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'Coisa de vagabundo'? Skate se profissionaliza no país e vira categoria CLT

Alunos do curso de Instrutores de Skate Nível I e II, ministrado pela associação ABC do Skate, em parceria com a Associação dos Skatistas do Rio de Janeiro - Matias Maxx/UOL
Alunos do curso de Instrutores de Skate Nível I e II, ministrado pela associação ABC do Skate, em parceria com a Associação dos Skatistas do Rio de Janeiro Imagem: Matias Maxx/UOL

Matias Maxx

Colaboração para o TAB, do Rio

26/03/2021 04h00

Numa noite de quarta-feira, pouco mais de uma dúzia de skatistas sentaram-se em carteira de escola no Parque Madureira, na zona norte do Rio. Não na pista de skate, mas numa sala no prédio da administração.

De janelas abertas, máscaras e distanciamento entre as carteiras, assistiam ao curso de Instrutores de Skate Nível I e Nível II, ministrado pela Associação ABC do Skate, em parceria com a Associação dos Skatistas do Rio de Janeiro. O certificado é uma exigência da CBSk (Confederação Brasileira de Skate) para poder dar aula em clubes, escolas ou em projetos como o Skate Escola, da Secretaria Especial do Esporte.

Desde a entrada do esporte nos Jogos Olímpicos, há um aquecimento no bilionário mercado do skate. O contraponto é a burocratização e a profissionalização de um esporte que, lá no passado, era conhecido por atrair "vagabundos" — em 1988, o então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, chegou a proibir a prática do skate na cidade.

Trinta anos depois, olha só o que o skate virou: em fevereiro, a categoria "Atleta de Skate" foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações, permitindo que empresas e clubes assinem a carteira de trabalho de skatistas.

Aulas, cria

A maioria dos alunos do curso (cerca de 15) já dá aula informalmente ou realiza projetos sociais em suas quebradas. Havia apenas uma mulher na turma — e uma discrepância etária protagonizada por Cesinha Chaves, 65, uma das lendas do skate brasileiro. Cesinha, precisando de certificado para dar aula?

O skatista Cesinha Chaves - Matias Maxx/UOL - Matias Maxx/UOL
O skatista Cesinha Chaves
Imagem: Matias Maxx/UOL

Cesinha chegou a disputar campeonato na Califórnia (EUA) nos anos 1980. É um dos pioneiros do país, tendo editado revistas e apresentado programas na rádio, TV — aberta e a cabo — e, mais recentemente, o "Chave Mestra", no YouTube. Mesmo com tanta bagagem, nunca foi homologado profissionalmente, mas sempre teve patrocínios. "Na minha época éramos 'semipros' [semiprofissionais]. Tenho alguns projetos de oficinas de skate e arte, montar uma minirrampa, contratar instrutores, então meu objetivo ali no curso era conseguir uma chancela para isso."

A ABC do Skate começou este trabalho em 2001, num clube tradicional de Porto Alegre (RS). De lá para cá, formou mais de 300 instrutores em vários estados, aptos a ensinar crianças e adultos, incluindo pessoas com deficiência. Na primeira aula, cada aluno recebe uma apostila com 31 páginas. Nelas, além da metodologia, plano de aulas, tabela de movimentos e manobras, há lições sobre a importância do skate como cultura contestadora que transcende o esporte, influenciando a música, a moda e até os mobiliários urbanos.

Frederico Manica, coordenador dos cursos de formação da ABC, explica que a metodologia foi criada num sistema de copyleft. "Não determinamos o valor do curso. A tentativa é que apoiadores e empresas locais ajudem a custear as despesas, para ser mais acessível. A maior parte dos instrutores atua em locais onde há vulnerabilidade social e recursos escassos."

Modelo de negócio

Promover um amador a profissional do skate é uma atribuição da CBSk. Todos os anos, uma lista com os novos contemplados é publicada, mas muitos candidatos reclamam da falta de transparência sobre os critérios de aprovação. Uma fonte com mais de 20 anos de atuação na área que preferiu não se identificar relata que a cada ano, "sobem só uns dois. E rola politicagem, às vezes o cara é meio rebelde..." Ainda assim, muitos fazem questão de passar pelo processo porque, com o endosso da profissionalização, o skatista já consegue ganhar cachê ao participar de competições (sem que seja levada em conta a classificação).

O problema é a visão restrita sobre o que é ser profissional, para a CBSk. O tão almejado registro é dado exclusivamente a esses atletas que participam de campeonatos e competições, e não aos que vivem do lifestyle e das chamadas video parts, espécie de diário patrocinado de skatistas ou grupos de skate, em viagens ou em suas áreas, mostrando manobras e o dia a dia dos praticantes. Elas costumavam ser vendidas em VHS e, hoje, se reinventaram nas redes sociais.

