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'Querida, isso já me levou a Londres': catadores reciclam vidas no descarte

Andreia Emboava com a filha Agatha e o marido Francisco: seguindo os passos do pai e do avô, a coleta é feita em família - André Giorgi/UOL
Andreia Emboava com a filha Agatha e o marido Francisco: seguindo os passos do pai e do avô, a coleta é feita em família Imagem: André Giorgi/UOL

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

28/05/2021 04h00

O som dos veículos que passam pelo Viaduto do Glicério — via que liga a zona oeste ao leste da cidade de São Paulo — é como chiado de disco antigo, onipresente em mais um dia de trabalho dos catadores debaixo do elevado. Sob a massa sonora de buzinas e cantadas de pneu, Maria Dias, 55, joga uns amendoins na boca após descarregar de um caminhão mais de 30 "bags" de todo tipo de material reciclável possível.

Com os cabelos grisalhos soltos e estatura baixa, ela quase some entre os sacos brancos cheios de vestígios do consumo desenfreado da cidade mais populosa do Brasil. Maria separa os materiais em novas pilhas: plásticos, garrafas PET, papel, papelão e cápsulas de cafés. "Isso agora tem aos montes", e mostra um potinho usado escrito Dolce Gusto.

O material chega pré-selecionado pelo Instituto Muda, que distribui o descarte entre cooperativas de São Paulo. Mas ali dentro há de tudo, como indicam as caixas de DVDs, aparelhos eletrônicos, documentos, fotos e roupas que se espalham pelo chão. "Já achamos obturação de platina, pênis de borracha. Esses dias apareceu um enorme, as meninas ficaram brincando", ela solta uma gargalhada. As mulheres ao redor riem ao notar que o último encontrado sumiu misteriosamente.

Ambiente familiar

É neste espaço de 400 m², quase escondido pelas vias, que funciona a Cooper Glicério. Desde 2006, a cooperativa conta com 32 catadores, muitos vindos do próprio bairro, às margens do Rio Tamanduateí, onde cortiços e apartamentos resistem entre pequenas indústrias e galpões fechados.

Maria Dias, presidente da Cooper Glicério - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Imagem: André Giorgi/UOL
Maria Dias, presidente da Cooper Glicério - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Maria Dias, presidente da Cooper Glicério
Imagem: André Giorgi/UOL

É um dos poucos espaços de coleta na cidade que funciona no esquema individual de trabalho. A gerência é feita pelos próprios catadores, sem relação com a prefeitura. O ambiente é cordial e familiar — e não é força de expressão. Todos ali trabalham em grupos, com outros membros da própria família, em "boxes" delimitados por sacos e madeiras.

Gabriel Felipe, 25, faz embaixadinhas com uma bola encontrada por ali. Faz apenas dois meses que ele chegou do Guarujá para trabalhar com os sogros na coleta. "Eu estava fazendo merda na vida, estava duro, entregava currículo e ninguém me aceitava. Aqui eu já achei até celular", explica. "Cara, trabalhar é a melhor coisa que tem."

Pais, filhos, primos, irmãos, tios e sogros têm suas próprias metas, mas, em tempos de pandemia, o ferro e principalmente o papelão têm sido o foco principal. No auge dos recordes de pedidos de delivery, o setor esbarrou na falta de insumos para produção, levando o produto a uma valorização nunca antes vista nas cooperativas.

Andreia Emboava, 40, faz um gesto com a mão como se fosse uma explosão para ilustrar o valor do material e os ganhos da sua família. "Eu estou há 15 anos aqui e nunca vi ferro por R$ 1,45 o quilo. Isso pra gente é muita coisa, a gente vendia a R$ 0,20 centavos. O papelão que era R$ 0,15, hoje é R$ 1,35. E esse mês vai aumentar", prevê. "Eu digo para as pessoas que nunca ganhei tanto dinheiro na reciclagem como ganhei durante a pandemia. Aumentou uns 300%."

