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Há 1 ano, dona de trailer fotografa movimento de hospital de campanha em MG

Teresinha Rocha de Faria Chaves, dona de um trailer de salgadinhos em frente a hospital de Contagem (MG) - Manuel Marçal/UOL
Teresinha Rocha de Faria Chaves, dona de um trailer de salgadinhos em frente a hospital de Contagem (MG)
Imagem: Manuel Marçal/UOL

Manuel Marçal

Colaboração para o TAB, em Contagem (MG)

14/04/2021 04h01

Teresinha anda mais apreensiva que de costume. Dona de um trailer estacionado em frente ao Hospital Santa Helena, no bairro de Eldorado, em Contagem (MG), já fez muita amizade e admite que já viu de tudo — são 32 anos olhando a mesma porta de entrada, ali do trailer. Desde 2020, a preocupação é grande.

Da rua, Teresinha Rocha de Faria Chaves, 55, observa a aflição de parentes de internados, enfermeiros e médicos que atuam na linha de frente no hospital. Há quase um ano, assiste a uma novela agridoce, de finais felizes e outros tantos tristes.

Transformado em hospital de campanha pela prefeitura em junho de 2020, o Santa Helena só atende pacientes com covid-19. Hoje, a unidade tem 60 leitos de UTI, 15 leitos semi-intensivos e 28 leitos de enfermaria. Em Contagem, a taxa de ocupação dos leitos de UTI está em 91%. A cidade usou uma antiga UPA para armazenar corpos.

A rotina de hoje atrai a atenção da vendedora, que largou o trabalho durante três meses, no início da pandemia — o lugar não tinha movimento, até que fosse transformado em hospital de campanha. Durante esse tempo, Teresinha ajudou o marido na funerária em que ele trabalha em Ibirité (MG), a 17 km de Contagem.

Com o celular em mãos, Teresinha costuma tirar fotos do que vê acontecer a poucos metros do seu trailer: carros de funerária estacionados; grupos orando, em frente ao hospital; profissionais de saúde vestidos de uniforme azul, touca e máscara, dando o primeiro suporte aos pacientes trazidos de ambulância; selfie dos funcionários quando algum enfermo recebe alta.

De tanto observar, ela até decorou as rotinas: o horário em que o caminhão da lavanderia chega; a entrega das marmitas. A sequência de ações do funcionário que faz o desembarque dos cilindros de oxigênio. Observa tudo com respeito e zelo, e mostra no rosto uma disposição ao sorriso, sempre que possível.

Teresinha Rocha de Faria Chaves é dona de um trailer em frente do hospital Santa Helena, em Contagem (MG) - Manuel Marçal/UOL - Manuel Marçal/UOL
Imagem: Manuel Marçal/UOL

Testemunha ocular

Seus registros são despretensiosos, coisas do seu particular. São cenas, segundo conta, que não estava acostumada a ver. Diz isso entrelaçando as mãos em sinal de oração, e pede a Deus que nada do tipo aconteça com sua família.

A vendedora compartilha as fotos e vídeos apenas com o marido, cujo nome no WhatsApp é "Amorzinho". "Mando apenas para ele, para extravasar mesmo", afirma. "Além disso, quero saber também o que ele pensa deste momento todo."

Para abrir o trailer, de segunda a sexta-feira, às 6h30 da manhã, é preciso levantar muito cedo. Às 4h30, o casal já está de pé. Soma a essas duas horas de diferença o tempo para preparar aquilo que vai ser vendido e utilizado no trailer, bem como a distância. Por morar em um bairro quase na divisa de Contagem com Betim, Teresinha faz o percurso de carro com o marido e um ajudante da família.

Enquanto os homens enxaguam a calçada e lavam a mesa de metal na área externa do trailer, Teresa, que dispensa o diminutivo do nome, vai abrindo o estabelecimento e organizando a bancada. Para aquela sexta-feira (9 de abril), trouxe frutas congeladas, leite, sacos de biscoito de polvilho e sua marmita. Salgados e pão de queijo ela encomenda com fornecedores da região e coloca tudo na estufa de vidro, que sempre limpa assim que chega.

