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Hit nas Olimpíadas: a saga de 'Baile de Favela' até a medalha de Rebeca

Rebeca Andrade exibe a medalha de prata inédita - REUTERS/Lindsey Wasson
Rebeca Andrade exibe a medalha de prata inédita
Imagem: REUTERS/Lindsey Wasson

Tiago Dias

Do TAB, em São Paulo

08/08/2021 04h00

No dia 29 de julho, os Jogos Olímpicos de Tóquio já estavam quentes quando Rebeca Andrade entrou fervendo no tablado para a classificatória do individual de ginástica artística. O resto, como se sabe, virou história — escrita ao som da música clássica de Bach e de um batidão bem conhecido no país.

No primeiro acorde de "Tocata e Fuga", do compositor alemão, todos os olhos no ginásio se voltaram para Rebeca. A surpresa logo virou frenesi quando a melodia quase tétrica deu espaço para "Baile de Favela", de MC João. Rebeca então abriu o sorriso e mostrou toda a sua ginga entre saltos e acrobacias perfeitos. Mesmo sem público, era possível ouvir gritos e aplausos dos concorrentes, voluntários e equipes técnicas.

A reação no ginásio em Tóquio — e de muitos diante de uma tela no Brasil — lembra a da própria ginasta ao ouvir pela primeira vez a trilha sonora da sua série. O coreógrafo Rhony Ferreira chegou com um fone de ouvido e algumas instruções: "Fecha os olhos e não me critica antes de ouvir a música toda." No início, Rebeca arregalou os olhos e fez uma negativa com a cabeça. Quando o funk entrou, abriu um sorriso e começou a dançar. "É a minha cara", vibrou.

"Baile de Favela" parecia ressaltar os movimentos e a garra da ginasta de 22 anos, vinda da periferia de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo — e que se tornava, a partir dali, a maior de todos os tempos da América do Sul, com os inéditos ouro e prata na modalidade. "Eu queria que ela se sentisse poderosa, fodástica. Que ela mostrasse a força brasileira e arrastasse a multidão com ela", observa o coreógrafo sobre a escolha do funk. "E foi o que aconteceu."

Do outro lado do mundo, MC João ficou em choque ao ouvir "Baile de Favela" num momento tão histórico, seis anos após o lançamento. Foi logo para as redes sociais, eufórico por Rebeca e por si próprio: "Esquece, 'tamo' estourado".

Era dia de comemoração, mas o MC aproveitou também para esclarecer uma fake news que parecia ofuscar seu brilho. Corria o boato de que a música fora escolhida em homenagem ao presidente Jair Bolsonaro. É fato que aquela melodia, tão usada em paródias e jingles, também serviu como base para uma música de apoio ao presidente, à revelia do autor. "A música é minha e do DJ R7, não é de nenhum mito, não, certo? Quem 'mitou' foi 'nóis'".

Rebeca Andrade ao ouvir o medley que acompanharia sua série: "É a minha cara" - Athit Perawongmetha/Reuters - Athit Perawongmetha/Reuters
Rebeca Andrade ao ouvir o medley que acompanharia sua série: "É a minha cara"
Imagem: Athit Perawongmetha/Reuters

O mito "Baile de Favela"

Em 2015, João Israel Simeão era apenas um dos muitos garotos de São Paulo que faziam vigília na porta de ferro da GR6 em busca de uma chance. Na época, entrar na principal produtora de funk, localizada na Vila Paiva, era como achar um bilhete premiado. Era do espaçoso imóvel, com direito a quadra e piscina, que saíam as pérolas virais de jovens artistas em ascensão, como MC Livinho e Kevinho.

Vindo de uma quebrada não tão longe de Rebeca, em Jova Rural, no extremo norte da cidade — e com a mesma idade que a medalhista tem hoje —, João tinha sido office boy e ajudante de escritório, mas guardava as noites para o funk. Era uma válvula de escape, mas também o sonho de sustentar bem a mãe com problemas de saúde e duas irmãs, após a morte do pai quando ele tinha 17 anos.

