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'Baiana do Acarajé' monta seu tabuleiro de madrugada na praça XV, no Rio

Valéria Almeida, 54, na barraca de acarajé da feira da Praça XV, no Rio - Fabiana Barbosa/UOL
Valéria Almeida, 54, na barraca de acarajé da feira da Praça XV, no Rio
Imagem: Fabiana Barbosa/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, do Rio

24/07/2021 04h01

Às 22h30 de uma sexta-feira, cinco montadores descarregam 240 mesas na Praça XV de Novembro, no centro do Rio. Eles estarão a postos, trabalhando, até o fim do dia seguinte, quando é hora de desmontar a estrutura.

Até o amanhecer, 260 barracas estarão enfileiradas para a Feira de Antiguidades que ocorre aos sábados desde 1976. Vende-se de tudo. Roupas de brechó, peças antigas de antiquários, sapatos produzidos por artesãos, livros de sebos, bonecos e brinquedos das décadas de 1980 e 1990.

A diarista Valéria Almeida, 54, sai de uma Kombi às 23h30. Mesmo nunca tendo pisado na Bahia, há seis anos ela é a Baiana do Acarajé do espaço de alimentação da feira, que reúne dez cozinheiros. De 2019 para cá, começou a vender caldos nas noites de sexta-feira para complementar a renda. Pernoita sozinha na praça.

Para economizar tempo e dinheiro, a cozinheira dorme ali mesmo, ao relento. Seu ponto é ao lado direito do chafariz, próximo às rampas de skate, que àquela hora estavam vazias.

Com um vestido sem manga e, nos pés, um chinelo sem meia, Valéria não parece preocupada com a friagem. Está aflita, isso sim, com o filho: pessoa com deficiência, saiu cedo na sexta-feira e não havia voltado para casa até a saída da mãe.

Barraca de Acarajé de Valéria Almeida, na Praça XV, no Rio - Fabiana Barbosa/UOL - Fabiana Barbosa/UOL
Barraca de Acarajé de Valéria Almeida, na Praça XV, no Rio
Imagem: Fabiana Barbosa/UOL

Vigília da madrugada

Assim que a mesa foi montada, a barraca de Valéria virou o ponto de referência dos que estavam na praça, mesmo sem a lona e as panelas sobre ela. "Trouxe seu cobertor lavado", gritou Valéria para Marcelo, um homem em situação de rua que, dali algumas horas, se ajeitaria embaixo de uma mesa para dormir.

Dois montadores também se aproximaram. Moisés, 25, e Francisco, 46, auxiliam a cozinheira na manutenção de sua barraca. Ambos não quiseram dar o sobrenome à reportagem. Valéria, disposta a conversar, fez questão de lhes dar atenção. Ria das piadas de Moisés e ouvia, com atenção, as histórias que Francisco contava.

De noite, a praça segue viva, palco para cenas de ação. Cortadores de grama aparam o gramado do chafariz. Pessoas em situação de rua se ajeitam para dormir nas escadarias do prédio anexo à Assembleia Legislativa. Cinco jovens no meio da praça bebiam, conversavam e riam alto.

A movimentação mais intensa começa, mesmo, às 4h, quando surgem os vendedores de peças de antiguidades.

Ao chegar, Reginaldo, um amigo de Valéria, cumprimenta a amiga e dá início às negociações na barraca da frente. Dali, sai com uma televisão de plasma pequena. Some durante horas e volta, no meio do dia, após comprar e revender peças como uma cadeira vermelha de design Charles Eames e uma escultura.

Às 6h da manhã, barracas do brechó da Praça XV já estão abertas, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Às 6h da manhã, barracas do brechó da Praça XV já estão abertas, no Rio
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Respeito à tradição

Na mesa da Baiana ladeiam-se cinco panelas com caldos, uma vasilha à mostra com mini bolinhos de acarajé, duas garrafas de café e vasilhas de pimenta à venda. Além da mesa principal, ela traz, de casa, um tabuleiro onde coloca os quitutes (quindim, queijadinha e bolos).

A barraca fica, enfim, pronta ao amanhecer, perto das 6h.

Para trabalhar, Valéria se monta como uma legítima baiana do acarajé. Senta na mureta próxima à barraca, veste uma saia comprida por baixo do vestido e uma bata. No cabelo, enrola um turbante, e no ombro lança um lenço. Todas as peças, a não ser o detalhe roxo da saia, são brancas.

