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Na hora de fazer cartaz em SP, homem 'engasga': 'Como escreve intervenção?'

Concentração de manifestantes aguarda chegada do presidente Jair Bolsonaro, em atos no Sete de Setembro na av. Paulista, em São Paulo - Henrique Santiago/UOL
Concentração de manifestantes aguarda chegada do presidente Jair Bolsonaro, em atos no Sete de Setembro na av. Paulista, em São Paulo Imagem: Henrique Santiago/UOL

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB, de São Paulo

08/09/2021 04h01

De um carro de som na avenida Paulista, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) pedia insistentemente a liberação de ambulantes para a venda de água. À sua frente, debaixo de 30ºC, quase 125 mil bolsonaristas se aglomeravam sem máscara, espremidos contra um gradil montado pela PM. Reclamavam de sede e cansaço.

Policiais militares liberavam a entrada de uma longa fila de pessoas de verde e amarelo e funcionários do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) revistavam a multidão e barravam a entrada de garrafas plásticas, na altura do Masp. A expectativa para o discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) era grande às 13h, mas ele só subiu ao carro de som duas horas e meia depois.

"Eu só quero ver o merda do Bolsonaro", riu, com o celular na mão, uma adolescente simpatizante do capitão reformado do Exército.

Ela vestia uma camiseta com a frase "o STF é uma vergonha", dizeres que se repetiam nas bocas e cartazes escritos em português, inglês e até alemão por apoiadores do presidente. No ato de Sete de Setembro, o alvo da vez foi o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, além de antigos desafetos de Bolsonaro, como o governador João Doria (PSDB).

Após os discursos de ministros e amigos do presidente serem interrompidos com o surgimento de mais pessoas indispostas com o calor, Zambelli pediu para os bolsonaristas recepcionarem Jair Bolsonaro com uma versão à capella do Hino Nacional, mas os manifestantes perderam o ritmo da letra nos primeiros versos. "Tá todo mundo cantando errado, cara", observou um dos poucos seguidores que não vestiam verde e amarelo.

Bolsonaro era protagonista enquanto segurava o microfone. Quando falava, sua voz era cortada por gritos de "mito" e pedidos de impeachment de Doria e Moraes. Lula, principal antagonista, foi menos lembrado dessa vez.

Para aquela multidão, a presença de Bolsonaro lembra a idolatria de um fã quando encontra um ícone pop. Ele só deixou de ser o personagem principal quando os seguidores estenderam uma extensa bandeira com as cores da bandeira do Brasil, cobrindo quem estava na frente, o que aumentava a sensação de quentura.

"Segura a ponta, segura a ponta!", dizia um homem, referindo-se à bandeira, esquecendo por alguns segundos do presidente que vociferava contra o STF.

Como é que é?

Na av. Paulista, a manifestação começou a ganhar mais força a partir das 11h. Nesse horário, pessoas ainda preparavam faixas e cartazes.

Na alameda Casa Branca, paralela à avenida, surgiu uma dúvida. Um homem de meia-idade e cabelos grisalhos pintava longas faixas com frases antidemocráticas, mas não sabia como escrever a palavra "intervenção" — em alusão à tomada de poder pelos militares, desejada por parte dos mobilizados (senão todos).

"Tem que colocar o E depois do V", disse um homem que acompanhava a cena, despertando a dúvida do escriturário. O apoiador de Bolsonaro segurava um pincel improvisado com cerdas de vassoura e um galão com tinta cinza.

Faixa estendida durante manifestações no Sete de Setembro, em São Paulo - Henrique Santiago/UOL - Henrique Santiago/UOL
Faixa estendida durante manifestações no Sete de Setembro, em São Paulo
Imagem: Henrique Santiago/UOL

Demonstrava seu apoio mas ainda não sabia onde colocaria as faixas. Cerca de meia hora depois, a reportagem de TAB encontrou a tira de plástico jogada no chão da avenida. O pedido escrito foi pisoteado involuntariamente.

A poucos metros dali, uma apoiadora que se identificou como Miriam disse que veio de Itaúna (MG), cidade de pouco mais de 90 mil habitantes, bancada por empresários locais. Ela carregava um cartaz pendurado no pescoço defendendo que "eleição sem voto impresso é fraude".

A comerciante afirmou que vem semanalmente a São Paulo para fazer compras no Brás, na região central, mas era a primeira vez que visitava a movimentada avenida. "Do jeito que está não vai dar certo, né? Tem que mudar muita coisa", sintetizou.

Vestida de verde e amarelo da cabeça aos pés, Miriam cometeu o que seria um equívoco para os bolsonaristas: as unhas estavam pintadas de vermelho, cor que identifica partidos de esquerda. "Eu peguei esmalte verde, mas não deu tempo de pintar", gargalhou.

Na av. Paulista, em São Paulo cartazes 'bilíngues' em ato do Sete de Setembro apoiam Jair Bolsonaro - Henrique Santiago/UOL - Henrique Santiago/UOL
Na av. Paulista, em São Paulo cartazes 'bilíngues' em ato do Sete de Setembro apoiam Jair Bolsonaro
Imagem: Henrique Santiago/UOL

Um anjo com asas

Figurinhas carimbadas da avenida Paulista deram as caras no Sete de Setembro. É o caso da estátua-viva Becker, que performa como um anjo vestido de túnica e asas brancas. Nesta terça, ele segurava duas bandeiras do Brasil.

"Vamos ver o que ele faz se eu der um dinheiro para ele", disse um homem que depositou uma nota de R$ 2 em uma urna. Ao receber apenas um aceno em agradecimento, perguntou se Becker era brasileiro e deixou o local com um sorriso sem graça.

Segundo o artista, ele estava ali não por apoiar Bolsonaro, mas por ser brasileiro. "Eu represento a liberdade, sou um anjo e tenho asas para voar. Sou uma pessoa livre e estou vendo pessoas serem presas. Amanhã pode ser eu, pode ser você", declarou.

Temida pelo governo de São Paulo, a presença de policiais militares à paisana ou de folga não ocorreu como o esperado. Entretanto, policiais aposentados deram as caras para demonstrar simpatia a Bolsonaro. Um ex-agente andava lentamente com um cartaz cujas palavras reforçavam o apoio de veteranos da PM ao presidente.

Ele contou ao TAB que veio de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, em uma caravana com sete ônibus "cheios de policiais". Questionado se veio por conta própria, o idoso ignorou a pergunta e seguiu em frente.