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Na Finlândia e vacinados, brasileiros fazem quermesse com 200 pessoas

No São João dos brasileiros na Finlândia, algumas pessoas chegaram a se vestir a caráter - Renata Brito/Divulgação
No São João dos brasileiros na Finlândia, algumas pessoas chegaram a se vestir a caráter Imagem: Renata Brito/Divulgação

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

18/06/2021 04h00

A essa altura do campeonato, sem pandemia, muitos brasileiros já estariam celebrando o São João. Em Caruaru, no interior pernambucano, e em Campina Grande, na Paraíba, por exemplo, milhares de pessoas se aglomerariam em festas — e outras centenas ganhariam, em um mês, o dinheiro suficiente para manter a família por pelo menos um trimestre.

"O São João, no Nordeste, é como se fosse um Ano Novo no meio do ano. As famílias se reúnem, fazem comidas, festa, é uma tradição", diz a geógrafa Carolina Castro, uma carioca que morou no Recife dos 9 aos 31 anos — "pernambucarioca", como ela diz — e fala por experiência própria.

Apenas 26,88% da população brasileira recebeu a primeira dose de vacina contra covid-19, e 11,26% tomou a segunda dose do imunizante até agora — o que impossibilita qualquer evento e fez cancelar, pelo segundo ano consecutivo, a maior festa popular nordestina.

A falta de São João para Carolina, no caso, tem um agravante de quase 11 mil quilômetros: ela mora na Finlândia.

Professora e cozinheira

Carolina se mudou há pouco mais de 6 anos para Tampere, no sul da Finlândia, quando o marido arranjou um emprego por lá. O casamento acabou, mas ela decidiu ficar no país com os dois filhos do casal. Enquanto vivia no Recife, dava aulas de geografia em escolas particulares de classe média e alta, e, na nova cidade, precisou "dar um 'restart' na carreira profissional", explica. Esse recomeço foi com aprovação em uma seleção local para ser professora de língua portuguesa, ensinando nosso idioma, principalmente, a filhos de brasileiros. "É aula de idioma e também de cultura. Dou aula também para os meus filhos."

Quando não está na escola, a professora tem outro serviço: vende nossas comidas típicas de forma itinerante, em ruas e praças, no que ela chama de "restaurante 'pocket'". Em um domingo a cada mês, Carolina monta uma tenda com uma amiga, Maria José Linnero, com menu que vai de pão de queijo a bolo de macaxeira, brigadeiro e feijoada.

Neste mês de junho, a ideia da dupla era fazer um cardápio "da roça", explica ela, com comidas típicas da festa junina. Longe do Brasil, sem poder ir a Pernambuco visitar a família que ficou, a professora decidiu improvisar com ingredientes que acha na Finlândia e incluir no combo do cardápio comidas de milho. A empreitada virou, literalmente, uma festa.

"Quando lançamos o evento no Facebook, dizendo que era 'festa na roça', a turma confundiu pro bem. Disseram: 'Vai ter festa junina'. Aí era brasileiro querendo comprar barraca para vender comida, perguntando quanto era ingresso, se ia ter banda. Quando vi a proporção que ganhou, eu reuni um grupo de amigas, perguntei se elas topavam me ajudar e começamos a fazer a festa."

As amigas e sócias Maria José Linnero e Carolina Castro, organizadoras da festa - Renata Brito/Divulgação - Renata Brito/Divulgação
As amigas e sócias Maria José Linnero e Carolina Castro, organizadoras da festa
Imagem: Renata Brito/Divulgação

Virou Brasil

"Ainda tá um cabaré, aqui", brinca Carolina, se referindo à bagunça que ficou na sala da casa dela, poucos dias depois da festa. Depósito e base da produção para o evento, o ambiente tem caixa num canto e uma máquina de costura no outro, com a qual ela mesma preparou bandeirinhas da decoração.

Ao todo, seis amigas brasileiras se envolveram na organização do evento. "Somos um grupo eclético, mas morar fora do país tem uma coisa muito bonita: o ser estrangeiro nos traz para um lugar comum", comenta Carolina. "As amigas do Sul do Brasil se fantasiam com roupa de frio, o que é impensável no Nordeste. Lá também elas tomam quentão — e Deus me livre de tomar coisa quente no São João. Aí vem a confusão dos nomes das comidas: mandioca e macaxeira, canjica, mungunzá e cuscuz. Mas demos um jeito."

