing do Secovi-SP (Sindicato da Habitação de São Paulo), acredita que atualmente se trabalha com menores taxas de financiamento imobiliário, mas é preciso ter certeza sobre a renda. "Em caso de desemprego, se não houver uma poupança, a pessoa pode perder o imóvel", alerta. "Em toda aplicação financeira você pode perder dinheiro. Historicamente, um imóvel sempre foi um bom investimento no sentido de preservar o capital, como preservação de patrimônio. A locação por vezes pode significar o mesmo desembolso, sem nunca te dar o patrimônio."

Moradia nunca foi tratada como direito no Brasil. Políticas de habitação não conseguiram resolver o altíssimo déficit habitacional em grandes cidades. A arquiteta e urbanista Isabel Barboza da Silva, que trabalha assessorando mutirões na zona leste de São Paulo, conta que desde antes do Banco Nacional da Habitação, casa era tratada como mercadoria. "No contexto da ditadura, transformar os trabalhadores em proprietários, ainda que de casas de péssima qualidade, era uma forma de pacificação social. A lógica é: se você é proprietário de algo, você tem algo a perder. O Programa Minha Casa Minha Vida ainda reproduz o mesmo erro de apostar em um modelo privatista."

O fotógrafo Matheus Alves - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O fotógrafo Matheus Alves
Imagem: Arquivo pessoal

Carro além do desejo

De acordo com um estudo recente CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), há quase 11 milhões de famílias endividadas no Brasil; 11,3% estão atrasados nas prestações de carros, e 10,1% em imóveis.

Para o servidor público Rafael Augusto Julio, 29, o financiamento de um carro que foi roubado pesa em seu orçamento e o afastam de qualquer possibilidade de juntar dinheiro. Julio mora de aluguel com sua companheira na região de Itaquera, zona leste de São Paulo, e também deseja comprar uma casa própria. O sonho mais antigo, entretanto, era o e de ter um carro. Recentemente, fez um acordo informal com uma vizinha e lhe paga um valor mensal para poder usar o carro.

Residindo a cerca de uma hora do centro da cidade, o fotógrafo Matheus Alves, 24, enxerga que sua locomoção seria mais difícil caso não tivesse um carro. "Me ajuda muito, pois levo equipamentos para cima e para baixo. Depender só de transporte público é ruim demais. Logo que peguei a chave, falei comigo mesmo — eu tenho um carro, consegui comprar!", lembra ele.

Para Fábio Mariano Borges, doutor em Sociologia do Consumo pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), ter ou não um carro também é questão diretamente relacionada à moradia e acessibilidade. "O sujeito que não faz questão de ter carro é porque ele mora num local nobre e estuda no entorno. Andar de bicicleta pela cidade é muito legal, mas exige que se tenha uma moradia que permita fazer isso. Em uma cidade extensa e não plana, quem mora a 30 quilômetros do centro vai ter que virar um atleta?", questiona.

O processo de popularização do automóvel também pode estar ligado a ideia de quem deixou o carro de lado. "Todo mundo queria um carro, mas só a elite tinha. Parte dessa elite pode dizer agora que carro é coisa do passado, que o negócio é patinete, bike. O nome deste processo é distinção. Legal é ter aquilo que os outros não têm. Quando todo mundo alcança aquele objeto, você procura outro mais exclusivo", sintetiza Paulo Alexandre de Moraes.