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A vida de Funeco, o cão que acompanha os velórios no cemitério Chora Menino

O coveiro Odair Andrade Menezes e Funeco, cão mascote do cemitério Chora Menino, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL
O coveiro Odair Andrade Menezes e Funeco, cão mascote do cemitério Chora Menino, em São Paulo
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Letícia Furlan

Colaboração para o TAB, de São Paulo

26/06/2021 04h01

Era Ano Novo, o 1º de janeiro do segundo ano da pandemia. O velório no Chora Menino, cemitério de Santana, bairro da zona norte de São Paulo, durou apenas uma hora. Após as rezas, o caixão foi fechado. O cortejo saiu da administração e seguiu com dois coveiros. Na verdade, três.

O caminho não era dos mais fáceis. Subida íngreme, chão com relevos. Dirigido por dois coveiros, o carrinho elétrico carregava o caixão sobre a boleia. O terceiro elemento ficava à espreita, fazendo caminhos alternativos para dar no mesmo túmulo, destino final do caixão.

Os familiares eram poucos, não mais do que dez, e já estavam todos em frente à lápide onde dona Yolanda, 90, vítima de câncer, seria enterrada.

Apesar dos olhos vermelhos de choro que a máscara mal escondia, um leve divertimento tomava conta dos presentes enquanto os dois coveiros trabalhavam duro para rebaixar o caixão pesado até a última gaveta do túmulo. A dupla, concentrada sob o sol quente, cimentava e dava acabamento à obra fúnebre, sem prestar atenção ao que se passava ao redor.

Como se soubesse as etapas com exatidão, o terceiro acompanhante deitou-se na lápide vizinha para aguardar. Um gato zanzando, uma mosca voando ou uma pomba pousada no topo de um mausoléu tratavam de distrair Funeco. Por pouco tempo.

Mesmo não ajudando em nada, Funeco era quem mais chamava atenção e quem trazia algo de lúdico à cena triste.

Caixão enterrado. Os familiares se dispersam, sem antes agradecer ao trabalho da dupla. Deram ainda um afago no terceiro, que voltou junto com seus colegas para a administração do cemitério sobre o carrinho elétrico que levava os caixões.

Odair Andrade Menezes, 54, vulgo Baiano, diz que todo ritual de enterro — cerca de cinco por dia, segundo o administrador do cemitério Thiago Romeu, 30 — tem a companhia do mascote do Chora Menino.

O coveiro Odair Andrade Menezes e Funeco, cão mascote do cemitério Chora Menino, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Tudo começou na Copa

Em junho, Baiano e Funeco ainda estavam lá, seguindo os mesmos rituais. A dupla recebeu a reportagem do TAB com alguma surpresa, junto a outros coveiros.

"Foi o Funeco que trouxe vocês aqui?", perguntavam os funcionários. "Tá famoso, hein, Funeco!", brincavam outros. O cachorro meio preto, meio caramelo, também parecia não entender o frenesi, mas também não reclamava.

Baiano trabalha há 26 anos no Chora Menino, e há sete a vida mudou com a presença do cãozinho. Funeco esteve presente em todos os 3.200 e poucos enterros do cemitério desde 2014, quando foi encontrado dentro de uma caixa na Rua Nova dos Portugueses.

Um dia Baiano ia chegando ao trabalho, sábado de manhã cedinho. Fuleco estava dentro de uma caixa de ferro, jogado, na rua, debaixo de uma escada. Baiano o viu, todo pequenininho, e passou a cuidar dele.

Era ano de Copa do Mundo no Brasil, a do fatídico 7 x 1. Baiano achava que não haveria nome melhor do que Funeco para o cachorrinho — trocadilho com Fuleco, o mascote do torneio.

A decisão de adotar o cãozinho partiu de Baiano. É ele quem banca os gastos. Assim que a reportagem chegou, o animal estava com uma bandana do pet shop no pescoço, evidência de que ele havia acabado de tomar banho.