Numa tarde de junho, o portão se abriu para alguns testes nos estúdios na parte de baixo. João entrou com sua maior aposta, um funk chamado "A Culpa é da Cachaça", mais festeira do que as letras que costumava escrever. "João sempre fez funk consciente, as letras dele sempre falavam de força e superação, isso sempre esteve presente", relembra o amigo André, assessor de João há 10 anos.

O DJ R7, prata da casa, foi direto ao ouvir os versos: "Uma bosta". Pra não perder a chance, João partiu para o improviso. Se lembrou da música que ouvira no carro horas antes, "Pode vir quente que eu estou fervendo", e soltou no microfone, na saliência: "Que ela veio quente, hoje eu tô fervendo / Quer desafiar, num tô entendendo / Mexeu com o R7 vai voltar com a x*** ardendo". A reação dos presentes no estúdio foi instantânea. "Todo mundo pulou", se lembra João.

Naquela mesma semana, "Baile de Favela" foi para o canal da GR6 no YouTube e estourou de acessos. Não demorou para o refrão viciante, uma ode a muitas quebradas de São Paulo, como Heliópolis, Vila Marconi, São Rafael, Jardim Hebron e Eliza Maria, viciarem as caixas de som dos bailes naquelas mesmas regiões. Um clipe foi logo encomendado com a grife Kondzilla. Nele, MC João chegava de carrão num legítimo baile, cercado de amigos e dançarinas.

A música ultrapassou a barreira que até hoje separa os bailes "raiz" dos ouvintes casuais do gênero — e chegou em 2016 à frente de sucessos de Anitta, Wesley Safadão e Jorge e Mateus. MC João passou a emendar shows numa mesma noite, indo da periferia às casas noturnas classe A. Muitas vezes, sabia em que área estava pisando apenas quando subia no palco. "É quando eu percebo o jeito que me tratam, a sofisticação da casa", disse, naquela época. "Eles cantam com força [o nome dos bairros], mas nunca ouviram falar, né?"

MC João, autor e intérprete do música que se tornou um fenômeno do funk - Divulgação - Divulgação
MC João, autor e intérprete da música que se tornou um fenômeno do funk
Imagem: Divulgação

Expressão de um povo

Dali pra frente, "Baile de Favela" se tornou um hino onipresente e era óbvio que tocaria em algum momento nas Olimpíadas do Rio. Foi em um dos intervalos da apresentação de ginástica artística que Rhony, até então alheio ao viral, sentiu o baque da batida.

Ex-ginasta e treinador, o coreógrafo da seleção brasileira viu a plateia reagir à música aos pulos e passinhos. Correu para o DJ e sacou o pequeno pen drive que carrega para qualquer lugar, sempre pronto para gravar um arquivo de áudio que pode servir nas séries das atletas brasileiras.

"Quando acaba o ciclo olímpico, você já se prepara para o próximo. Tem que fazer uma nova coreografia, tem que achar uma música", explica Rhony. "Eu já sabia que usaria aquilo de alguma forma, só não sabia com quem. Quando a Rebeca se classificou [para Tóquio], eu vi que era a cara dela, ela traduzia aquela energia e alegria."

Na época, não sabia que a letra fazia referência à relação sexual. Descobriu um ano depois, quando Rebeca apresentou a série no treino de pódio do Mundial. Deixou o tablado dizendo que a trilha "a representava". Alguém então foi tirar satisfação com Rhony: "Como você deixa uma ginasta ser representada por isso?"

Com o hit novamente em alta, as críticas ao conteúdo pornográfico voltaram à baila. "O funk sempre foi marginalizado, mas aquilo representava muito mais coisas", Rhony reflete hoje, após a conquista. "A Rebeca é desse país onde é difícil conseguir as coisas. Ela veio de duas cirurgias e estava na final olímpica, sabe o que é isso? Numa Olimpíada, é a chance que a gente tem de mostrar ao mundo a expressão artística do nosso povo, não importa como ela seja. É a nossa voz. Ninguém pode calar, porque é a nossa chance."

