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Vai-Vai vira ponto de vacinação após perdas por covid: 'sopro de vida'

Quadra da escola de samba Vai-Vai virou ponto de vacinação contra covid-19  - Reinaldo Canato/UOL
Quadra da escola de samba Vai-Vai virou ponto de vacinação contra covid-19
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Mateus Araújo

Do TAB, em São Paulo

27/07/2021 04h00

Há poucas ocasiões na vida em que esperar numa fila tem lá seus prazeres — é o caso de quem fica em pé por minutos ou algumas horas para receber a vacina contra a covid-19. Na última quinta-feira (22), uma renque dessas, grande, saía de dentro da quadra da Escola de Samba Vai-Vai, na Bela Vista, região central de São Paulo. A fila dobrava a esquina, subindo o trecho enladeirado do quarteirão. Apesar do friozinho, o sol do meio-dia obrigava o pessoal a procurar a sombra, mais próximo à parede.

Entre as conversas aleatórias, uma única voz se sobressaía: "Quem já pegou senha?", perguntava dona Niltes Lopes, 65, uma senhora baixinha, de cabelo cacheado e uniformizada em preto e branco (cores da agremiação). "Já deixem os documentos separados, na mão, pessoal."

Desde maio, de quinta a sábado, das 8h às 17h, ela repete essas orientações, organizando a espera de quem vai tomar a vacina. Entrega fichas com número da ordem de entendimento, que, em dois meses, foi aumentando a média diária de 80 para 300, mais recentemente.

Auditora aposentada de uma empresa de telecomunicações, Lopes coordena o setor de projetos sociais da Vai-Vai e é uma dos oito vai-vaienses voluntários no posto de vacinação montado pela Prefeitura da cidade na sede da escola de samba. Eles ajudam na logística de funcionamento e dão apoio à equipe da UBS (Unidade Básica de Saúde) Nossa Senhora do Brasil, que atende no local.

"Para nós é muito importante isso. A gente mostra que aqui não é só um polo de cultura, mas também um grupo social. As pessoas e a saúde estão acima de tudo. É um acolhimento ao nosso bairro", explica dona Niltes ao TAB. "Tem muita gente que passa aqui e pergunta se pode se vacinar. Achavam que era só para o pessoal da escola. Ou que aqui só tem Carnaval."

Das 13 escolas de samba do grupo especial de São Paulo, a da Bela Vista é a única a receber o programa de imunização contra o coronavírus.

Niltes Lopes organizando a fila de vacinação na quadra da Vai-Vai - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Niltes Lopes organizando a vila de vacinação na quadra da Vai-Vai
Imagem: Reinaldo Canato/UOL
Escola de samba Vai-Vai, na Bela Vista, é posto de vacinação de covid-19 - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Escola de samba Vai-Vai, na Bela Vista, é posto de vacinação de covid-19
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Portas abertas

Dona Niltes Lopes chegou à quadra por volta das 7h15, antes mesmo da kombi que levava agentes comunitários, enfermeiros e os isopores com as doses de vacina.

Com os outros integrantes, abriu os janelões do prédio, limpou o salão, espalhou 30 cadeiras de plástico na área interna, montou as mesas do atendimento, preparou um café da manhã para os profissionais de saúde e organizou os kits com bandeira de plástico, máscara e álcool em gel para serem entregues aos vacinados. Dentro da quadra também deixaram um painel gigante com o emblema da escola de samba, que serve de cenário para quem quiser fazer selfie pós-vacina.

Grande parte das pessoas vacinadas na Vai-Vai mora no próprio bairro. Um deles era o motorista de aplicativo Eduardo Novaes, 48. "Eu venho na Vai-Vai desde que me entendo por gente", afirmou. "É primeira ou segunda dose, a sua?", perguntava Niltes a ele, para orientá-lo. Novaes completou naquele dia o ciclo de imunização, assim como a analista de operações Patrícia Tomazoli, 49, também moradora da Bela Vista.

Carregando uma bandeirinha da Vai-Vai na mão, Tomazoli contava que era "maravilhoso" ver a escola de samba como posto de vacinação. Além de perto de casa, a escola de samba é um símbolo da vizinhança, dizia. "É a escola que eu torço, que acompanho, venho sempre aos ensaios."

Essa é a primeira vez que a quadra reabre ao público desde março de 2020, logo após o Carnaval. Mas o clima de otimismo da vacinação contrasta com a tragédia da pandemia: a escola estima que cerca de 30 integrantes morreram em decorrência da covid-19. A maioria das vítimas era componente da velha-guarda.