Isso faz com que Maria Dias repita um mantra aos cooperados: do mesmo jeito que chega, o dinheiro está indo embora fácil. "Fui no mercado, comprei uma água, uma bolachinha, deu R$ 150 reais. Falei pra moça: 'acho que está errado'", diz. Ela explicava que não dá pra prever até quando vai essa valorização, mas foi interrompida por uma buzina próxima da empilhadeira em sua direção. O rapaz que conduzia sorriu. Era só pra pirraçar. "Esse gosta de encher o saco", disse, rindo.

Presidente da Cooper Glicério, Maria é a exceção que comprova a regra, sendo a única mulher a trabalhar sem a companhia de algum parente. Mas nem por isso está lá sozinha. "Nós passamos a maior parte do tempo juntos. Tirando as brigas, temos um bom relacionamento. De vez em quando, fazemos um churrasco pra mudar a rotina", diz, segurando um dos gatos de uma bichanada que fez morada na cooperativa.

Andreia Emboava, catadora há 17 anos - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Imagem: André Giorgi/UOL
Andreia Emboava, catadora há 17 anos - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Andreia Emboava, catadora há 17 anos
Imagem: André Giorgi/UOL

Unhas (feitas) e dentes

"Na catação, é comum ter histórias de gente que trabalha junto desde criança", conta Andréia Emboava. Com o cabelo preso num coque, ela veste seu uniforme para o trabalho — calça e camisetas velhas. Se ressente de não estar com as unhas feitas no dia: "Vocês resolveram vir logo hoje, pôxa", lamenta.

Andreia é a terceira geração da família a trabalhar com reciclagem. Antes, o pai e o avô sustentaram casas e estudos dos descendentes colocando seus carrinhos para rodar por toda a cidade. Talvez por isso, o trabalho deles a fascinava. Aos 19, ela foi para a rua seguir os passos dos homens da família. "Eu senti que era necessário eu estar ali também. Não podia deixar de ser catadora. E eu gosto do que eu faço", diz. "Aqui a gente é dono do nosso próprio negócio."

Ela dá como exemplo o marido, o africano Francisco Diogo, 53. Ele trabalhava com carteira assinada nos Correios, ganhava R$ 700. Na cooperativa, fez R$ 2 mil nos primeiros 20 dias. Com português ainda enrolado, ele confirma, enquanto separa garrafas PET: "Trabalhava mais e ganhava menos."

"Tudo que eu tenho na minha vida gira em torno da reciclagem", Andreia diz, orgulhosa. "Não tenho casa própria, mas eu tive carros, tenho um veículo para o trabalho. Eu tenho móveis que vieram da reciclagem e do dinheiro da reciclagem." Em seguida, ela finge imitar os trejeitos de madame ao falar que sua paixão por vinhos só aumentou, graças as garrafas importadas que vez ou outra acha lacradas. "É comum achar embalagens de alimentos e produtos de limpeza fechados. A única coisa que eu penso é: por que a pessoa gasta pra jogar fora? Queria entender todo esse desperdício."

Com piercings no nariz e na boca, Agatha, 23, concorda com a mãe e lista uma série de coisas que levou pra casa nas últimas semanas: celular, fone de ouvido, caixinha de som. Ela aparece chacoalhando uma embalagem de laquê quase cheio e dentro da validade. "Agora eu posso fazer meu baby hair para sextar", diz, fazendo biquinho, como se fosse postar uma selfie no Instagram.