A festa fez sucesso. Contou com 200 participantes, e as amigas venderam toda a comida: mais de 20 quilos de feijoada, 15 quilos de mandioca, escondidinho de charque, pão de queijo, brigadeiro, bolo de milho, coxinha. "Tinha fila para comprar as coisas". O faturamento da brasileira duplicou em comparação com o restaurante ambulante. "Montamos tudo num tempo recorde: três semanas."

A "festa da roça", para um jornal local, virou antecipação da Juhannus, o solstício de verão (a noite mais curta do ano) — celebrado pelos finlandeses entre os dias 20 e 26 deste mês. Com apoio do Centro Cultural Brasil-Finlândia, que funciona através da Embaixada do Brasil em Helsinque, as organizadoras conseguiram uma banda brasileira para tocar forró no evento.

Festa teve música ao vivo, com repertório de música junina - Renata Brito/Divulgação - Renata Brito/Divulgação
Festa teve música ao vivo, com repertório de música junina
Imagem: Renata Brito/Divulgação

Prazer, São João

Em um país como a Finlândia — com 5,5 milhões de habitantes e onde vivem 1,5 mil brasileiros, segundo o Itamaraty —, uma notícia de festa brasileira corre depressa. Chegou assim aos ouvidos de Kaehryan Alyssa Fauth-Eskonen, que se informa nos dois grupos criados por imigrantes no Facebook.

Nascida em Toledo, Rio Grande do Sul, a jornalista se mudou para Tampere em junho do ano passado, em plena pandemia, para encontrar o então namorado que, desde dezembro, virou marido. Nas lembranças dela, São João sempre foi de festa na escola e no trabalho, com comidas típicas e pessoas fantasiadas — numa dimensão bem menor, comparada com aquela da memória de Carolina — e agora é também uma conexão com a terra natal.

Casada com "um finlandês bem típico", comenta, "bastante tímido e que não gosta de muita agitação", a muvuca podia até assustar, a princípio. "Num dado momento, ele se sentiu um pouco desconfortável, mas é sair da zona de conforto, né?", conta Kaehryan. Bastou um pouco de música, a descontração das pessoas e, claro, a comida especial, para que os finlandeses se soltassem.

Fazia um dia bem ensolarado no verão com temperatura máxima de 25 graus quando a jornalista, o marido e a sogra chegaram ao casarão onde acontecia a festa, num prédio de 140 anos, à beira de um lago.

O São João também era pretexto para matar as saudades. "A sensação de estar com pessoas do mesmo país é diferente. Foi uma oportunidade de a gente viver um bom momento sem pensar nas coisas ruins que infelizmente acontecem no Brasil. Também é uma forma de ter esperança de que virão dias melhores."

O evento aconteceu em casarão antigo na cidade de Tampere - Renata Brito/Divulgação - Renata Brito/Divulgação
O evento aconteceu em casarão antigo na cidade de Tampere
Imagem: Renata Brito/Divulgação

Vacinadas

Na Finlândia, mais de 50% da população com mais de 16 anos já tomou a primeira dose da vacina contra a covid-19, e outros 13% estão completamente imunizados. Isso permitiu ao governo do país flexibilizar gradualmente as restrições de distanciamento social. Tanto Carolina, com 38 anos, quanto Kaehryan, com 28, já se vacinaram.

"Me corta o coração", fala Carolina, chorando, "ver o momento que meu país está passando". Para ela, a situação brasileira "voa muito mais além do que a questão política". "Não politizo o momento que a gente tá vivendo, como tem sido levada [a pandemia] no país, mas acho uma lástima como os artistas perdem em não poder estar trabalhando, como uma turma que vive desse tipo de coisa perde. Eu lamento porque sei que o povo sofre em diferentes níveis."

Essa tristeza, pondera a professora, se arrefece de alguma maneira com a felicidade de poder celebrar um São João "em nome dos meu conterrâneos". É como se existisse "uma brasa acesa do Brasil, celebrando e dançando forró", afirma.

E a tal brasa esquenta ainda quem estava desacostumado, como a família finlandesa de Kaehryan, que já se organiza para repetir a dose no final do mês. "Conversamos sobre fazer nossa própria festa junina, em casa", conta. "Como essa foi a primeira edição da festa, e eles não esperavam a quantidade de gente que compareceu, faltaram alguns pratos. Agora a gente quer fazer uma festa particular, com uns amigos brasileiros. Não cabe aqui, porque moro em um apartamento, mas minha sogra já ofereceu a casa dela, que tem um lindo jardim."

As empreendedoras planejam repetir o evento anualmente. Assim, pode ser que o São João entre na agenda filandesa do futuro.