Em cima do fogãozinho de duas bocas, coloca água para ferver. Pega tesoura e corta um saco de 500 g de pó de café. A medida exata faz render três garrafas térmicas. Usa um coador grande de pano e uma colher comprida de madeira para fazer escora. Assim, não precisa ficar com as duas mãos ocupadas.

Teresinha Chaves mostra foto de família: ela e o marido, Hildevanir e os filhos Fernando (blusa branca) e Felipe (blusa azul) - Manuel Marçal/UOL - Manuel Marçal/UOL
Teresinha Chaves mostra foto de família: ela e o marido, Hildevanir e os filhos Fernando (blusa branca) e Felipe (blusa azul)
Imagem: Manuel Marçal/UOL

O aroma da bebida quente se espalha rapidamente pelo local e as pessoas próximas fazem cara de ânimo. Teresa segue intercalando o processo de colocar mais água quente no coador, enquanto confere se a calçada ao redor do trailer foi bem limpa. Com um pano entre as mãos, termina de dar a última ajeitada na bancada. Um olho no trailer, outro na rua.

Por volta das 6h45, a rua Casuarinas, até então tímida, começa a ganhar outras paisagens sonoras: carros de aplicativo começam a desembarcar passageiros; profissionais da área da saúde chegam andando às pressas para iniciar o turno das 7h.

Foto feita por Teresinha Chaves: roda de oração em frente ao hospital de campanha de Contagem (MG) - Teresinha Chaves/arquivo pessoal - Teresinha Chaves/arquivo pessoal
Foto feita por Teresinha Chaves: roda de oração em frente ao hospital, no início da noite
Imagem: Teresinha Chaves/arquivo pessoal
Foto feita por Teresinha Chaves: carro para transporte de corpos estaciona em frente a hospital de Contagem (MG) - Teresinha Chaves/Arquivo pessoal - Teresinha Chaves/Arquivo pessoal
Foto feita por Teresinha: carro para transporte de corpos estaciona em frente a hospital de Contagem (MG)
Imagem: Teresinha Chaves/Arquivo pessoal

Diante da movimentação do outro lado da calçada, Teresa fica radiante. Troca acenos, sorrisos e uma vigorosa saudação de bom-dia àqueles que entram no hospital. Chama alguns pelo nome e outros de forma carinhosa. "Não são todos que eu reconheço. Tem muita gente nova recém-chegada aqui."

Aos poucos Teresa vai se familiarizando à nova equipe que bate cartão no hospital de campanha. Até mesmo por causa disso, só pendura conta dos mais antigos de casa. A caneta esferográfica azul fluorescente está sempre em mãos. Atrás da estufa dos salgados, precisa ser rápida nas contas e anotar o fiado. Se a cabeça não dá conta, coça a raíz do cabelo branco e parte para a calculadora.

Alguns profissionais de saúde têm um modo peculiar de "pedir delivery". Chegam da porta ou da janela da recepção do hospital, impostam a voz sem muita força e gritam "Dona Teresa?", "Tetê?". Dali mesmo, pedem pastel, coxinha, suco natural, café, pão de queijo, biscoito de polvilho, vitamina de abacate e o que mais o apetite ansiar.

A vendedora não precisa ir até eles. Quem faz o traslado para o outro lado da calçada são os colegas de trabalho que foram para o lado de fora comer.
Teresa fez questão de explicar à reportagem. "Alguns não saem à rua para não contaminar o uniforme de trabalho", disse, enquanto guarnecia os saquinhos de papel.

Em seguida, torna a abrir o caderninho de 80 folhas, procura o nome de quem fez o pedido e anota o valor com sua caligrafia redonda. Enquanto atende outra demanda, explica rindo que só ao fim do mês é que fica "rica". Motivo: é quando quem lhe deve faz todo acerto.

Teresinha Rocha de Faria Chaves recebe o pedido de coxinhas para vender em seu trailer, na frente do hospital Santa Helena, em Contagem (MG) - Manuel Marçal/UOL - Manuel Marçal/UOL
Teresinha recebe o pedido de coxinhas para vender em seu trailer
Imagem: Manuel Marçal/UOL

Marcas no rosto

Pessoas vão chegando e saindo o tempo todo. Uma delas conta que mora em São José da Lapa e só então, por volta das 10h, chegaria em casa. Cansada, tinha no rosto as marcas de quem usou máscara durante horas ininterruptas de plantão.

