PUBLICIDADE
Topo

'Adoro bicho estranho': dançarina se isola com cinco serpentes no quarto

A dançarina Jadde Johara, 31, e suas companheiras de isolamento - Fernando Moraes/UOL
A dançarina Jadde Johara, 31, e suas companheiras de isolamento
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Carlos Minuano

Colaboração para o TAB

07/05/2021 04h00

Desde o início da pandemia, a dançarina Jadde Johara, 31, está confinada em casa, como muitos de nós. Mas no caso dela, o isolamento inclui uma companhia um tanto incomum: cinco serpentes, e das grandes. Os bichinhos de estimação vivem e dormem em seu quarto, todos bem juntinhos. Mantendo uma distância segura, principalmente dos répteis, a reportagem do TAB fez uma visita a Jadde e seus exóticos companheiros de casa.

Bichos por lá, aliás, estão por toda a parte. Descobri isso logo que cheguei e pedi para ir ao banheiro lavar as mãos. Jadde teve que retirar do lavabo Lunna, Scott e Spoyler, seus cachorros — todos adotados, resgatados da rua e doentes. Pelo barulho que fizeram, não gostaram nada da visita.

O quarto da dançarina, que vive com a família, fica separado em uma garagem adaptada, na parte de baixo da casa. Depois de perturbar os cães, seguimos para lá.

Antes de entrarmos em um corredor que leva até o quarto, a moça interrompe o passo abruptamente e pergunta se alguém estava de vermelho. Por sorte, não. Mas, diferentemente do que se poderia supor ali de imediato, não eram as cobras que tinham problemas com cores. E sim, o Gerald, o galo.

Jadde em seu quarto - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Jadde em seu quarto
Imagem: Fernando Moraes/UOL

"Fazendinha"

Jadde mora na zona sul de São Paulo, porém, pela quantidade de animais, sua casa lembra mais uma fazenda. Além dos três cachorros e cinco cobras, Jadde tem também um galinheiro com oito galinhas e dois galos, todos com nome e alguns até sobrenome. Enquanto nos leva para o quarto onde faríamos a entrevista, ela vai falando com os animais e nos apresentando a todos. "Essa a Margoth Ignes, alí a Elizabeth, a Amélia Milhoneves, Anastasia Nikolaevna". No total, eram quinze, mas cinco morreram.

"Eu amo galinhas, elas são lindas, amorosas e bem diferentes do que as pessoas pensam", comenta a dançarina enquanto abre a porta do seu quarto. "São galinhas silkies, polonesas e também mestiças, porque acabou rolando um romance aqui", explica a moça sobre o aspecto diferentão delas.

Entrando no quarto, o clima da roça vai ficando um pouco mais selvagem. Ao lado da cama de casal de Jade, estão cinco terrários, cada um com uma serpente. Todas pareciam dormir tranquilamente enquanto aguardavam reportagem e sessão de fotos.

As serpentes da dançarina Jadde Johara - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
As serpentes da dançarina Jadde Johara
Imagem: Fernando Moraes/UOL

"Meu filho é um artista"

O primeiro "bichinho de estimação apresentado foi o enorme e pançudo Osíris. O nome, ela explica que se trata de uma homenagem ao deus da mitologia egípcia, que decide quem vai para o inferno ou para o paraíso. "Meu filho é um artista", diz Jadde sorrindo, enquanto pega no colo a jiboia de 15 anos, com quase dois metros e mais ou menos uns seis quilos.

Para comprovar a veia artística do simpático réptil, ela mostra uma foto em um livro na penteadeira camarim, onde a dançarina produz seus makes para as apresentações e aulas de dança, atualmente restritas à internet.

Jadde, com Osíris entrelaçado ao corpo, conta que seu "filho artista" participou do longa "A Senhora que Morreu no Trailer". O filme de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira, lançado em 2020, conta a conturbada vida da dançarina exótica Suzy King, um dos muitos pseudônimos da baiana Georgina Pires Sampaio, que ganhou fama como encantadora de serpentes na década de 1960 — e que depois sumiu misteriosamente de cena até ser encontrada morta na Califórnia (EUA), em 1985.

A dançarina, que também tentou a sorte como cantora, vedete, faquiresa, entre outras atividades, teve sua trajetória contada no recém-lançado livro "Suzy King, a pitonisa da modernidade", dos mesmos autores do filme. Osíris aparece em várias fotos e também numa imagem de página inteira — na realidade, uma cena do filme, junto da atriz Regina Müller. "Ela estava um pouco menor", comenta Jadde, toda orgulhosa.

