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'Para que pôr cobertor no lixo?': o inverno de moradores de rua em Curitiba

Bibi gesticula e faz as vezes de síndica da república de moradores de rua - Theo Marques/UOL
Bibi gesticula e faz as vezes de síndica da república de moradores de rua Imagem: Theo Marques/UOL

Vinicius Konchinski

Colaboração para o TAB, de Curitiba

30/07/2021 04h00

Ronaldo Riguet, 50, lembra-se revoltado de como passou a noite do dia 20 para 21 de julho, quando os termômetros em Curitiba registraram mínima de 4º C. Morando nas ruas da capital paranaense há cerca de um ano, Riguet, o Professor, dormiu "de valete" com um colega para manter-se aquecido naquela madrugada.

"Valete é quando um deita com a cabeça para cima e outro de cabeça para baixo num mesmo colchão", explicou ele, homem grisalho e magro. "Só assim para aguentar. Eu estava sem meu colchão, sem cobertas e só com roupa do corpo."

Todos os pertences de Riguet haviam sido colocados no lixo horas antes daquele anoitecer. Ele organizara tudo o que tinha numa só pilha montada debaixo da marquise em que dorme há cerca de dois meses. Saíra para ir até uma barbearia com uns trocados que tinha ganhado com a venda de artesanato.

Enquanto caminhava, viu o caminhão do serviço municipal de limpeza subindo a rua atrás de uma viatura da FAS (Fundação de Ação Social de Curitiba). Já previu o pior.

Ele gastou o pouco que tinha numa passagem de ônibus para voltar o mais rápido possível à marquise e tentar salvar suas coisas. Quando chegou, já estavam todas na caçamba.

"Parece que a FAS faz isso para ver a gente sofrer. Para que pôr um cobertor no lixo num frio deste?", indignou-se. "Mas não adianta pressionar. Para abrigo eu não vou. Não quero sair de lá me coçando todo, cheio de muquirana [tipo de piolho]. Fico aqui"

Fotos registraram ação da FAS na marquise da Padre Anchieta no último dia 20 - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Fotos registraram ação da FAS na marquise da Padre Anchieta no último dia 20
Imagem: Theo Marques/UOL

"Aqui" é a tal marquise que virou morada para Riguet. Localizada na rua Padre Anchieta, bairro do Bigorrilho, área nobre de Curitiba, o espaço fica em frente a uma agência bancária fechada há anos. Há cerca de dois meses, o local tornou-se ponto fixo de pouso para Riguet e outros três jovens desabrigados: Everton Bernardo, 23, o Sementinha; Matheus Vilhalba de Oliveira, 20, o Índio; e uma mulher trans chamada Bibi, 23.

Juntos, eles se organizaram e formaram uma espécie de comunidade. Passaram a resistir juntos à insistência de funcionários da prefeitura em tirá-los da marquise. "A gente não quer confusão, não quer atrapalhar a vida de ninguém", afirma Bibi, que é tratada como uma síndica daquela república improvisada para desabrigados. "Por isso a gente deixa tudo ajeitadinho e tenta evitar reclamação da vizinhança"

Bibi "abriu as portas" da marquise para o TAB na semana passada. De aparência frágil mas com fala incisiva, ela reclamou do tratamento que recebeu desde quando foi interna de uma casa para órfãos e relatou a rotina que ela faz cumprir pelos dormem na marquise -- sejam eles moradores fixos ou eventuais.

"Qualquer um pode parar aqui, mas tem que manter a ordem, né? Se não quer colaborar, é melhor buscar outro lugar para parar. Aqui não tem fervo", afirmou.

As regras básicas de convivência na marquise, inclusive, estão escritas com giz escolar nos tapumes pretos que bloqueiam as portas do imóvel comercial fechado: manter o espaço organizado, falar baixo a noite, jogar lixo no lixo, não tumultuar e ajudar na limpeza.

Também nos tapumes, estão registrados pedidos de roupas e comida, além de um protesto contra a FAS. "Só quem nunca passou pelo sistema não conhece o trabalho de mentira no qual os mendigos sofrem abuso psicológico. Preferimos as ruas."

As regras de boa convivência na marquise - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
As regras de boa convivência na marquise
Imagem: Theo Marques/UOL

Acolhimento de uns, resistência de outros

Os escritos, às vezes, viram tema de conversa entre Bibi e seus colegas com pessoas bem vestidas que caminham pelo comércio na Padre Anchieta. Num fim de tarde, uma senhora parou na marquise para perguntar quem era o autor dos textos. A criança que a acompanhava logo se encantou pela cadelinha cuidada pelos moradores de rua, a Coli.

"Ela estava sendo maltratada por um mendigo. Nós adotamos", contou Bibi. "A gente se divide nos cuidados. Nunca falta nada."

De uma moradora do bairro, Coli ganhou uma coleira com seu nome gravado numa chapa de aço. No verso da chapa, ela leva o nome dos donos: Bibi e Sementinha.

A cachorrinha come ração de marca e bebe água num potinho próprio para cães. Tudo fruto de doação. Cada cocô que ela faz é recolhido com vassoura e pá, também doadas.

