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Tantra Tinder: dá para juntar os encontros rápidos de app com sexo lento?

Curso mostra técnica de massagem tântrica para solteiros e casais em pousada em Ibiúna (SP) Imagem: Iwi Onodera/UOL

Rodrigo Bertolotto

Do TAB, em Ibiúna (SP)

27/09/2021 04h01

De repente, alguém aperta o pause, e a música new age para. No meio do silêncio de Ibiúna (SP) e suas plantações de alface, agora dá para escutar claramente os gemidos e os suspiros. Acariciavam-se coxas e lombos na sala envidraçada, mas seus donos estavam longe dali, em alguma dimensão encantada de maciez e prazer. É hora de almoçar: todos saem dos colchonetes e vão pra mesa recuperar as energias com um prato de arroz, feijão e legumes. Depois deve-se descansar, porque de tarde vem o treino de massagem genital.

Devidamente vacinados e testados na véspera, os tântricos estão voltando ao que mais gostam: o contato humano. Naquele fim de semana de setembro, um grupo de 30 pessoas, entre casados e solteiros, reuniu-se em um retiro no cenário verdejante e solar, ideal para a celebração da vida após um ano e meio em que a peste e a morte rondavam a todos.

Os casais estão felizes por apimentar a convivência. Já os solteiros enfrentam emoções contraditórias: radiantes com o portal de sensações corporais que se abriu, mas queixosos porque querem encontrar alguém com quem fugir do amor convencional.

"O ideal é conhecer um boy tântrico. Claro que ninguém nasce pronto, mas é complicado você ficar ensinando tudo. Ele também tem que ir atrás e vibrar na sua mesma sintonia. É uma questão de tempo e honestidade comigo mesma para encontrá-lo. Não preciso ficar indo atrás de homem só para gozar: meu vibrador faz isso e não é cuzão comigo", explicita Cacau Mila, 37, que veio de Goiânia para participar do aprendizado na cidade paulista.

Para ela, há uma idealização do sexo tântrico. "Não é performance nem um par de manobras para conquistar alguém. É perceber o seu prazer e o do outro."

Outra solteira na formação, a paulistana Roberta Pavon critica os clichês que cercam esse universo. "Há um preconceito de que não passa de suruba, mas é justamente o contrário. Tem mais a ver com o amor-próprio. Também é aceitar sua vulnerabilidade, e isso, para os homens, é muito difícil. O tantra mudou minha vida por completo, não só o sexo. Hoje olho os outros de uma forma mais amorosa", diz a empresária de 41 anos, no meio de influencers sexuais, terapeutas iniciantes, casais de meia-idade e até uma ex-panicat que encaravam a imersão.

Sexo casual ou formal?

Se na última década a vida amorosa se gamificou e se acelerou, com o Tinder e aplicativos similares, os relacionamentos tântricos surgiram como uma contratendência que se espalha bem devagar (como deve ser) em grupos menores. Há quem sustente que a delicadeza do tantra seja um antídoto para o mundo atual de pegação e contatinhos. Existe, porém, quem queira combinar as duas velocidades, juntando o "speed dating" com o "slow sex".

Agora, como combinar o sexo casual dos aplicativos com a solenidade de meditações, massagens, incensos, músicas e óleos do tantra? A mineira Ana Carolina Campos tem sua fórmula. "Posso até dar uma rapidinha, mas antes eu vou preparar meu corpo, me abrir para o prazer. Esses ensinamentos mudaram minha forma de sentir", diz a moradora de Belo Horizonte que viajou para São Paulo atrás da sabedoria tântrica.

Iniciativas como essas não faltam, mas o fim da pandemia é essencial para que esse tipo de projeto se expanda. Em Salvador (Bahia), o casal de instrutores Satta Flor, 33, e Mahaprabhu, 42, disponibilizaram uma lista no Instagram para que pessoas iniciadas nesse círculo encontrassem seus pares. De abril a agosto de 2020, 400 pessoas se inscreveram. Esse grupo deve ser reativado em novembro próximo.

Baseado em Barreiros (Pernambuco), o casal formado por Bia Neppel, 40, e Cleyton Sales, 39, viaja o Brasil para promover imersões e encontrou entre seus alunos um programador que está desenvolvendo um aplicativo específico para os tântricos. O programa deve ir ao ar em 2022. "Tem que haver uma curadoria de quem participa. Se não, entra muito curioso que não sabe os limites e a filosofia por trás. O tantra é profundo sem ser invasivo", explica Cleyton. Seu público inicial seria os mais de 9.000 seguidores do casal no Telegram, entre eles 1.400 que passaram por vivências e workshops deles.

