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Depois de viver 'dor da humilhação', psicóloga cria 'Escola de Solteiras'

Aula da Escola de Solteiras: autoestima na pauta para o futuro das moças - Reprodução
Aula da Escola de Solteiras: autoestima na pauta para o futuro das moças Imagem: Reprodução

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB, de São Paulo

22/10/2021 04h00

Hoje é dia de mentoria na Escola de Solteiras. Às 20h, pontualmente, quase todas as alunas estão conectadas e aguardam a vez de falar.

"Será que estou aceitando menos do que mereço? Eu achava que estava bem e não tinha parado para pensar nisso", uma delas diz. "Ontem eu o bloqueei e excluí. Estava me fazendo mal e pela primeira vez consegui me colocar em primeiro lugar", vibra outra, sob os aplausos das demais. "Eu dava mais do que recebia. Achava que um pouquinho só de amor estava ótimo. Aprendi a cuidar de mim. Antes só do que mal acompanhada."

Vez ou outra a professora Renata Miranda, 41, intervinha. "Quando vocês fazem o checklist têm que avaliar o quê? Os pontos que são negociáveis e os inegociáveis. Isso muda todo o jogo", garante, referindo-se às características do companheiro que podem ser uma pedra no sapato na convivência. Com os olhos fixos na tela do notebook, a psicóloga e coach faz perguntas, comentários e canta trechos de músicas — Roberta Miranda e os versos "Vá com Deus / o amor ainda está aqui / Vá com Deus" — que puxam fios das histórias das mulheres, que vão tecendo traições, falta de amor, violência física e psicológica.

As seis mulheres estão tão envolvidas que não veem a hora passar. Quando se dão conta, o relógio se aproxima das 21h, mas ainda há tempo de Renata ler a mensagem de uma aluna que não está presente. Nela, Paloma Rocha, 25, informa que acabou de ser pedida em namoro e envia uma foto com o anel de compromisso no dedo, causando alvoroço na sala de aula virtual. A professora é uma das que mais comemoram. Feliz com o progresso das pupilas, ela encerra a mentoria.

Na noite chuvosa de uma quinta-feira, Renata está em casa, num condomínio de luxo em Arujá (SP). Exibe um visual impecável, mas o que chama a atenção é a fênix enorme tatuada em suas costas que a regata não cobre por completo. A mentora de relacionamentos não carrega o desenho da ave mitológica por acaso. Assim como suas alunas, ela já passou por poucas e boas nas mãos dos homens. Começando pelo ex-marido.

Gaúcha de Canoas, Renata mudou-se para São Paulo aos 19 anos para trabalhar como comissária de bordo. Dois anos e meio depois, conseguiu emprego num banco — algo provisório, pois seu sonho era ser atriz. Conheceu o marido no dia da primeira aula no Teatro Escola Macunaíma. Ouviu dele que teria que se submeter a coisas desagradáveis como "teste do sofá", e que não precisava disso. "Você é o amor da minha vida", o homem concluiu.

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Renata Miranda, da Escola de Solteiras: ela passou por relacionamentos ruins e se reergueu
Imagem: Sibele Oliveira/UOL

Renata não se importou com a diferença de idade. Tinha 23 anos e o pretendente, empresário e cliente no banco, 50. Passados 15 dias, foram morar juntos. "Não entendia nada sobre o amor. Buscava num relacionamento a figura de proteção de um pai. Meu pai trabalhava em navio e conviveu pouco com a gente", lembra. Quando se viu num casamento conturbado, fez faculdade de psicologia para consertá-lo. E aproveitou a pós-graduação em psicodrama para realizar o sonho de atuar.

Em 2015, descobriu que vinha sendo traída há sete anos. Era noite de Natal. Terminou o casamento de 13 anos e virou amiga do ex-marido. Um dia, reencontrou um amor do passado e foi arrebatada por uma paixão fulminante. Renata foi do céu ao inferno ao descobrir que ele era usuário de cocaína. "Deu! Chega!", disse numa discussão. Tentou ir até o carro, mas foi arrastada para o seu quarto. Depois de lhe dar um tapa no rosto, o namorado a trancou na sacada, de onde precisou pular. Ele era psicopata.

Renascendo para o amor

Depois de dois anos e algumas recaídas, Renata terminou o namoro. Teve uma depressão tão forte que nem o apoio do casal de filhos a animava. Só saiu da prostração depois de muita terapia. "Fui olhando a minha história, revendo as questões da minha menina interior e tudo foi se encaixando como em um quebra-cabeças", conta. Daí a ideia de tatuar a fênix nas costas. Fechou o consultório para ajudar outras mulheres a montar os próprios quebra-cabeças e sair de relacionamentos malfadados.

