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De roda de pagode a biquíni de fita, Ramos mantém poucos banhistas cativos

Piscinão de Ramos e o prédio da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ao fundo - Lucas Landau/UOL
Piscinão de Ramos e o prédio da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ao fundo
Imagem: Lucas Landau/UOL

Elisa Soupin

Colaboração do TAB, do Rio

21/06/2021 04h00

"Enquanto o som do paredão toca, 'cê' gasta o seu batom de cereja, eu bebo, 'cê' beija, eu bebo, 'cê' beija." O hit sertanejo da dupla Israel e Rodolffo tocava numa sexta-feira de outono, com calor de verão, quando a reportagem de TAB chegou ao Piscinão de Ramos. Bem diferente do cenário cheio retratado pela cantora Anitta em seu clipe "Girl from Rio", o movimento estava fraco por volta das 11h da manhã. E tem sido assim, de acordo com quem frequenta e trabalha no local.

Carla Oliveira, que há três anos trabalha no Piscinão fazendo os famosos biquínis de fita isolante (que garantem uma marquinha de sol super destacada), conta que ganhar a vida ali já foi mais fácil. E fala enquanto monta um biquíni em uma cliente, que escolheu um modelo rosa. Ela, que tem 44 anos e antes não trabalhava — "Era desempregada, mas curtia a vida" —, aprendeu o ofício pela internet.

"Eu olhei no YouTube como fazia biquíni de fita e aprendi. O curso mesmo era mil e poucos reais, caro, né? Então, eu fui vendo como fazia no YouTube mesmo. No terceiro vídeo, já tinha aprendido", conta Carla, que desde então, não parou mais. "Mas o movimento tá muito ruim, por causa da pandemia, as pessoas sem dinheiro, fim do auxílio emergencial. Tem dias que não atendo ninguém", lamenta a barraqueira, que cobra R$ 20 pelo biquíni de fita.

A calma rotina do Piscinão de Ramos durante a pandemia, em Ramos, zona norte do Rio de Janeiro - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
A calma rotina do Piscinão de Ramos durante a pandemia, em Ramos, zona norte do Rio de Janeiro
Imagem: Lucas Landau/UOL

Tempos bicudos

O Piscinão ficou fechado e sem água entre setembro e novembro de 2020, e só voltou a funcionar em dezembro. (Nessa hora, o funk "Tudo no Sigilo", hit também no TikTok, é que dá o tom: "se acionar a tropa, vai rolar resenha, tudo no sigilo, tudo no esquema").

A maior parte das muitas barracas que alugam cadeiras, vendem petiscos e oferecem biquínis de fita — um clássico local — estão fechadas. Em outras épocas, a faixa de areia do Piscinão era concorrida, e achar um lugar por ali era raro: tinha que chegar cedo. Ultimamente, os trabalhadores vêm agonizando.

O barraqueiro Maycon Willan trabalha desde 2001 no balneário e nunca viu uma situação tão grave. Na sexta-feira em que a reportagem de TAB esteve lá, Maycon tinha atendido apenas um cliente até as 14h. "Esse é o pior momento que eu já vi aqui. No verão desse ano, até que ficou mais cheio. Mas na última quarta, por exemplo, eu não atendi ninguém", conta ele. Em épocas boas, o comerciante já chegou a fazer R$ 900 por dia. "Pago aluguel e minha esposa tá grávida. Faço milagre com o dinheiro", diz.

Amor de Piscinão

Apesar de o cenário ser predominantemente vazio, há quem não deixe passar um dia de sol sem ir ao local. "Eu moro em Cordovil e venho todo dia, sempre faço biquíni de fita. Sou recepcionista de escritório de advocacia já há 18 anos, mas com a pandemia, só trabalho presencialmente duas vezes na semana, então venho sempre", conta Solange Maria Rainha, 45.