Religiosa, começou a cozinhar aos 15 anos quando se tornou ialaxé (ou Ìyáláse). No candomblé, são pessoas responsáveis por zelar pelo axé, pelas atividades religiosas no terreiro — naquele que Valeria frequenta, ela, além disso, é responsável por preparar as comidas de Santo nas atividades religiosas. Se questionada sobre gostar do que faz, Valéria se empolga para responder. "A cozinha é o melhor lugar da minha casa. Lá, esqueço dos problemas da vida."

Ela não defende a tese de que o ofício deva ser exclusivo de quem frequenta terreiros, nem mesmo que seja necessário ser baiano. E explica: "A tradição do acarajé é, na verdade, oriunda do Golfo de Benin, na África".

Para ela, basta ter respeito às raízes religiosas. "As evangélicas vendem o acarajé com o nome de 'bolinho de Jesus'. E tiram o caruru da receita, porque é o alimento de Xangô. Dessa forma, querem apagar nossa história."

O acarajé tradicional é composto por um bolinho de feijão-fradinho frito no dendê e recheado com caruru, vatapá, camarão, salada de cebola com tomate e molho de pimenta.

O amanhecer na Barraca do Acarajé, na Praça XV de Novembro, no Rio - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
O amanhecer na Barraca do Acarajé, na Praça XV de Novembro, no Rio
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Dobradinha de café-da-manhã

Mesmo conhecida na praça como "Baiana", Valéria é da Baixada Fluminense. De 2006 a 2011, era cozinheira contratada em uma banca de acarajé. Há dez anos, depois que comprou panelas, fogão, um tacho e uma barraca de lona, não hesitou em abrir a sua.

Em 2012, cadastrou-se no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que, desde 2005, considera o ofício patrimônio imaterial, e na Associação Nacional das Baianas de Acarajé, no Rio, grupo que apoia as cozinheiras e que, mediante pagamento de R$ 30, disponibiliza uma estrutura de apoio às cadastradas.

Entretanto, Valéria desistiu de pagar a taxa e não faz mais parte da rede. Quando a reportagem perguntou sobre o porquê de sua saída, ela fechou a cara e disse que prefere não falar sobre o assunto.

Sem salvaguarda nem autorização da prefeitura, a Baiana peregrinou pela cidade e foi expulsa de todos os lugares onde vendia acarajé. Diante disso, decidiu trabalhar apenas nas feiras. Nelas, não precisa de licença. Atualmente, está somente na Praça XV.

Entre os clientes, há os que preferem angu à baiana, outros vão de dobradinha. Mas a maioria vai, mesmo, em busca do acarajé. Os valores são humildes. Os caldos, em cumbucas pequenas, custam R$ 5. O acarajé sai R$ 15.

Por mês, o cofrinho de Valéria acumula o suficiente para pagar as contas de casa e o tratamento do filho caçula, que, há dois meses, depois de sofrer um infarto, está de cama. Além dele e do filho com deficiência, que moram com ela, Valéria têm mais três, já casados.

Feira de antiguidades

O céu amanheceu às 6h, e o azul-claro se misturou ao laranja do sol nascente. As estações das barcas, transporte que dá acesso à Niterói e à ilha de Paquetá, já estão abertas e o movimento do vai e vem de pessoas dentro e ao redor da feira aumentou.

Valéria já vendeu, ao menos, dez cafezinhos e cigarros. Teve até quem encarou uma dobradinha de café da manhã. Para a cozinheira não há tempo ruim e, durante todo o dia de trabalho, mesmo demonstrando cansaço, esbanja bom humor.

O cheiro de dendê, às 10h, chama os primeiros clientes em busca do bolinho que transborda camarão. No sábado em que a reportagem esteve na feira, o horário de pico foi das 10h às 13h. Já o ponto de Valéria lotou às 11h e esvaziou às 16h, quando vendeu os cinco últimos acarajés.

Depois de fritar mais de trinta bolinhos, esvaziar as panelas de dobradinha, angu e sarapatel e vender três engradados de cerveja, a canseira, no corpo da cozinheira, é evidente. No meio do dia, ela respirou aliviada quando recebeu notícias de que o filho estava na casa de uma amiga.

Ao final do expediente, às 17h, Valéria está ansiosa para encontrá-lo e não vê a hora de partir. A movimentação na feira diminui e o céu escurece. O som das rodas dos skates, recém-chegados, batendo nas rampas, se mistura ao das estruturas sendo desmontadas.