O primeiro curso que ofereceu foi o "Case com Você", voltado ao desenvolvimento de amor próprio. Em seguida criou o "Mulher F.O.D.A" (Forte, Ousada, Decidida e Apaixonada pela própria vida). "Se você está sequelada, quem é que vai se conectar contigo, meu amor? Alguém mais sequelado que tu? Te cura primeiro para se conectar com a pessoa certa", anunciava. A hashtag F.O.D.A viralizou. Abriu o curso Escola de Solteiras em abril de 2021 — oito mentorias e aulas gravadas por quase R$ 600. Além das aulas virtuais, Renata planeja organizar workshops depois da pandemia.

No curso, ela ensina a "Jornada do amor", dividida em módulos sobre autoconhecimento, como entender a cabeça dos homens e conquista, além das mentorias. As alunas têm de 25 anos para cima, pertencem a diferentes classes sociais e algumas moram até fora do país. Com as envergonhadas, Renata quebra o gelo. "Falo que ganhei medalha olímpica de 'Trouxiane'. Sei a dor que é se humilhar, mandar textão. O que é buscar no outro aquilo que está dentro da gente."

Uma das alunas é Christine Bocchini, 55. Teve um único casamento que durou sete anos e acabou há 11. "De lá pra cá venho tentando me conhecer melhor, tendo outros relacionamentos, mas todos com migalhas de amor. Até o dia em que me dei conta de não estava bom. Foi quando entendi que caí num golpe", conta. A massoterapeuta e professora de ioga está na escola para aprender a gostar de si. "Eu falava que me amava, mas amava nada. Foi quando eu abri, mexi nas feridas. Dói muito, não é pouco não, perceber que errei, como fui trouxa. Mas não sou mais."

Daniela Freitas, 42, também veio para o curso tratar as feridas de um relacionamento que não acabou bem. "É como quando a gente cai de bicicleta. Precisa lavar com sabão para cicatrizar direito. Sou da época em que se passava Merthiolate nos ferimentos e aquilo doía tanto que parecia que ia tirar a alma do corpo. Mas a gente sabia quão necessário era aquilo para que pudesse haver uma cicatrização correta. A busca que fazemos e esse encontro que temos nada mais são do que o Merthiolate da nossa alma, para cicatrizar as feridas que a gente nem sabe que tem", reflete a advogada. Ela ainda não se sente preparada para voltar a namorar.

Sem príncipe encantado

A Escola de Solteiras é diferente, segundo Renata. "Não é ensinar dez técnicas disso e daquilo. Isso é raso. 'Arrase e deixe o homem aos seus pés'? O homem não tem que estar aos seus pés. Tem que estar ao seu lado. Um relacionamento de alto valor é ter um parceiro compatível contigo. Não é pisar e mandar. O feminino e o masculino têm que ser aliados. Não é disputa de poder." Mais de 100 alunas já passaram pelos cursos. Renata diz ser seguida por "27 mil mulheres" no Instagram — há homens também, claro.

Para Renata, autoconhecimento e relacionamentos deveriam ser matéria obrigatória nas escolas, pois o que se aprende em casa nem sempre prepara as mulheres para o amor. "Comparo o nosso cérebro a um celular. Quando a gente compra, instala os aplicativos. Quem instalou os primeiros aplicativos na nossa família? Pai e mãe. Isso gera crenças e valores sobre a vida", diz. É aí que entra a busca pelo príncipe encantado. "Muitas esperam o cara que vai chegar e jogar a corda para elas descerem da torre. Sempre falo: acorda, minha linda. Desce você. Não coloca a sua vida na mão de alguém."

Nas aulas, frisa que os homens pensam diferente, e que o fato de precisarem validar a masculinidade o tempo todo — sem poder brochar, falir ou chorar — atrapalha os relacionamentos. Que elas precisam lidar com isso. Quando o relacionamento não dá certo, ter coragem de ir embora. "Tem mulher que tenta, faz promessa, vai à cartomante, perdoa mais uma traição. Com medo do novo, do recomeço, fica numa zona de conforto que é desconfortável. Se acostuma a dormir num colchão de espinhos."

Colocando em prática os próprios ensinamentos, há um ano e meio Renata conheceu o atual namorado. "Descobri o amor com ele. Aos 40 anos, amei pela primeira vez."