Maria Silva seguiu os passos do pai na catação - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Imagem: André Giorgi/UOL
Maria Silva exibe as unhas feitas em mais um dia de trabalho na Cooper Glicério, em São Paulo - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Maria Silva exibe as unhas feitas em mais um dia de trabalho na Cooper Glicério, em São Paulo
Imagem: André Giorgi/UOL

Nos intervalos da triagem de materiais, a conversa entre as mulheres é sobre procedimentos estéticos e unhas postiças. Andreia pega nas mãos de uma amiga: "Olha aqui a mão dessa catadora, essa sobrancelha, esse cabelo liso." Com um laço na cabeça, Maria Silva, 44, ri, sem jeito. Ela é filha de Raimundo, co-fundador da cooperativa. Deixou a catação durante um tempo para concluir o segundo grau e trabalhar em outras áreas, mas não durou muito. "É aquilo: salário pequeno, muita gente mandando em você. Não tem nem comparação, voltei e agarrei a reciclagem com unhas e dentes", diz, mostrando as garras de gel, pintadas de vermelho, com exceção dos anelares, brancos e com listras. "E te garanto que elas ficam intactas por um mês."

No geral, cada uma ali já sentiu na pele o preconceito por suas ocupações. Às vezes, não é falado, mas está no olhar. "As pessoas acham que a gente, por trabalhar com reciclagem, somos mortos de fome, acham que eu não posso ir pra Europa, que eu não posso ter uma micropigmentação na sobrancelha. Eu não quero que as pessoas me vejam como coitadinha, porque nós não somos", diz Andreia, firme. "Quando ouço isso, eu digo: querida, meu trabalho já me levou a Londres."

Maria Silva exibe as unhas feitas em mais um dia de trabalho na Cooper Glicério, em São Paulo - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Imagem: André Giorgi/UOL
Presidente da Cooper Glicério, Maria Dias - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Maria Dias mostra as capas confeccionadas por catadoras
Imagem: André Giorgi/UOL

Catadoras em Londres

No fundo da cooperativa, quatro cômodos levantados pelos próprios catadores fazem as vezes de vestiário, banheiro e refeitório. O último é o mais colorido e abriga tintas, pincéis e papelões pintados de várias cores.

É onde funciona o Dulcinéia Catadora, projeto para confecção de capas de livros feitas pelas catadoras — entre elas, Maria Dias e Andreia. O trabalho artesanal já estampou títulos da poeta Alice Ruiz e do escritor e dramaturgo Plínio Marcos, e foi o passaporte para a Europa, num sonho que as duas nunca sequer sonharam. Em 2019, elas passaram algumas semanas dando oficinas e falando do trabalho na catação em bibliotecas de Londres. O trabalho é retratado também no documentário "Descarte". O próximo livro a ser confeccionado vai contar justamente a história da viagem.

Maria Dias lembra que quando conheceu o projeto fez troça, como se o ato de sentar e pintar formas abstratas fosse um capricho que não cabia numa vida que buscava só o essencial. Hoje, ela reconhece pontos de reflexão da própria história. "Antes as pessoas me pediam para contar minha história e eu tinha receio. É um passado triste, mas que pode ser de superação também. É como se depois de tudo isso, da viagem, do salário, eu enxergasse o valor de tudo", diz.

Sua história é parecida com muitas outras. Cortava cana-de-açúcar em Ourinhos, no interior de São Paulo, quando decidiu vir para capital trabalhar de empregada doméstica. Migrou para os bares, na função de garçonete, mas teve problemas com a bebida. De repente, se viu desempregada, sozinha e despejada.

Tinha 30 anos quando passou a dormir debaixo de um viaduto como aquele do Glicério. Na segunda noite, conheceu uma família de catadores. "Você vê, as pessoas dizem que somos invisíveis. E pra mim, naquela época, era isso: eu nem me ligava naquelas pessoas, nem sabia que existia a reciclagem", diz, com os olhos marejados.

Para ela, acabou sendo a metáfora de uma vida que se reciclou.

Maria Dias, presidente da Cooper Glicério, exibe os livros com capas confeccionadas por catadoras - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Imagem: André Giorgi/UOL
Maria Dias, presidente da Cooper Glicério - André Giorgi/UOL - André Giorgi/UOL
Imagem: André Giorgi/UOL