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Devido à covid-19, ninguém mais nasce na maternidade mais antiga do Paraná

Nilton Zanandrea, 62, taxista que faz ponto na porta da maternidade Victor Ferreira do Amaral, em Curitiba - Vinicius Konchinski/UOL
Nilton Zanandrea, 62, taxista que faz ponto na porta da maternidade Victor Ferreira do Amaral, em Curitiba Imagem: Vinicius Konchinski/UOL

Vinicius Konchinski

Colaboração para o TAB, de Curitiba

04/04/2021 04h01

Ninguém nasce na maternidade Victor Ferreira do Amaral, a mais antiga do Paraná, há um ano. Em vez disso, morrem no prédio histórico da região central de Curitiba cerca de dez pessoas por mês. Todas de covid-19.

No Paraná — como em todo Brasil — faltam leitos para atender infectados pelo novo coronavírus. O plano para ampliar a capacidade de atendimento a pacientes acometidos por sintomas mais graves da covid-19 incluiu a conversão da Victor Ferreira do Amaral em um hospital exclusivo para tratamento da doença.

Hoje, em vez de trabalhar no início de novas vidas, enfermeiros e médicos tentam evitar mortes. E nem sempre conseguem.

A Victor Ferreira do Amaral foi fundada em 1913, com o nome Maternidade Paraná. Anos mais tarde, foi rebatizada com o nome de seu patrono, o ginecologista, obstetra, ex-deputado e ex-vice-governador Victor Ferreira do Amaral e Silva.

O imóvel onde funciona o hospital é de 1930, tem arquitetura eclética, traços coloniais, dois pavimentos e janelões de madeira próximos à rua, que agora estão quase sempre escancarados para facilitar a ventilação.

Por essas janelas, homens e mulheres internados espiam a movimentação de pedestres e carros do lado de fora. Alguns respiram com ajuda de aparelhos.

Até março de 2020, quando Curitiba registrava seus primeiros casos da doença, não era assim. Aberta a gestantes, a Victor do Amaral realizava em média sete partos por dia, cerca de 2.500 no ano, e era considerada referência em atendimento humanizado.

A maternidade, que só atendia mães gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), tinha o maior índice de partos normais da capital do Paraná: 75%. Desde 2006, ela também ostentava o título de "hospital amigo da criança", concedido pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e pelo Ministério da Saúde por proteger e apoiar o aleitamento materno.

Tudo isso parou. Mães que planejaram seu parto alil passaram a ser atendidas no Hospital das Clínicas de Curitiba ou em outras maternidades da cidade. A Defensoria Pública do Estado do Paraná chegou a entrar com uma ação civil pública contra a prefeitura para que a Victor do Amaral voltasse a atender gestantes. Não adiantou.

"A gente entende o questionamento e a frustração das mães. O nascimento de uma criança é um momento especial e sabemos dos planos que são feitos para a chegada de um bebê", disse Flávia Quadros, superintendente da secretaria municipal da Saúde de Curitiba. "Acontece que estamos numa pandemia e todo mundo tem que abrir mão de algo para superarmos isso. O importante é que nenhuma mãe ficou sem atendimento."

Maternidade Victor Ferreira do Amaral, a mais antiga do Paraná, agora transformada em hospital para tratar doentes de covid-19 - Vinicius Konchinski/UOL - Vinicius Konchinski/UOL
Imagem: Vinicius Konchinski/UOL

Morgue foi ampliado

Flávia foi umas profissionais de saúde que planejou e participou da conversão da maternidade Victor Ferreira do Amaral em hospital exclusivo para tratamento de covid-19.

Ficou definido, ainda antes do registro do primeiro caso de covid-19 no Brasil, que a cidade evitaria abrir hospitais de campanha, como fizeram São Paulo e Rio de Janeiro. Em compensação, teria que adaptar unidades de saúde já existentes para que recebessem infectados.

Foi o que aconteceu com a maternidade. Ainda em março de 2020, ela passou por obras e reabriu em agosto, já dedicada a pacientes com covid-19.

Em dezembro, a administração da maternidade foi transferida provisoriamente da UFPR (Universidade Federal do Paraná) para a prefeitura de Curitiba.

Desde então, o município segue tocando a maternidade convertida em hospital. Até metade de março, 532 pessoas já tinham sido internadas com covid-19 na Victor Ferreira do Amaral. Dessas, 383 tiveram alta; outras 34 morreram ali. As demais permanecem internadas ou foram transferidas para outros hospitais.

