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Reality show de baixo orçamento conquista fãs pela loucura e honestidade

O reality show independente, criado por Rogério Rocha, estreou no dia 10 de maio e recebeu 21 participantes anônimos e famosos - Reprodução/New Face Reality Brasil
O reality show independente, criado por Rogério Rocha, estreou no dia 10 de maio e recebeu 21 participantes anônimos e famosos
Imagem: Reprodução/New Face Reality Brasil

Marie Declercq

Do TAB

10/06/2021 04h00Atualizada em 10/06/2021 17h39

Mergulhar no universo do New Face Reality Brasil é como adentrar a décima quinta camada da internet profunda. O programa, exibido pelo canal TV The Papo, é um reality show nos moldes de BBB e "A Fazenda", mas com um terço de orçamento — e o dobro de insanidade necessária para fazer acontecer um programa transmitido 24 horas por dia pelo YouTube, exibindo pessoas confinadas dentro de um galpão de eventos, em uma cidade do interior do Paraná.

O programa começou em 10 de maio com 21 participantes de perfis anônimos e famosos, que vão de personal trainers e tequileiras a aspirantes a influencers. Hulk Magrelo, assistente de palco do programa "Legendários", é o mais famoso. Quem ganhar a competição leva para casa o título de "ex-New Face", além de uma moto de R$ 6 mil, um pacote de viagem para Cancún e outro no valor de R$ 5 mil para qualquer destino no Brasil.

As regras são (mais ou menos) simples, mas o jogo é um caos: muita discussão, litros de choro e bastante entra-e-sai. Ao longo do mês, novos participantes foram entrando na casa. Toda semana, são eliminadas de três a cinco pessoas — as mais votadas pelos espectadores.

"Depende da dinâmica do jogo", explica Rogério Rocha, 32, estudante de jornalismo e, atualmente, idealizador, diretor, contador e apresentador do New Face. Rocha diz que se inspirou nas regras do xadrez: criou as figuras de Rei e Rainha da casa para quem vence a prova de resistência e o Cavalo de Troia, que pode imunizar ou indicar alguém para a eliminação, chamada de Xeque-Mate.

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Participantes do New Face Reality Brasil se instalam em uma das 21 camas dispostas em um espaço de eventos alugado em Ubiratã (PR)
Imagem: Reprodução/New Face Reality Brasil

Sem patrocínio de marcas conhecidas, orçamento milionário, edição cinematográfica, construção de arcos de personagens ou exército de internautas engajados nas votações, o programa é um terreno fértil para momentos francos e honestos. Na eliminação do dia 31 de maio, por exemplo, a participante Mirelli Ferraciolli dispensou, ao vivo, os avanços românticos do Hulk cantando a música "Como é grande o meu amor por você". Do nada.

Beijo gay? Enquanto o BBB 21 contou com um único beijo entre homens na edição mais recente, despertando a pior reação possível dos outros participantes, no New Faces isso já aconteceu nos primeiros dias. E foi mais de um beijo, pois a casa conta com um casal gay. Brigas? Na primeira festa, dois participantes arremessaram garrafas um no outro e foram expulsos no dia seguinte. Em dado momento da transmissão ao vivo, um participante perguntou a um companheiro de isolamento, na lata: "Você toma Gardenal?".

Apesar da espontaneidade capturada pelas doze câmeras espalhadas pelo galpão, Rocha diz que seu programa não é bagunça. O contrato prevê expulsão por agressões e comentários preconceituosos. Palavrões são tolerados, mas rendem puxões de orelha.

Romance e intrigas

"Rola muita briguinha lá dentro, sabe? Por pouca coisa a gente já discutia. Também rola muita fofoca e paquera também, né?", relata Déborah Furacão, dançarina e tequileira que passou 16 dias na casa.

Nascida em Nova Odessa (SP), Furacão conta que sua boa forma veio como uma maneira de superar um quadro de depressão profunda, causado por um relacionamento abusivo. "Quase morri, mas dei a volta por cima e hoje sou a Déborah Furacão", conta, orgulhosa, ao TAB.

Foram dias intensos em Ubiratã, afirma a tequileira, que também ostenta o título de Top 3 na categoria Thong Angel da competição de fisiculturismo Brasil Fitness Show.

No decorrer das duas semanas, Déborah formou um casal com o modelo Leonardo Batista e foi acusada de manipuladora pela participante Rayanne Costa, também eliminada. "A cobra da Rayanne", devolve a tequileira.

Agora, sua esperança é ser escolhida na repescagem do New Face para terminar o que começou — e ficar com Leo. "Era uma coisa muito intensa. Ele era a cabeça e eu era o corpo", relembra.