Não só Baiano, mas também todos os "pais postiços", fazem de tudo para garantir o conforto e saúde de Funeco, que é castrado, chipado e vai ao veterinário rotineiramente. O pelo lustroso e a vitalidade com que perambula sobre as lápides não negam.

O cão cresceu cercado de túmulos e mausoléus e assumiu a tarefa diária de observar pessoas saudosas enterrarem a seus entes queridos.

O coveiro Odair Andrade Menezes e Funeco, cão mascote do cemitério Chora Menino, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Sono em campo santo

Engana-se quem pensa que, por morar em um cemitério, nada assusta Funeco: o cãozinho morre de medo de chuva e fogo de artifício.
"Ele corre para o carrinho elétrico, mas dorme mesmo na caminha dele. Compramos ração para ele, ele é bem cuidado", gaba-se Baiano, que todo mês separa um dinheiro para a alimentação do mascote.

Apesar de fazer o carrinho elétrico como abrigo durante os temores, Funeco dorme mesmo dentro da administração do cemitério, onde fica a caminha. É lá que o animal passa suas noites.

Hercules Gamarra, 72, construtor e jardineiro do cemitério, é considerado o "avô" do cachorro, mas admite que o animal "é mais agarrado no Baiano".

A rotina com Funeco é mais leve, ele diz. "A família já vem abalada, mas quando vê ele no carrinho, o jeito que ele faz, nossa... Acham o máximo. Ficam contentes de ver um bichinho desses aqui", conta Hercules.

O sucesso do cão abandonado entre os frequentadores do cemitério Chora Menino é tanto que, várias vezes, Baiano teve de impedir que o cachorro fosse levado — o coveiro, inclusive, mostra na fala o pavor de imaginar isso acontecendo.

Mas não é só Baiano que protege Funeco. Quando o coveiro está de folga, o que acontece alguns dias por semana, o cão trata de grudar em algum outro funcionário, geralmente em Hercules.

No dia da reportagem, Funeco se divertia e se dividia para dar atenção aos cinco funcionários. A atenção era recíproca.

O coveiro Odair Andrade Menezes e Funeco, cão mascote do cemitério Chora Menino, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Tudo tem seu fim

Baiano conta que já pensou várias vezes em levar Funeco para sua casa, mas desistiu, já que o cão construiu a vida no cemitério. "Só se eu for embora daqui... Se um dia eu for embora, eu levo ele, não deixo não!", afirma o coveiro.

O cãozinho tem no cemitério o seu universo. Sempre às 18h, quando Baiano deixa o seu turno de 12 horas, Funeco vai direto à administração, pois sabe que é hora de descansar. O descanso, exceto quando ocorrem velórios na madrugada, é feito de maneira solitária.

Os coveiros e funcionários do Chora Menino pensam sobre a partida de Funeco, que tem sete anos. A expectativa de vida de um cachorro, como se sabe, é de dez a 14 anos. Segundo Thiago Romeu, há vontade e empenho para que o cemitério, administrado pela prefeitura de São Paulo, abra espaço para que os donos possam enterrar seus animais de estimação no local.

"Se a legislação ajudar nesse sentido, a gente abre, com certeza. O serviço funerário é receptivo", explica o administrador.

Hoje, nos cemitérios municipais da capital, não é possível enterrar animais. Cemitérios de animais particulares existem, mas são caros. Mesmo assim, a morte de Funeco não passará em branco no Chora Menino.

Thiago afirma que será uma comoção muito grande. Funeco foi o primeiro animal que apareceu e permaneceu no cemitério.

Bastante introvertido, Baiano não é de falar muito, mas deixa claro no tom de voz e no olhar — única parte à mostra por causa da PFF2 que lhe escondia metade do rosto — o pesar. Seria mesmo difícil imaginar o cotidiano no cemitério sem a extroversão e leveza de Funeco.

Assim como tantas pessoas que ajudou a sepultar, o cãozinho também deverá ter cortejo e enterro à altura de sua importância. Quando Funeco "fizer a passagem", Thiago afirma, com nó na garganta, com certeza haveria um espaço aqui [no Cemitério Chora Menino] para ele... E não haveria substituição".