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Clima de tensão e medo da polícia: o dia seguinte à barbárie no Jacarezinho

Parentes das vítimas da chacina no Jacarezinho (RJ) Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, do Rio

08/05/2021 09h54

A sexta-feira (7) foi um dia de movimento no Jacarezinho. Numa rua de comércio, um deles chama atenção. Com cestas de café da manhã bem montadas, o comerciante aguarda clientes para o dia das mães. Pessoas circulam, alguns estão sentados em lanchonetes. Apesar do clima de aparente normalidade, o assunto é a morte dos 28 jovens na quinta-feira (6), durante uma operação policial.

A maioria dos moradores não acredita que todas as vítimas sejam criminosos. Alguns arriscam uma reflexão embasada na Constituição de 1988. "A pena de morte não é legalizada no nosso país. Caso algum deles fosse bandido, não mereciam ser mortos, e sim presos."

Para homenagear os 28 mortos, movimentos locais organizaram um ato. A concentração foi marcada para as 17h e, ao anoitecer, saiu em marcha. O trajeto, iniciado em direção à Cidade da Polícia, maior complexo de delegacias da corporação fluminense, voltou até o G.R.E.S Unidos do Jacarezinho, ponto de encontro inicial, e entrou na viela principal. Ao final, segurando uma vela acesa, parentes de três vítimas falaram à multidão.

'Não tem vacina mas tem chacina': manifestante protesta um dia após a chacina no Jacarezinho, que matou 28 pessoas Imagem: Fabiana Batista/UOL

Chuva na cabeça

O dia na cidade começou chuvoso, o que fez com que algumas pessoas pensassem em desistir de sair de casa no fim da tarde. Às 15h, o céu deu trégua.

Os organizadores da marcha começaram a se reunir na quadra antes das 16h. Os vestígios de sangue já não eram mais vistos, mas não fez apagar da memória os momentos de terror que os moradores viveram.

Em frente à quadra, ao menos cinco carros da polícia e o dobro disso em número de policiais — alguns, inclusive, sem máscara — posava com seus fuzis. A tensão não cabia naquele espaço; era sensível por toda a comunidade. Uma lojista relatou que não abriu a loja na quinta-feira, e soube que outros colegas também não.

Familiares das vítimas, cercados por amigos e parentes, chegavam aos poucos. Além de um setor jurídico que acompanha as famílias desde o início, alguns assistentes sociais foram até lá para dar apoio.

Parte da organização demonstrou inquietação com o aumento de policiais na porta e, com isso, buscaram agilizar a saída. Era possível ouvir os gritos de desabafo: "será que na zona sul aconteceria o mesmo?".

O galpão da escola de samba é grande e estava decorado com objetos religiosos. Um deles era São Cosme e Damião — talvez um desejo da comunidade de expurgar das crianças o trauma de presenciar tantas mortes.

Altar para São Cosme e Damião no G.R.E.S. Unidos do Jacarezinho Imagem: Fabiana Batista/UOL
Viaturas policiais concentradas na frente do GRES Unidos do Jacarezinho, um dia após a chacina de 28 pessoas Imagem: Fabiana Batista/UOL

Críticas ao governador

Ao saírem, o céu escurecia e o aparato policial estava ainda maior. Faixas foram estendidas — entre elas, uma em que se lia "Para nós só tiro, fome e morte. Basta de genocídio do povo negro". Mães dos jovens mortos e de favelas vizinhas fizeram a linha de frente. Quando uma perde um filho, todas morrem um pouco.

O som da rua era tripartite: barulho de carros, em marcha lenta pelo trânsito enlouquecido. A marcha na rua, caminhando entre gritos de "Justiça", "Polícia Assassina" e "chega de chacina". E o trem que passava apitando, de tempos em tempos. "Passageiros foram baleados dentro do metrô. Confesso que me deu medo ao vir para cá", disse um manifestante à reportagem.

