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Física e farofa: como uma brasileira cultiva mandioca no interior do Japão

Gabriela Bailas no cultivo de mandioca no Japão Imagem: Arquivo pessoal

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

05/10/2021 04h00

Às vezes basta uma palavra para azedar um date - política, futebol, fé, escolha à la carte. Num dos primeiros encontros entre Bibi e Hiro, o caldo quase entornou quando ela julgou de bom tom contar a ele a história de uma jovem que matou e esquartejou o marido no Brasil.

Era fevereiro de 2020, início de namoro, inverno no hemisfério norte, pré-pandemia, e Bibi convidara Hiro à sua casa para jantar, em Tsukuba, na província de Ibaraki, 60 km a norte de Tóquio. Ela fez estrogonofe, o picadinho russo que se tornou um clássico brasileiro acompanhado de arroz e batata palha. À mesa, também levou uma farofa de mandioca da marca Yoki, a deixa que a fez desengavetar o caso Elize Matsunaga.

Hiro Takagi, 27, arregalou os olhos e franziu as sobrancelhas. "Que bizarro", pensou o jovem japonês, ao ouvir pela primeira vez a história do crime de 2012 que ficou famoso no Brasil, mas não no Japão. Entretanto, o que era para ser um balde d'água fria no date virou um marco no romance entre Hiro e Bibi graças à farofa, a farinha de aipim que ele experimentou, intrigado.

"Foi delicioso", diverte-se. Com o tempo, o estrogonofe se tornou uma das comfort food favoritas do casal, e a farofa, um pitéu a perseguir. "Não há nada parecido no Japão", diz.

Não demorou muito para Hiro se apaixonar. "Bibi é demais, é além das expectativas", define ele, que trabalha como consultor científico para agricultores, gosta de viajar, viveu na Europa e já versava o espanhol e o inglês -- depois, decidiu aprender português; ela, japonês. Fisgado pela personalidade dela, foi ao Google para procurar mais informações sobre Bibi e, num dos encontros seguintes, foi direto ao ponto: "Você é famosa?"

Gabriela Bailas e Hiro Takagi 2020 Imagem: Arquivo pessoal

Física, farofa e afins

Bibi é a física Gabriela Bailas, 30, gaúcha de Bagé, bacharel pela Furg (Universidade Federal do Rio Grande), com uma temporada de estudos na Universidade de Coimbra, em Portugal, e um mestrado na Ufpel (Universidade Federal de Pelotas). Fez doutorado em física teórica na Université Blaise Pascal, na França, e emendou um pós-doutorado no KEK - High Energy Accelerator Research Organization, o maior laboratório de física de partículas do Japão.

Desde 2016, ela também é youtuber, influenciadora digital e autora do projeto Física e Afins, dedicado à divulgação científica e ao combate a pseudociências na internet -- no YouTube, tem 220 mil seguidores; no Twitter, quase 30 mil; e no Instagram, mais de 25 mil. Hoje, trabalha na Universidade de Tsukuba.

Hiro e Bibi se conheceram graças a um amigo em comum do KEK nos primeiros dias de fevereiro de 2020. Começaram a conversar pelo Line (app de mensagem instantânea tão popular quanto o WhatsApp no Brasil), encontraram-se umas vezes e engataram o namoro: em março, ela conheceu a família dele; em abril, decidiram morar juntos; em outubro, ele a pediu em casamento. "Quem diria que eu teria que vir tão longe para encontrar meu amor", certa vez ela escreveu.

Com um anel brilhante no anelar da mão direita, Bibi foi fazer um tratamento de saúde no Brasil entre março e maio. Na volta ao Japão, trouxe na bagagem o vestido de noiva que sua finada avó usara na década de 1960 e um terno cinza e uma gravata rosa bebê para Hiro vestir na data especial, 15 de junho de 2021.

