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'Doo madeira para cozinhar', diz homem em situação de rua, perto da Ceagesp

Daniel Pereira cozinha com madeira e até doa pallets na vizinhança do Ceasa - Henrique Santiago/UOL
Daniel Pereira cozinha com madeira e até doa pallets na vizinhança do Ceasa Imagem: Henrique Santiago/UOL

Henrique Santiago

Colaboração para o TAB, em São Paulo

16/10/2021 04h00

"É o que eu tenho pra hoje", diz Daniel Pereira, 64, após derrubar no chão um filé de peixe empanado e pegá-lo com as mãos. Ele joga um pedaço de madeira no fogo para preparar seu almoço e desvia da labareda que sobe do fogão improvisado com lata de tinta, grade e pedras encontradas na rua.

Pereira ergueu um barraco com sobras de madeira em uma calçada próxima ao portão de entrada de pescados da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), maior entreposto de alimentos da América Latina, localizado na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo.

Se da porta para dentro há riqueza de sobra em frutas, verduras e legumes, do lado de fora há súplicas por qualquer naco de comida. Pereira afirma que nunca pôde comprar gás de cozinha para cozinhar, e não vai ser agora, com o preço acima de R$ 100, que conseguirá. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo), o botijão já pode ser encontrado por R$ 135 em alguns lugares do país.

Para ele, cozinhar com a madeira descartada pelos comerciantes da Ceagesp não é novidade. Mas Pereira tem se surpreendido com a quantidade de pessoas nos arredores que passaram a utilizar a mesma técnica porque não têm dinheiro para adquirir um botijão.

"Não sou só eu que tô assim, não, viu? Agora mesmo doei oito pallets para uma mulher que mora na frente do portão 3 [entrada da Ceagesp] fazer comida."

Cheiro de fumaça

O cheiro de peixe frito se confunde com o forte odor de madeira queimada. Chega a encher os pulmões de quem passa por ali. "Não tem problema, não. Eu não inalo a fumaça", conta, com o nariz colado ao fogão. Ele vira os filés com um garfo e uma colher de madeira, até sentir que todos estão no ponto certo — e caminha a passos lentos até uma tigela rodeada de moscas intrusas para preparar mais uma fritada.

"Um bagulho desse aqui tá quase R$ 10", reclama, apontando para a embalagem plástica de óleo de soja ainda cheia.

Pereira aproveita o horário da tarde para cozinhar. Pela manhã, há muitos carros e caminhões nas vias e sente medo de provocar um incêndio. "É para não ter reclamação de vizinho", ironiza.

Pisa com o pé firme para quebrar mais um pedaço de madeira, evitando os pregos pontiagudos nas extremidades, e coloca a lenha com as mãos incrustadas de farinha de trigo no fogareiro quase sem chamas. O peixe frito será guarnecido de arroz guardado em um pote de achocolatado que deve durar até semana que vem.

Pão com mortadela

O ambulante Daniel Gonçalves dos Santos, 66, não sabe o que é cozinhar há pelo menos dois meses. Ele lembra ter desembolsado R$ 65 no último botijão de gás que comprou, ainda no primeiro semestre de 2021.

De segunda a sexta, ele trabalha na saída da Estação Ceasa da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Para driblar a fome, Santos gasta R$ 1 para almoçar no Bom Prato, que oferece refeições completas a preços módicos. À noite, ao chegar ao quarto de pensão alugado, só lhe resta comer lanche. "Compro um pãozinho, mortadela e vou me alimentando, né?"

Daniel - Henrique Santiago/UOL - Henrique Santiago/UOL
Daniel Gonçalves dos Santos: de noite, pão com mortadela para aliviar a fome
Imagem: Henrique Santiago/UOL

Às vezes, quando o estômago já está saturado de pão com mortadela, arrisca-se a pedir para a vizinha fritar um ovo. "Também não posso pedir direto porque não vão gostar. É muito humilhante, muito humilhante" — ele reforça a sensação falando lentamente e separando as sílabas: hu-mi-lhan-te.