Na entrada da comunidade, um grupo de jovens cantava, animado, trechos da música "Eu só quero é ser feliz" enquanto seguravam cartazes em folhas A4 com a frase "Quais vidas importam? Jacarezinho pede paz". Próximo a eles, um dos organizadores, eufórico, desabafou: "Os que morreram perderam a juventude. Aqui, temos jovens que podem a qualquer momento perder as suas vidas também. Não podemos permitir."

Antes de a multidão entrar na favela, o novo governador do Estado, Cláudio Castro (PSC), que defendeu a operação, foi alvo dos manifestantes. Em gritos, entoavam: "Cláudio Castro / pode esperar / a sua hora vai chegar".

O grupo das Mães de Manguinhos acompanhou o protesto Imagem: Fabiana Batista/UOL
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Lençol sujo de sangue

Por volta das 18h30, o comércio, ainda aberto, ajudava a iluminar a rua e mais moradores engrossaram as fileiras de manifestantes. Na porta de suas pequenas lojas, os lojistas estavam divididos. Alguns rejeitavam o ato, outros achavam justo. Ao ser questionada pela reportagem, uma vendedora disse: "Não há outro nome. O que vivemos ontem foi uma chacina".

No meio do trajeto, um operador da SuperVia recomendou o aguardo da passagem do próximo trem. Neste intervalo, a reportagem conversou com Jaqueline e Joyce, mãe e filha, que não quiseram dar seus sobrenomes. Jaqueline relatou que, na quinta-feira, quando saiu de casa, viu cenas que só conhecia em filme de guerra. Com a garganta presa e os olhos vermelhos de choro, ela relembra a cena que mais a marcou. "Vi lençóis enrolados no chão com sangue. Nesse momento eu tive a certeza de que nós, moradores de favela, não valemos nada. E que para eles [o Estado], somos apenas estatística."

Joyce se emocionou. "Se o presidente e o governador continuarem no poder, nada disso vai acabar, muito menos nossas mortes. Teremos cada vez mais mães órfãs de seus filhos. Não temos empregos, médicos, vacinas, não há investimento voltado à educação. O que nós temos é mortes e mais mortes."

Entre motos e carros manobrando para tentar escapar do congestionamento, a caminhada continuou por mais alguns metros. Já no final, mães, esposas e filhos são orientadas a abrir uma pequena roda. Junto a elas, outras mulheres negras acendem velas.

Sogra e esposa de Omar Pereira da Silva, morto no Jacarezinho (RJ) Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fala de dor

Os relatos são fortes. Thacyane, irmã de Isaac Pinheiro de Oliveira e de Gabriel, e a sogra de Omar Pereira da Silva, seguravam uma vela acesa ao lado de outras mulheres, que as acudiram no momento em que não puderam segurar o choro. A sogra de Osmar, ao lado da filha, exige: "Não aguentamos mais. Essas operações precisam acabar."

Fora dali, Laiane Souza e seu cachorrinho avistam a cena comovente. Ela mora a algumas quadras, dentro de uma das vielas, em uma casa de três andares. Durante a operação, recebeu a visita de policiais. Abriu a porta a eles. Conta que tem vários móveis e eletrodomésticos e, para não correr o risco de tê-los confiscados, sempre guarda a nota fiscal, "para mostrar que tudo foi comprado com o nosso suor".

A dona de casa explica que a polícia perguntou por que o marido e o enteado estavam dormindo às 11h30. "Vê se pode, até o nosso sono eles querem controlar. Antes que algo pior acontecesse, conseguimos acalmá-los e mostrar a carteira de trabalho. Meu enteado, por exemplo, trabalha de madrugada como atendente do McDonald's."

No final, representantes de diferentes religiões rezaram para que Deus confortasse as famílias. A dor da morte absurda deve se prolongar por algum tempo. Para muitas mães, será um domingo de lágrimas e saudade.

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