Para o professor Manica, o skate competitivo representa um percentual muito pequeno no espectro de atividades que a cultura do esporte contempla. "Por muitos anos, tinha skatista com patrocínio que recebia só por direito de imagem. Ele não tinha como assinar uma carteira de trabalho nem recolher INSS para ter uma aposentadoria. Agora, está reconhecido que o skate é uma ocupação, para que um dia um skatista seja como um jogador de tênis ou de futebol. Um princípio da cultura skate desde os primórdios é ter atitude diante dos desafios, e assim procedemos."

Guilherme Guimarães é team manager (coordenador de equipe) dos skatistas brasileiros patrocinados pela marca de tênis Converse, que tem uma diretriz global de apoio a atletas dedicados ao lifestyle — e não aos campeonatos. Ele refuta a ideia do skatista profissional como o cara que ganha campeonato e aparece na televisão. "Tem um lado legal, o cara vive da paixão dele, mas é muito raso, porque o skate é muito mais do que aquele campeão que a TV mostra."

Guimarães coordena uma equipe de sete skatistas. Para ele, o que realmente transforma um adepto numa lenda são as video parts. "Esses caras não foram os campeões, mas são os caras que fizeram os vídeos mais legais, criaram manobras", opina.

Ainda assim, Guimarães admite que é mais fácil viver do skate participando de campeonatos, já que chegar ao seleto grupo de skatistas que vivem das video parts é difícil e, segundo ele, as estrelas são escolhidas a dedo.

"Existem vários tipos profissionais do skate e a CBSk quer encaixar só na caixinha do atleta profissional competitivo" explica o skatista carioca Leo Rodrigues, 28. "Tem o cara que participa desse show, onde você usa seu talento para obter um prêmio, uma recompensa. E tem skatista levando skate pras comunidades. Tem ainda os que trabalham com marcas e publicidade e tem pessoas que não dependem de marca, que estão simplesmente monetizando o conteúdo que sempre fizeram de graça, por meio de NFT. Na verdade, os skatistas são seres muito diferentes entre si, e ocupam a cidade de jeitos bem diferentes." Rodrigues nunca correu campeonatos e tem uma relação de mais de dez anos com a marca Redley, além de apoios da skateshop Soma e a marca de seda OCB.

Para Leo, a forma como a CBSk regula o esporte aqui não faz sentido. "Lá fora, se você lança um promodel de tênis ou shape, é lançado como atleta profissional. Aqui eles inventaram um circuito, uma lógica que impõe obrigatoriamente que você jogue o jogo deles."

Leo ficou surpreso com a notícia da inclusão do skate na CLT e brincou que vai cobrar suas marcas. Explicou que, até então, recebe royalties em cima de produtos assinados e tem um contrato de imagem para realizar vídeos, fotos e eventos. Trabalha ainda com um grupo de skatistas de várias nacionalidades, desenvolvendo um projeto que envolve skate, blockchain e criptomoeda.

Aula do curso de Instrutores de Skate Nível I e II - Matias Maxx/UOL - Matias Maxx/UOL
Aula do curso de Instrutores de Skate Nível I e II
Imagem: Matias Maxx/UOL

De olho no ouro olímpico

Fundada em 1999, a CBSk é hoje a entidade que regula as normas, políticas e campeonatos de skate no Brasil, além de administrar sua seleção olímpica. Com a entrada no COB (Comitê Olímpico Brasileiro), a confederação atingiu um novo patamar: segundo o balancete fiscal de 2019, a confederação recebeu recursos de R$ 3,3 milhões de reais vindos do COB, R$ 638 mil do Circuito Brasileiro de Skate e R$ 1 milhão de patrocínio — além de R$ 12 mil recolhidos em eventos, anuidades, taxas e filiados naquele ano.

Mesmo representando o esporte há tanto tempo, a CBSk penou para ser reconhecida pelo COB, já que, cinco meses após o anúncio da entrada do esporte nas Olimpíadas, a Confederação de Hóquei e Patinação tentou encampar a modalidade com a manobra de incluir o skate em seu estatuto. O resultado foi uma grande mobilização por parte de skatistas, com ameaças de boicote às Olimpíadas, caso a CBSk não fosse reconhecida. Na ocasião, Bob Burnquist foi eleito presidente da entidade e intermediou sua filiação na World Skate.

Em junho de 2019, entretanto, Burnquist se desligou da CBSk, alegando que a presidência tomava muito seu tempo — e ele acabava andando menos de skate. Seu vice, o cartola Eduardo Musa, que nunca dropou num skate mas tem vasta experiência em administração esportiva, acabou assumindo a posição.

Antes disso, Musa atuou por seis anos como assessor pessoal de Neymar Jr., de quem geria a carreira comercial. Em 2015, por desavenças com Neymar pai, ele se desligou do atleta e processou seu ex-empregador na Justiça do Trabalho. Dois anos depois, fechou um acordo indenizatório de R$ 3 milhões. Para os skatistas ouvidos pela reportagem, a boa notícia é que de CLT ele entende.