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Rogério Rocha, criador do programa, também é apresentador, diretor e cuida do financeiro do reality. "Eu sou responsável por todos", conta o estudante de Jornalismo
Imagem: Reprodução/New Face Reality

"Dormimos pouco"

Fã de carteirinha de programas do gênero, em 2020 Rocha começou a colocar no papel o sonho de criar um reality com sua cara. Nascido em Ubiratã, cidade a 546,6 km de Curitiba, decidiu, com a cara e a coragem, criar do zero um programa. Seria transmitido pelo canal online TV The Papo, onde ele vinha trabalhando como apresentador nos últimos três anos.

Formado em administração de empresas, Rocha armou uma equipe de cinco pessoas para transformar o reality em realidade no início de 2021. Não demorou para o idealizador perceber que o projeto era mais difícil do que o previsto. Até agora, Rocha diz ter investido mais de 60 mil reais no programa. "Ao longo da transmissão, algumas marcas começaram a querer nos patrocinar", comenta. Nos intervalos do New Face, os espectadores assistem a propagandas de comércios locais do interior do Paraná, como concessionárias, hotéis-fazenda, sorveterias e até empresas que vendem extintores de incêndio.

Apesar de o programa já ter conquistado alguns patrocinadores, o trabalho não diminuiu. "Dormimos pouco", conta Rocha. De acordo com ele, um escritório foi montado ao lado do galpão para servir como núcleo de edição e direção. "Quem dorme menos é o responsável pela edição". Além disso, como se carregar um reality show artesanal nas costas por um período de 40 a 50 dias não fosse complicado o suficiente, há outra questão: a cidade de Ubiratã foi consideravelmente impactada pela covid-19.

"Tá fora de controle", sintetiza. Desde 2020, o município com pouco mais de 20 mil habitantes registrou mais de mil casos confirmados de covid-19 e 43 óbitos. No abre e fecha da cidade, Rocha teve que correr para emitir alvarás de funcionamento e garantir que todos os participantes ficassem isolados e testados duas vezes antes de entrar na casa. Até agora, ninguém ficou doente.

"Sou responsável por todos os participantes, essa é a parte mais difícil. Mas foi tudo bem tranquilo até agora. Todos estão segurados. Seguro de vida, dentário e funerário", explica.

xeque-mate - Reprodução/New Face Reality Brasil - Reprodução/New Face Reality Brasil
A eliminação do programa, chamada de "Xeque-mate", acontece toda semana
Imagem: Reprodução/New Face Reality Brasil

"É o povão mesmo que assiste"

Na estreia do programa, Rocha e sua equipe tiveram problemas técnicos. Sem um aparelho sofisticado para captar o áudio de conversas individuais ou equipe dedicada apenas a isso, todos os sons e conversas emitidos no reality se embolaram, dificultando a compreensão do que estava acontecendo. Por outro lado, isso adicionou uma camada charme, pois obrigava o espectador a montar sua própria narrativa a partir de frases soltas.

O áudio foi uma das maiores reclamações do público nas primeiras transmissões, mas Rocha garante que o obstáculo foi superado. Para ajudar, além dos microfones espalhados pelos ambientes, um microfone de mão foi cedido aos participantes. Durante uma discussão recente, uma das participantes monopolizou esse microfone para explicar seu lado da briga.

Atualmente, é possível entender, mais ou menos, os diálogos entre os participantes. Para manter quem assiste atualizado, é feita uma edição dos melhores momentos da semana (brigas, em grande parte), com a inserção de sonoplastias do "Programa do Ratinho".

Mesmo com os problemas técnicos e o clima geral de improviso, um público fiel assiste e comenta o programa durante as transmissões ao vivo. Segundo Rocha, somando também os espectadores do Facebook, as visualizações já passam de 300 mil.

"A votação é muito honesta", conta Rocha, comparando seu público com a legião de torcidas, bots e táticas diversas empregadas por participantes do BBB nos paredões. Para ele, existe uma identificação direta do público com os participantes. "É o povão mesmo que assiste e se identifica", garante. Um dos favoritos atuais parece ser o Hulk Magrelo, facilmente identificável por seu cabelo pink estilizado.

"O Rogério é corajoso"

Uma das preocupações de Rocha foi a reação dos habitantes de Ubiratã ao programa. Por ter convocado participantes gays e mulheres trans, o idealizador teve receio de que sua ideia vanguardista de fazer a cidade hospedar o primeiro reality show independente do Paraná não fosse bem recebida.

"A região Sul já é muito conservadora, no interior mais ainda. Acho que o pessoal achou que teria muita pegação, ou que seria algo vulgar", relata. "No início teve uma certa resistência, mas agora todo mundo assiste".