O olhar de Santos carrega o desânimo de quem tem se esforçado muito e recebido pouco. Em duas caixas de isopor surradas ele expõe pentes, carteiras, cortadores de unha e lixas para o pé. O ambulante havia vendido apenas um pente de R$ 2 naquela tarde — "tá caro, hein?!", disse o cliente, que escolheu o item da cor azul.

Ele leva seu trabalho muito a sério. Penteia o cabelo para trás, veste camisa cinza, calça preta, sapatos sociais pretos bem lustrados e uma chamativa gravata vermelha. Santos não faz o tipo do vendedor que anuncia seus produtos em voz alta.

Posicionado na entrada da estação, observa o movimento tímido de pessoas que descem dos vagões e entram para tomar o trem. Tira por mês metade de um salário mínimo, e quase tudo vai para bancar os R$ 400 mensais do quarto. "Tem dia que eu ganho R$ 10, R$ 15, R$ 20 e vou guardando o dinheiro para pagar o aluguel em dia, senão vou ser despejado."

Levemente esperançoso, o ambulante acredita que vai conseguir comprar o gás de cozinha em dezembro, "porque as pessoas gastam mais". Enquanto esse dia não chega, sonha com o dia em que poderá cozinhar arroz, feijão e vaca atolada.

'O presidente não tem culpa'

Quem também não tem visto a cor da carne no prato é a ambulante Anueles Carvalho Santos, 64. Ela afirma trabalhar na região que circunda a Ceagesp há 47 anos. "Eu até infartei nesse lugar, meu filho."

Está preocupada com a pouca entrada de dinheiro em casa porque seu gás de cozinha está quase no fim. Desde que o botijão se aproximou dos R$ 100, Anueles já ficou uns bons dias sem cozinhar.

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Anueles Carvalho Santos está com o gás acabando, mas não acredita que presidente tenha responsabilidade nisso
Imagem: Henrique Santiago/UOL

"O meu gás demora mais ou menos 30 dias para acabar porque eu saio pra trabalhar e quase não cozinho. Já pensou em uma mãe que tem seis, sete, oito filhos? Vão morrer de fome", diz, citando a história de uma mulher que morreu após usar álcool para cozinhar em Osasco, na Grande São Paulo.

Conhecida na região como "Baiana do Ceasa", Anueles relata que seu gás dura bastante porque coloca poucas panelas no fogo e evita ligar o forno. Mas quando o botijão está em falta, come frutas por dias seguidos, enquanto trabalhava para poder comprar o gás.

A vendedora praticamente se esconde atrás de caixas de isopor que servem de apoio para potes com balas, chicletes, doces de abóbora, batata-doce e salgadinhos. Ela também vende cigarros soltos para aqueles que não têm coragem de pagar R$ 10 em um maço. Uma das caixas estampa um adesivo com a bandeira do Brasil, símbolo de seu patriotismo e defesa ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Em determinado momento, ela até ensaia uma fala que parece insultar Bolsonaro, mas depois rasga elogios ao capitão — a quem confia seu voto nas eleições de 2022. "O presidente quer dar o vale-gás para nós. Mas cadê? Tem alguém empatando ele", assevera Anueles.

Para ela, a culpa pelo aumento do gás não é de Bolsonaro, mas de "quem mandou a gente ficar em casa", em alusão ao antigo simpatizante e agora desafeto do presidente, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Anueles é tão adepta do bolsonarismo que pediu para colegas arrancarem cartazes com críticas ao presidente de uma parede próxima ao local onde trabalha — ainda há resquícios de papel colado por ali.

Ela nunca se deu ao luxo de fazer quarentena, e agora passa 10 horas de seu dia fora de casa com a finalidade de repor o botijão. "Vou gritar pelo presidente para ver se ele traz o gás na minha casa. Senão, vou ter que comer fruta do Ceasa de novo."