As aulas do Mundo Tantra, escola de Bia e Cleyton, tem maioria feminina, e delas partiu o pedido para criar uma rede de adeptos. Segundo Bia, os homens ainda são poucos porque muitos conservam a postura de que já sabem tudo. "A gente sempre vê uma movimentação inicial no nosso grupo de Telegram, mas depois eles vão para a conversa privada, e é difícil saber se teve um encontro ou outro", conta Bia.

Com ou sem roupa, eu vou

Antes da pandemia, estava em crescimento nos Estados Unidos e na Inglaterra os "tantric speed dates", com o seguinte slogan: "mais do que encontros, é uma ioga para sua vida amorosa". A iniciativa reunia igual número de homens e mulheres em um salão, revezando os pares e promovendo o contato deles, desde trocar olhares até conversar de mãos dadas ou dançar coladinho.

Assistentes controlavam para que o ambiente permanecesse divertido e seguro — e nada de tirar a roupa. Depois da dinâmica, as pessoas procuravam parceiros com quem tivessem mais afinidade. Essa moda começou em 2017 e chegou a haver reuniões mensais em 22 cidades pelos EUA, atraindo principalmente millennials que não conseguiam que seus romances saíssem da internet para a vida real. Com a pandemia, eles tiveram que voltar para trás das telas.

Massagem tântrica começa com `aterramento´ do corpo para liberar depois as sensações que levam ao orgasmo Imagem: Iwi Onodera/UOL

Já na Bahia, a quarentena proporcionou o tempo necessário para o grupo Tantramor colocasse em prática uma ideia que já rondava havia um ano: o "Tantra Tinder".

Segundo o instrutor Mahaprabhu, eles pensaram em um modelo prático que respeitasse a ética interna e oferecesse privacidade. No perfil deles no Instagram, abriram inscrições. Os aprovados eram direcionados para a lista "Melhores Amigos" e lá interagiam. Uma das instruções deixava bem claro para não ser inconveniente: "Você mandou mensagem, e a pessoa não te respondeu? Não ter resposta já é uma resposta. Não insista!"

Pessoas em relações monogâmicas e sem "currículo tântrico" não eram selecionadas. Em 24 horas, já tinha mais 200 dispostos a encontrar um parceiro para enfrentar gostosamente o isolamento da pandemia.

Todo corpo é sagrado

O tantrismo surgiu por volta de 1.500 anos atrás na Índia e se misturou ao longo do tempo com o hinduísmo e o budismo. Após a colonização europeia da Ásia, um aspecto dele chamou a atenção dos ocidentais. Ao contrário de crenças como o cristianismo, que separam o físico do espiritual, o tantra vê o corpo como um caminho para o sagrado, e o êxtase dos sentidos como um arrebatamento místico.

Da mesma maneira que outras tradições indianas, como a ioga e a meditação, essa massagem, uma prática que é apenas uma parte diminuta da crença, se espalhou pelo mundo, diluindo sua origem religiosa e servindo como mais uma ferramenta para as pessoas escaparem da vida automatizada e veloz das grandes cidades.

O período pandêmico, como uma contrapartida a tantos males que causou, ajudou a popularizar mais esses ensinamentos, afinal, surgiram muitos cursos online. E eles são bem mais baratos que seus similares presenciais — por volta de R$ 100, enquanto as imersões não saem por menos de R$ 1.500, incluindo hotel, refeições e um fim de semana de amor próprio e carinhos alheios.

Ibiúna, no chamado `cinturão verde´ de São Paulo, foi local de imersão tântrica na retomada das atividades desde a pandemia Imagem: Iwi Onodera/UOL

Liderado por Bia e Cleyton, o encontro na pousada Villarejo começou na sexta-feira, com uma cerimônia em volta de uma fogueira. Cada um escreveu em um papel o sentimento que queria deixar para trás e jogou nas chamas.

Depois veio um sábado com meditações, lições sobre consentimento e respeito e, é claro, massagens. O ritual iniciou com os pares sentados em posição de lótus se olhando, tocando as mãos, trocando carícias para logo um deles se despir e ser massageado. Depois, havia a recíproca.

O casal de mentores ensinou os cinco pilares do prazer (desejo, presença, respiração, som e movimento). "Acabou a era dos gurus. Agora, a resposta que você precisa vem de dentro", discursou Cleyton. Além disso, os instrutores demonstraram os quatro tipos de toques corporais (terra, água, água e fogo), incluindo as sutis manobras genitais. À noite, os alunos puderam praticar as lições. O delírio interior emergia à superfície da pele em espasmos, tremeliques, arrepios, arfadas e gritos.

No domingo, na despedida, os guias promoveram um "autocasamento". O aluno, de branco, caminhava sozinho entre arranjos de flores até diante de um altar e fazia um juramento de fidelidade eterna a si mesmo, cada um fazendo seu texto. "Prometo ser para mim todo o amor que até hoje eu busquei no mundo. Assim seja, assim é", jurou Cacau.

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