Quem confirma a recepção calorosa é Dicesar, 55, maquiador e drag queen conhecido pela participação no BBB 10. Contratado pela produção para dar uma "movimentada" na dinâmica do programa, Dicésar passou uma semana na casa discutindo com os companheiros de isolamento. Segundo ele, a proposta veio no timing certo, pois acabara de decidir voltar à sua cidade natal, Londrina, para cuidar da mãe.

Sua passagem como "participante fake" do programa foi rápida, mas a reação foi intensa. Ubiratã inteira, segundo o maquiador, foi até o hotel para recepcioná-lo e, depois, para se despedir. "Cidade pequena não costuma ter uma comunidade GLS muito grande, né? Então era um pessoal bem família mesmo vindo conversar comigo". Ao TAB, Dicesar diz que Rocha é "corajoso e inovador". E que já tem gente de olho no programa. "Não vou citar nomes, mas tem ex-BBB querendo participar", confidencia.

Apesar das noites em claro e do estresse da organização, Rocha antecipa que o último dia do programa será um "espetáculo, showbizz mesmo", e que não se arrepende de ter tirado o projeto do papel. A segunda edição já está confirmada — e o idealizador recebeu mais de 6 mil formulários de inscrição.

"O New Face é 100% brasileiro e está na internet. Todo mundo tem internet hoje em dia, e por isso pode nos assistir. Querendo ou não, os reality shows são uma forma de escapar da realidade no Brasil. Uma forma de trazer a esperança de que todo mundo pode colocar em prática seus sonhos".

"Venderam sonhos"

Após a publicação da reportagem, ainda na quinta-feira (10), ex-participantes do reality show entraram em contato com o TAB. Muitos contestam o número de visualizações informado por Rogério Rocha, dizem ter sido iludidos com promessas de visibilidade feitas pelo programa e de terem recebido tratamento diferenciado dos participantes famosos. "Venderam sonhos", relata Sophia Barclay, 21, influenciadora digital e uma das celebridades convidadas para participar do programa ao lado de Hulk Magrelo e Dicesar.

A influenciadora afirma ter desistido do programa no sexto dia por conta de comentários preconceituosos e situações de descaso. Na primeira festa do reality, levou uma garrafada de outro participante em uma discussão e pediu para sair no mesmo dia. No decorrer do programa, Barclay relata ter ouvido comentários transfóbicos de outros participantes e ter sido ameaçada por um produtor da casa — que estaria passando informações externas sobre ela estar "queimada" na internet. Em todas as situações, Barclay afirma ter procurado Rocha para denunciar os comportamentos, mas afirma que nada foi feito.

Outros participantes relataram que pagaram de R$ 500 a mil reais do próprio bolso para entrar no programa. É o que conta Rayanne Costa, cabeleireira, que diz ter vendido um secador e levado um patrocínio de R$ 500 de uma empresa chamada Clebersons Corporation para arcar com os custos do hotel. A cabeleireira também foi citada como "cobra" pela entrevistada Déborah Furacão, mas rebate o comentário dizendo que nunca chamou Furacão de manipuladora. "Pra ser uma pessoa manipuladora é preciso ser inteligente."

A questão dos custos do deslocamento foi bastante levantada pelos participantes não-famosos. "Não teve custeio nenhum", afirma Otávio Costa, 26, ator e professor, que afirma ter trazido patrocinadores por conta própria para participar do New Face. Após a eliminação, Costa conta que a produção do programa mal pagou a volta dos eliminados para casa — e que o envelope em que deixou seus itens pessoais estava violado e cheio de notas fiscais de compras de cestas básicas e pilhas.

Fora as denúncias, os ex-new faces afirmam que há também manipulação na edição, na votação e em outros aspectos do programa para beneficiar participantes mais famosos. Também dizem que o saldo geral da participação do reality show de Ubiratã foi negativo: mais atrapalhou a imagem deles do que ajudou. "Dentro da casa, a gente acreditava que estávamos estourados no Brasil", conta Jhonathan Michael Souza Silva, 29, confeiteiro. "Estourado nada. (...) A própria moça que atendia na Chiquinho Sorvetes, sorveteria da cidade que eu fui depois do programa, nem sabia que tava tendo reality show".

Rogério Rocha negou todas as acusações. "Inclusive vamos nos defender judicialmente de todas as calúnias feitas por pessoas que não conseguem provar tais falas", disse. "A equipe é seria e profissional, tal afirmação da ameaça de morte precisa ser confirmada. E eu, enquanto diretor, quero mais detalhes para que a gente faça uma representação na delegacia, porque eu desconheço qualquer ato assim."