Para lidar com essas mortes, a área do hospital para onde são encaminhados corpos de pacientes que vêm a óbito teve que ser ampliada. Antes, o morgue ocupava uma salinha da maternidade, preparada para receber um corpinho de recém-nascido que morria no parto ou dias depois dele. Hoje, ele ocupa uma sala de parto desativada e tem capacidade para receber até três corpos de adultos.

Outra sala de parto da Victor do Amaral foi transformada em sala de apoio a profissionais que trabalham na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital. É lá que os médicos descansam e fazem seus lanches nos intervalos.

A UTI, aliás, funciona onde era o centro obstétrico da antiga maternidade. Onde as gestantes davam à luz em cesáreas, hoje estão oito leitos ocupados pelos pacientes com sintomas mais graves da covid-19, geralmente intubados para poderem respirar.

Já a UTI neonatal, que antes atendia bebês que demandavam cuidados especiais após o nascimento, agora funciona como unidade de estabilização. É lá que pacientes recém-internados são avaliados e medicados antes de serem transferidos para os leitos comuns.

"O atendimento é muito bom, viu?", relatou Ronaldo Soares, 44, desempregado e ex-paciente da Victor do Amaral. "O que é meio estranho é você se deparar de vez em quando com aqueles avisos sobre amamentação ou cuidado com os bebês. É esquisito você pensar que está ali, internado com covid-19, numa maternidade, né?"

Soares esteve internado entre o final de fevereiro e o começo de março. Disse que se cuidou na pandemia, mas acha que acabou contaminado quando foi à igreja perto de casa, na periferia de Curitiba. Quando passou mal, procurou uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Ali mesmo foi internado. Ficou esperando uma vaga de hospital, até ser transferido para a Victor Ferreira.

Entrada da maternidade Victor Ferreira do Amaral, a mais antiga do Paraná, agora transformada em hospital para tratar doentes de covid-19 - Vinicius Konchinski/UOL - Vinicius Konchinski/UOL
Imagem: Vinicius Konchinski/UOL

Entrada só de ambulância

A maternidade hoje está completamente fechada ao público. Sua recepção foi desativada. Só entra no hospital quem é levado de ambulância ou quem trabalha no local.

O ritmo de chegada de pacientes varia conforme abrem vagas para internamentos. Na tarde de terça-feira (30), por exemplo, cinco ambulâncias encostaram no hospital.

"Tem dias que é mais calmo, vêm umas quatro. Tem dias que chegam até sete ou oito", contou um funcionário. "Antes só saía vida daqui. Hoje entra gente que infelizmente só vai sair daqui morto."

Nilton Zanandrea, 62, taxista, faz ponto na porta da maternidade há 10 anos. Dali, partia para até 15 corridas por dia. "Levava mãe e pai com filho recém-nascido para todo lado. Hoje, não entra e não sai ninguém. É tudo por ambulância. Só pego corridas porque outras pessoas da região me chamam pelo aplicativo."

Visitas estão expressamente proibidas. Logo na porta principal do prédio histórico, há um aviso informando que nem acompanhantes de pacientes estão autorizados a entrar.

Quem está internado fala com a família uma vez ao dia, por videoconferência, realizada por um profissional do hospital. O paciente mesmo não pode manter consigo seu telefone.

É um assistente social do hospital que avisa a família sempre que alguém internado precisa de alguma coisa: objeto de higiene pessoal ou travesseiro próprio. O familiar, então, deve deixar na portaria de serviço a encomenda ao seu parente.

Nessas passagens pelo hospital, algumas pessoas aproveitam para trocar acenos, sorrisos e algumas palavras pela janela com quem está do lado de dentro. Foi assim que Cristina, 54, falou com seu marido.

"Prefiro não dizer meu nome todo porque nem sei se posso fazer isso", disse ela, ressabiada. "Meu marido é caminhoneiro. Sabe como é, né? Não se cuida, não come bem, pegou isso aí. Agora tá lá dentro. Pelo menos está melhorando."

Cristina disse que o companheiro está satisfeito com o atendimento que tem recebido. Prefere estar ali a estar internado na UPA perto de casa.

Isabel de Lima Zanata é gerente de assistência da Feas (Fundação Estadual de Atenção à Saúde) e atual administradora da maternidade. Ela disse que, pessoalmente, não trabalhou no local enquanto ele realizava partos. Ressaltou, porém, que hoje o "clima é outro" e isso é motivo de conversas entre os profissionais.

"A gente escuta um comentário ou outro de colegas. O cenário hoje é completamente distinto", afirma. "Tem gente que passa e diz: 'nossa, como está tudo mudado, diferente'. Estamos numa pandemia. Infelizmente, essa é a realidade da maternidade hoje."