O motorista de aplicativo Eduardo Novaes - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
O motorista de aplicativo Eduardo Novaes
Imagem: Reinaldo Canato/UOL
A analista de operações Patricia Tomazoli - Reinaldo Canato/UOL  - Reinaldo Canato/UOL
A analista de operações Patricia Tomazoli
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Marcas da pandemia

Havia seis anos que Maria da Glória Carvalho, 70, esperava para voltar a desfilar no Sambódromo do Anhembi. Uma cirurgia de urgência na aorta, na véspera do Carnaval de 2015, impediu a integrante da ala das baianas de participar da homenagem que a escola fez a Elis Regina. Foi uma frustração para ela, fã da cantora, que assistiu à apresentação pela TV, no quarto do hospital.

Em 2021, dona Maria voltaria a compor a ala na qual entrou em 1992. Estava pronta para celebrar na avenida o retorno da escola alvirrubra ao grupo especial, depois do rebaixamento em 2019. Mas no final de maio do ano passado, no entanto, ela morreu, vítima da pandemia. "Infelizmente, não deu tempo de voltar", lamenta o filho dela, o vendedor Adilson Carvalho, 43.

Foi por causa da mãe que Carvalho virou ritmista da Vai-Vai há 28 anos. Ela que o levou à escola de samba. "Nunca vou esquecer do desfile das campeãs de 1992, que ela me viu na arquibancada assistindo, se aproximou, me pegou e falou assim: 'Realizei o sonho da minha vida'". Quando voltar à quadra, diz ele, as coisas não serão iguais: "Vai sempre faltar minha mãe, né?"

O sambista Thobias da Vai-Vai passou 35 dias internado em decorrência da covid-19  - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
O sambista Thobias da Vai-Vai passou 35 dias internado em decorrência da covid-19
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

O vazio deixado pelos amigos da escola também emociona Thobias da Vai-Vai, 62. "Para os parentes que perderam seus entes queridos já é difícil a ideia de não ter presença física das pessoas. Para nós enquanto dirigentes, artistas e da comunidade, é pensar: 'poxa, fulano já faleceu'. Não cai a ficha", conta o sambista, ex-presidente do grupo e um dos ícones da agremiação. "A nossa vice-presidente faleceu há um mês e pouco. Era minha comadre, madrinha de minha filha. A gente não se acostuma com a ideia." Ele mesmo esteve em um estado crítico de saúde. Foram 35 dias internado com covid-19, nove de intubação.

Sentado na sala do apartamento onde mora, aponta para as caixas de remédio que passou a tomar desde que recebeu alta do hospital, em 22 de abril. Além do tratamento de diabetes e hipertensão que já fazia, ele agora usa medicamentos anticoagulantes e para problemas neurológicos desenvolvidos durante a internação. "São seis vezes ao dia. Tudo isso aí custa R$ 1 mil. Agora veja a dificuldade que é para pagar."

O vozeirão de Thobias permanece inabalável, mas as mãos, por outro lado, ainda precisam reabilitar os movimentos e retomar a força. "A sensação, quando você recebe a notícia que está infectado, é cruel", lembra. "Parece que o mundo vai desabar. Você fica igual a cachorro quando cai do caminhão de mudança."

Há três meses, ele se esforça para se recuperar física e financeiramente. "Antes de ficar doente, já estava difícil fazer shows por causa das medidas de isolamento social. Infelizmente veio a doença." A primeira apresentação desde então será em outubro, no buffet de um amigo, com a esposa Elizeth Rosa, também cantora. O dinheiro ajudará nos gastos com fisioterapia e remédios. "Todo dia eu acordo, olho o sol, vejo as luzes da cidade e digo: 'que beleza, continuo vivo.'"

Niltes Lopes, 65, é coordenadora de projetos sociais da Vai-Vai - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Niltes Lopes, 65, é coordenadora de projetos sociais da Vai-Vai
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

'Sopro de vida'

Sentada numa cadeira de plástico, no mezanino da quadra, de onde consegue ver todo o movimento da vacinação, dona Niltes Lopes ajustava a máscara no rosto enquanto pensava o que responder. A pergunta: "A senhora acha que vai ter Carnaval em 2022?". Por trás dela, uma vitrine enorme guarda as dezenas de troféus e medalhas da quase centenária escola de samba paulistana.

Faltam sete meses para o desfile cancelado em fevereiro deste ano. A agremiação da Bela Vista quer festejar a volta do rebaixamento e já tem enredo escolhido, uma celebração ao pássaro sagrado africano Sankofa — que simboliza a busca do que ficou perdido. Se vai ter festa, afinal, "depende dos governantes, mas acredito que sim", respondeu Niltes. "Mas acho que tem que vacinar todo mundo, e tem que vacinar também as crianças."

"Tem muita gente sem querer se vacinar, né?", reclama. "Já ouvi pessoas dizendo que queria esperar a vacina da marca tal. Outra disse que ia esperar outro dia. Eu digo: 'minha gente, quando você adia essa vacina, é um dia a menos de sua vida.' Não é? A vacina é um sopro de vida."