Rhony Ferreira teve a ideia de misturar Bach e 'Baile de Favela' para Rebeca Andrade - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Rhony Ferreira teve a ideia de misturar Bach e 'Baile de Favela' para Rebeca Andrade
Imagem: Reprodução/Instagram

Funk consciente

Com o sucesso de "Baile de Favela", em 2016, os produtores correram para fazer uma "versão light", de olho na programação das rádios e convites para a TV. Nessa época, o funk se tornava alvo até de políticos, por conta dos palavrão e referências a sexo, mas o verso "os menor tão preparado para dançar com ela" nunca emplacou. O que todo mundo queria era a versão "proibidona", embora o chamado "funk putaria" nunca tenha sido a onda de MC João.

No ápice do sucesso, ele cantou por telefone, à reportagem do UOL, um exemplo do que chamava de funk consciente. "Essa mina sabe conversar de vários assuntos / Ela é inteligente / Ao invés de pensar com seu corpo / Ela usa a cabeça e trabalha com a mente". Era a letra de "Mina de Responsa", que começava com João anunciando: "Já lançaram mulher melancia, mulher melão, mulher pera, mulher jabuticaba. Pensei assim, mano, por que não lançar a mina responsa?"

Ele dizia ter vontade de aproveitar a maré boa para regravar essas músicas. "Mina de responsa", hoje, só existe numa versão caseira no YouTube.

"O que deu certo é 'Baile de Favela'. E time que está ganhando, não troca jogador", disse João, à época. "Sabe meta de Ano Novo? Quero fazer academia, quero fazer tal coisa? Eu pedia a Deus, todos os dias, por 1 milhão de visualizações". No fim, ganhou 200 milhões a mais.

Renascendo das cinzas

Quem trabalha com MC João hoje vê "Baile de Favela" como uma fênix. "Todo ano ela renasce", diz o assessor André. "Seja a notícia de um país distante que descobriu a batida ou pedidos de DJs gringos querendo um remix."

Hoje, "Baile de Favela" carrega a marca de 232 milhões de visualizações e também dá nome ao selo musical do seu autor. Em abril deste ano, MC João deixou o casting da GR6, na esteira de outros funkeiros, em busca de maior autonomia autoral e financeira.

Dono do próprio nariz, lançou o disco "Negócios são negócios", que mistura trap com funk e carrega letras mais motivacionais e até amorosas. O álbum começa com um desabafo: "Me abandonaram porque eu perdi minha fama / Acham que a firma caiu / Ela só se tornou independente."

Sem repetir o fenômeno do seu maior hit, João viu os últimos lançamentos não terem uma boa divulgação. Sua equipe se ressente da falta de interesse da imprensa antes do dia da apresentação de Rebeca. "A gente procurou muita gente, ninguém quis falar", revelou um integrante da equipe.

Era este o clima até a fênix ressurgir trazendo novamente o assédio em 2016. Nos últimos dias, MC João gravou um clipe com Neymar e foi para a TV cantar uma versão do hit em homenagem a Rebeca, a pedido do "Fantástico".

Fora a emissora, ninguém mais tem conseguido falar com João. Procurada pelo TAB, a equipe do MC disse que ele está "off" —- e a culpa é do hype. A emissora, de olho na narrativa emocional da conquista da ginasta, colou no artista e pediu exclusividade até a próxima semana, quando Rebeca deve pisar em solo brasileiro para um possível encontro dos dois jovens. A equipe de MC João quer agora segurar com força o raio que caiu pela segunda vez no mesmo lugar.

No Instagram, porém, MC João anda sorridente. Num story publicado na última quarta, ele aparece cantando: "Quantas vezes eu pensei que era o fim / Mas tive força para recomeçar / Nós sabe bem o que é fase ruim / Hoje é fase para comemorar", diz a letra, transcrita na publicação e pontuada com o emoji de uma medalha.