A serpente Osíris e a atriz Regina Müller em gravação do filme 'A Senhora que Morreu no Trailer' - Acervo pessoal - Acervo pessoal
A serpente Osíris e a atriz Regina Müller em gravação do filme 'A Senhora que Morreu no Trailer'
Imagem: Acervo pessoal

A atriz Regina e a jiboia Osíris interpretaram no longa uma apresentação de Suzy King que aconteceu em 1960, quando ela se exibiu no (então recém-inaugurado) majestoso Cine Olido, no centro de São Paulo, jejuando dentro de uma urna de vidro com suas cobras gigantescas.

A cena gravada durante uma hora em dezembro de 2019, na vitrine do mesmo local — hoje Galeria Olido — atraiu dezenas de curiosos e causou espanto em muita gente. "Todo mundo quando vê uma cobra sai correndo para olhar", comenta Jadde.

Tudo começou com uma lagartixa

A paixão por bichos vem desde pequena, conta Jadde. "Meu avô criava pássaros, tinha umas 30 gaiolas, sem falar nos cachorros". Mas quem primeiro conquistou seu coração foi uma lagartixa quando ela ainda tinha por volta de quatro anos. "Tentei criar em uma caixinha, queria ser amiga dela e acabei matando sem querer, achei que comia planta."

"Adoro todos, mas sempre gostei mais de bichos estranhos, que ninguém gosta, ou que despertam medo, raiva", observa a dançarina. Serpentes, aranhas e lagartixas enquadram-se nessa categoria, na opinião de Jadde, que desde a adolescência queria ter uma cobra, mas encontrava resistência na família. "Meu pai tinha medo, achava que ela ia me matar".

O camarim de Jadde - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
O camarim de Jadde
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Aos 18, ela bateu o pé e decidiu. "Vou ter uma cobra". Foi quando chegou o Osíris, ainda com cerca de um ano. Ela fez questão de dizer que adquiriu a jibóia da maneira correta, tal como fez com as demais. Ou seja, comprou com criadores legalizados e registro no Ibama. "Na época, custou R$ 2.800. Hoje, o preço está bem mais alto", conta.

Com Osíris ainda enrolado em seu corpo, Jadde apresenta seu segundo filhote. E para aumentar a aflição deste repórter, enquanto fala, a dançarina decide trazer também para seu colo o Cephes, uma gigantesca píton, hoje com 12 anos.

Também do sexo masculino, Cephes é uma serpente de três metros e aproximadamente e 20 quilos. O nome, segundo ela, foi inspirado no de uma estrela chamada VV Cephei. "É a segunda maior do universo", afirma. Seu segundo bichinho de estimação chegou cinco anos depois de Osíris, quando Jadde decidiu se dedicar à inusitada arte de dançar com cobras.

Domadora de serpentes

As apresentações começaram a bombar e Jadde decidiu seguir carreira na dança com as cobras, mas não queria sobrecarregar os bichinhos de estimação. Foi quando percebeu que eles precisavam de irmãozinhos, para todos se revezarem nas apresentações — que, antes da pandemia, aconteciam semanalmente em restaurantes, casas noturnas e festas particulares.

Vieram então mais duas jiboias: a Skadi (atualmente com dois anos, pouco mais de um metro e uns três quilos), e o Ornstein (com idade indefinida, quase um metro e meio e cerca de quatro quilos). Os nomes, segundo ela, são inspirados na mitologia nórdica.

E finalmente, veio mais uma píton, a Afrodite. Ela não sabe quantos anos tem, mas mede dois metros e pesa uns sete quilos. O nome, mais conhecido, é em homenagem à deusa do amor da mitologia grega. "São importantes e merecem nomes fortes", justifica a dançarina. Enfileirados, seus bichinhos somam quase 10 metros de serpentes.

A dançarina Jadde Johara, 31 - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
A dançarina Jadde Johara, 31
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Os shows estão por ora interrompidos, mas a rotina da domadora de serpentes continua puxada. "Tenho que treinar com elas todos os dias, ou podem desacostumar dos movimentos."

Ela conta que as cobras nunca deram problemas. Mas o público, sim. Em um show, uma de suas serpentes foi mordida por uma criança. "Acontecem coisas desse tipo, se não estivessem bem treinadas, não sei o que poderia acontecer."

Sobre o espaço reservado aos bichinhos em seu quarto, que pode parecer pequeno, ela garante ser apropriado. "Cobras gostam de calor e de ficarem entocadas". A dançarina explica que, no inverno, elas ficam mais no terrário — por causa da temperatura — e nos dias mais quentes, podem ficar mais soltas. Mas só quando ela está por perto, ressalta Jadde. "Elas fazem muita bagunça, parecem criança."