Bibi (esq), a cadelinha Coli e o Matheus, o Índio (dir) - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Bibi (esq), a cadelinha Coli e o Matheus, o Índio (dir)
Imagem: Theo Marques/UOL

Quase tudo que os moradores da marquise têm ou ganham fica guardado em dois carrinhos de supermercado que fazem as vezes de armário. Há uma prateleira reservada para material de higiene, limpeza, roupas e comida, que é repartida entre todos.

"Aqui é tranquilo. Tem gente que já sabe quem a gente é. Sempre ajudam", disse Bibi. "Agora, claro, tem ricões que vivem em apartamento de R$ 1 milhão e que não podem ver pobre feliz. Esses aí ligam na prefeitura pedindo para tirar a gente daqui. Deixa eles"

Bibi, 23, é a líder de comunidade da marquise e primeira que zela pela organização do local - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Bibi, 23, é a líder de comunidade da marquise e primeira que zela pela organização do local
Imagem: Theo Marques/UOL

Pelo menos 302 pedidos de providências contra os moradores de rua na marquise da Padre Anchieta já foram registrados na prefeitura. Por conta disso, a FAS realizou quatro ações no local durante o mês de julho. Uma delas foi a que recolheu os pertences de Riguet antes do anoitecer, junto com as coisas de seus colegas.

"Há um grupo de WhatsApp em que vizinhos combinam abertura de protocolos contra eles", diz a empresária Renata Baroni, 46, também residente da região, que discorda do método e visita regularmente os habitantes da marquise. "Eles não fazem mal a ninguém."

Sem maldade

Vez ou outra, o que acontece é discussão entre os próprios moradores da marquise. Na manhã de quinta-feira passada (22), Riguet levantou-se bravo do colchão que recém havia conseguido para passar a noite. "Você é rato de mocó", gritou, apontando para um outro morador de rua que tinha dormido ali naquela madrugada. "Se quiser alguma coisa, tem que pedir. Não vai mexendo no que não é seu."

O início da discussão, entretanto, foi logo interrompido pelo vendedor de balas Wilson Sandro Dias, 22. "Aqui não é lugar disso", interveio.

Dias já morou na rua e dormiu na marquise da Padre Anchieta. Hoje paga aluguel de um kitnet com o dinheiro do trabalho, mas mantém o contato com quem dorme na sua antiga morada. "Aqui não tem maldade. Sempre parava aqui"

Mais calmo após a discussão, Riguet falou de sua vida. Disse que foi para rua após deprimir-se por ficar viúvo. Se recuperou, constituiu novo lar, mas perdeu o sustento durante a pandemia e se viu sem escolha. "Eu vendia flores na noite para pagar o aluguel. Veio o coronavírus, entreguei o apartamento e fui para rua", contou.

Ele disse já ter passado pelos serviços de assistência social da prefeitura, dormido em casas para idosos e ter procurado recolocação no mercado de trabalho. Riguet, que já foi terapeuta, hoje é doente e não vê luz no fim do túnel.

"Como arrumar emprego se não consigo nem fazer a barba, cortar o cabelo?", pergunta. "Falam que eu tenho que mirar num final melhor para mim. Eu não tenho nem início nem meio. Como vou ver fim?"

Decidido de que dormir na rua é melhor do que em albergues públicos, Riguet hoje veste-se com duas calças e três camisas. "Uso tudo o que eu tenho. Não vou mais deixar roupa guardada para a FAS passar e colocar no lixo."

Protesto contra a FAS (Fundação de Ação Social de Curitiba) escrito em tapume da marquise - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Protesto contra a FAS (Fundação de Ação Social de Curitiba) escrito em tapume da marquise
Imagem: Theo Marques/UOL

Procurada pelo TAB, a FAS informou que mantém tratamento humano e solidário a moradores de rua, os quais recebem atendimento prioritário do órgão. A fundação lembrou também que a lei municipal proíbe que objetos atrapalhem a circulação de transeuntes. Por isso, ela faz ações para que moradores de rua não acumulem pertences em calçadas.

A FAS ressaltou, porém, que não recolhe objetos de moradores de rua. Segundo o órgão, o que é levado é que os próprios moradores de rua sinalizam que deve ser descartado.

"Reforçamos que em nenhum momento é realizado apreensão ou recolhimento de pertences pessoais, ocorrendo apenas a desobstrução das vias, coleta dos materiais descartados e abandonados e posterior limpeza do local", declarou.

A FAS informou que os albergues mantidos pela prefeitura são higienizados diariamente e prestam serviço digno. Para o órgão, pessoas se recusam ir aos abrigos porque "têm suas necessidades atendidas na rua pela comunidade". "A doação de camas, móveis e utensílios em logradouros públicos vem na contramão da assistência social", declarou.

Segundo a Prefeitura de Curitiba, com a chegada do inverno, o número de vagas em albergues foi ampliado e chegou a 1.635. A prefeitura estima que 1.900 pessoas morem nas ruas da cidade, ou seja, cerca de 265 mais pessoas do que vagas em abrigos. Acontece que, mesmo no frio curitibano, cerca de 500 vagas em abrigos ficam ociosas toda noite.