A música que toca agora é "Tristinha", do cantor Ferrugem: "Te deixa em casa sozinha, chorando na cama, dormindo tristinha e eu sonhando contigo, em ser teu marido, a vida todinha". Por falar em romance, Solange até já teve um amor de Piscinão. "Arrumei um namorado aqui, casamos, ficamos juntos 4 anos, depois nos separamos", conta.

Além do amor, entre um mergulho, um churrasco aqui, uma cerveja ali e muitos papos, Solange fez amigas no balneário. Ao todo, são um grupo de 15 mulheres de idades, profissões e bairros diferentes. Elas vão ao Piscinão para curtir o dia juntas, sempre que possível. Para essa turma, o Piscinão é um estilo de vida e, se der sol, estarão sempre por lá.

"Todo mundo foi se conhecendo aqui, a gente tem grupo de 'zap' pra marcar de vir. Eu prefiro vir aqui que ir à praia, é mais perto, mais econômico, o latão sai por R$ 5, na praia é tudo mais caro", diz Solange.

Turma de amigas se reúne no Piscinão de Ramos durante a pandemia - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Turma de amigas se reúne no Piscinão de Ramos durante a pandemia
Imagem: Lucas Landau/UOL

Girls from Rio

Uma verdade sobre o já clássico clipe da Anitta no Piscinão: por ali, as mulheres não parecem modelos e a diversidade de corpos, com curvas que nada têm a esconder, impera.

Desde quando o Piscinão foi inaugurado, em 2001, Vany Paulo, 57, o frequenta. Todos a chamam pelo apelido de Alcione, por causa do vozeirão, que lembra o da cantora. "Eu, meu amor, sou a rainha, a Anitta é musa e, quando ela chegou aqui, eu já era a rainha há tempos. Todo dia que eu tenho oportunidade, estou aqui", diz ela, que é auxiliar de serviços gerais em um posto de saúde em Caxias, onde mora, na Baixada Fluminense.

"Eu adoro o Piscinão, não troco por praia nenhuma. Primeiro que não sei nadar, depois que aqui é calmo, sabe? Pode deixar as suas coisas na areia e ninguém mexe, não tem roubo, não tem arrastão", diz ela, que está em grupo com suas amigas, entre as quais, Solange. Ninguém usa máscara e nem parece estar muito preocupado com a pandemia: mais tarde, vai ter pagode em um bar que fica ali ao lado. "Não fica muito cheio não, não é perigoso", garante uma terceira amiga.

A paisagem do Piscinão é curiosa. O lago salgado é abastecido por 30 milhões de litros de água da Baía de Guanabara — que são bombeados para o sistema de tratamento do Piscinão, onde a água é filtrada e recebe cloro, de acordo com a Fundação Rio-Águas.

Quando se olha de um certo ângulo, as palmeiras e a água (aparentemente) cristalina tornam o cenário caribenho. Olhando pelo outro lado, é possível ver parte do enorme Complexo de Favelas da Maré.

Ainda de acordo com a Rio Águas, o tratamento do Piscinão de Ramos é realizado diariamente pela Estação de Tratamento de Água de Ramos — e a qualidade é constantemente monitorada para que se mantenha própria para o banho.

Thales relaxa na água do Piscinão de Ramos, durante a pandemia, em Ramos, zona norte do Rio de Janeiro - Lucas Landau/UOL - Lucas Landau/UOL
Thales relaxa na água do Piscinão de Ramos, durante a pandemia, em Ramos, zona norte do Rio de Janeiro
Imagem: Lucas Landau/UOL

Durante o tempo em que TAB esteve no local, foram poucos os presentes que arriscaram um mergulho. Apesar da promessa de segurança sanitária, as águas inspiram desconfiança de alguns banhistas por seu aspecto, que parece ter lodo, e pelo cheiro desagradável.

A vida dos frequentadores acontece mais no entorno — com cerveja, churrasco e muito papo — do que dentro d'água. Exceção à regra são as crianças, que se esbaldam nos mergulhos. Exemplo é Thalles da Silva, 7, que nadava animado. "É bom porque não fica fundo e nem tem onda", explica o menino.