Com zelo de mãe, Teresa segue servindo cafés e lanches. Precisa se policiar entre o álcool em gel, que passa nas mãos como se fosse um hidratante, e o vício de querer tocar no ombro dos clientes.

"Aqui sorrimos juntos e, se tiver que chorar, choramos juntos", diz, com voz embargada. Pede desculpas ao repórter, mas logo depois abre o sorriso, escondendo a vergonha por chorar — vem de uma família de chorões.

Depois de ficar de pé por mais de duas horas, Teresa começa a ter queimação nas pernas. Reclama do sobrepeso, mostra as varizes e se acomoda num banco bem no meio do trailer, com vista para a portaria do Hospital Santa Helena.

Sentada, Teresa joga o corpo para frente, escora os antebraços, cruza as mãos friccionando os dedos uns contra os outros. Repete o gesto inúmeras vezes ao mesmo tempo em que mantém olhar atento para a rua. O celular repousa no carregador.

Uma mulher dorme na marquise, ao lado do hospital. Termina de dobrar seu cobertor e guarda tudo em uma sacola grande. Quieta o tempo todo, só observa a rua, espera a movimentação no trailer baixar para só então pegar um cafezinho com Teresa. A vendedora sinaliza que ajuda sempre que pode.

Passado o pico da movimentação da troca de turnos, Teresa orientou motorista de aplicativo, explicou sobre como ter plano de saúde para um homem que acabara de sair de dentro do hospital em busca de informações, ajudou um motoboy a ler um endereço que não estava conseguindo se localizar.

Fazia frio naquela manhã e Luis Gustavo, 20, vinha de boné, bermuda, chinelo de dedo e pitava um cigarro de palha. Morador de Sabará, pega metrô todos os dias para estar em Eldorado, onde trabalha como lavador de carros. Ele conta com a boa vontade de Teresa para poder guardar os equipamentos de trabalho: balde, aspirador de pó, 25 metros de mangueira. A água que utiliza sai do encanamento do trailer. O rapaz fala que ela é como uma mãe e que tem um coração grande. Conheceram-se em janeiro de 2020.

Por distribuir gentilezas, Teresa, na contrapartida, diz que é muito ajudada. Brinca que nessa pandemia arrumou um marido de aluguel. Ela se refere a Renan dos Santos, 40, office boy do laboratório do hospital. Ele ajuda a vendedora com pequenos reparos no trailer. Ela abre a geladeira, abaixa a cabeça e aponta para debaixo do compartimento de congelador, sustentado por uma ripa de pau. Faz graça da cena.

Renan, por sua vez, gosta de estacionar a moto de frente ao trailer. Vestindo jaqueta e luvas de motoqueiro, o homem de cabelo grisalho desce da moto, afasta para um canto as vasilhas de doce e coloca no balcão seu capacete e objetos do trabalho. Teresa vê com naturalidade o gesto e observa Renan fazendo anotações em um caderno. Ele afirma que gosta de preencher, apoiado na bancada do trailer, o diário de bordo das entregas que faz.

Office-boy Renan dos Santos faz balanço do dia no trailer de Teresinha Chaves - Manuel Marçal/UOL - Manuel Marçal/UOL
Office-boy Renan dos Santos faz balanço do dia no trailer de Teresinha Chaves
Imagem: Manuel Marçal/UOL

Teresa se levanta e confere a estufa. Só para aquela manhã, encomendou 10 pastéis, 10 pães de queijo e 27 coxinhas. Já estava quase tudo acabando. Teria que pedir nova remessa para a tarde. E o turno vespertino, para ela, só começa depois que esquenta sua marmita no banho-maria.

Passa um ambulante empurrando um carrinho lotado de papel e papelão. Cumprimenta Teresa pelo nome. Ela retribui a saudação, mesmo sem saber o nome do transeunte. E gosta dessa sensação. Senta-se de volta no banco de madeira e fica observando os funcionários da empresa da lavanderia transportando roupa de cama para dentro do hospital. Logo atrás, o caminhão com cilindros de oxigênio acaba de estacionar.