Gabriela Bailas e Hiro Takagi 2021 Imagem: Arquivo pessoal

Eles decidiram celebrar a união na casa da família dele, no interior de Ibakari, o que foi registrado em duas versões: uma com o vestido branco e o terno; outra com trajes típicos japoneses, a yukata, um tipo de quimono de verão. Viajaram a Tóquio em busca de uma loja especializada na vestimenta no badalado distrito de Harajuku - com 1,77, dois centímetros mais alta do que o noivo, Bibi não estava conseguindo encontrar um modelito adequado à sua altura.

A avó de Hiro, uma senhora japonesa de 88 anos, se surpreendeu com o vestido branco que Bibi herdou - achou moderno o fato de alguém (aka a avó gaúcha) se casar assim, a física relatou no Instagram: "A bachan acha que o mundo inteiro usa quimono", escreveu, entre emojis de coração. Conquistar o coração dos avós, aliás, foi importante para ela, estrangeira, a novata que se sentiu acolhida na família. "Quando ela soube que noivamos, disse tantas coisas lindas e até chorou. Hiro se debulhou em lágrimas. Ela sempre diz que sou linda como uma boneca, gentil, que amo o Hiro e por isso ela me ama também."

Hiro e Bibi se casaram no civil na prefeitura de Tsukuba e depois precisaram registrar o documento no Consulado-Geral do Brasil, em Tóquio. Ali, depois dos trâmites burocráticos, um funcionário lhe perguntou: "E a farofa, hein?"

Gabriela Bailas e Hiro Takagi na casa da família no Japão Imagem: Arquivo pessoal

Saudar a macaxeira

Hiro tomou gosto por farofa e, por influência de Bibi, decidiu plantar mandioca na fazenda da família Takagi, em Omitama, uma cidadezinha interiorana de cerca de 50 mil habitantes onde há seis décadas os avós dele, pequenos agricultores, cultivam alface, berinjela, tomate cereja, repolho, amendoim e papaia, entre outros.

"Bibi teve a ideia e passei a pesquisar sobre o assunto. Descobri que não é possível importar mandioca fresca", relata ele. "A que encontramos nos mercados de produtos brasileiros é congelada e às vezes não vem do Brasil, mas da Tailândia", acrescenta ela.

Hiro encontrou uns três japoneses que já cultivaram mandioca no Japão, em ilhas distantes dali, como Kagoshima. "A única alternativa, então, era cultivar", lembra.
Depois de conseguir mudas a partir de talos, fizeram brotar o Projeto Farofa, iniciativa retratada no Instagram e que viralizou após um post de Bibi no Twitter.

Em maio, a família japonesa cavou três linhas de terra para plantar as macaxeiras. O casal vive em Tsukuba e, nos fins de semana, dirige 30 minutos de carro para visitar a fazenda da família, uma área de 2 mil metros quadrados onde o aipim pegou e está crescendo bastante, com a ajuda dos avós e do irmão de Hiro, Yocchan. Recentemente, eles colheram as primeiras raízes para conferir se está tudo no caminho certo - a avó de Hiro ficou impressionada, disse que lembra gobô, uma raiz muito comum no arquipélago e conhecida noutros países como bardana. A colheita rendeu os primeiros petiscos de mandioca frita já degustada pelos Takagi.

Gabriela Bailas, Hiro Takagi e família no Japão Imagem: Arquivo pessoal

Tímido, Hiro agora também tem postado vídeos e está interagindo com os seguidores -- alguns, inclusive, de unidades consulares dos dois lados do mundo. Além do funcionário que lhe reconheceu no Consulado-Geral do Brasil em Tóquio, outro postou sobre a iniciativa na página do Consulado-Geral do Japão no Rio de Janeiro. "Estou ficando famoso", brincou no Instagram.

Em novembro, eles pretendem colher a primeira safra. Deste lado do mundo, o inverno está chegando e o frio pode prejudicar a raiz cultivada por indígenas sul-americanos há 9 séculos e que foi saudado o alimento do século 21 pelas Nações Unidas.

Hiro e Bibi não pretendem fincar raízes para sempre no Japão, porém: querem visitar e viver em outros lugares. Estão esperando a pandemia dar uma trégua para poderem viajar. "O primeiro passo é ir ao Brasil, depois passar por toda a América do Sul", diz ele. "Talvez 2023", aposta ela.

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