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Prejuízo de R$ 60 mil: como é o golpe de bitcoin em apps de relacionamento

Usuário do app Grindr que por pouco não caiu num golpe: "Procurei no Google" - Fernando Moraes/UOL
Usuário do app Grindr que por pouco não caiu num golpe: 'Procurei no Google'
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Breno Damascena

Colaboração para o TAB, em São Paulo

24/10/2021 04h00

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Todas as histórias de amor precisam começar de algum lugar. Foi nisso que pensou Daniel* quando conheceu no Grindr, um aplicativo de relacionamento direcionado ao público gay, um homem de Hong Kong chamado Li Lin. Recém-chegado ao Brasil, Lin não falava português, morava com um tio em um bairro de classe média de São Paulo e trabalhava em um grande banco de investimentos.

Daniel gostou de Lin logo de cara, mas admite que se assustou quando aquele homem tão bonito e sorridente respondeu de pronto sua mensagem. Começaram a conversar em inglês e, aos poucos, uma paixão avassaladora parecia se desenhar. Do Grindr partiram para o WhatsApp, onde se falavam todos os dias.

Parecia haver algo estranho com o jovem estrangeiro. Lin nunca aceitava fazer chamadas de vídeo com Daniel e repetia várias vezes como era fácil ganhar dinheiro com investimentos — e insistia em ajudar o novo crush com isso.

Sete dias depois do primeiro contato, Daniel começou a ceder. Ele conta que não entrou no aplicativo atrás de um relacionamento sério. Pelo contrário: a maioria das conversas que tinha por lá terminava em poucos dias — muitas vezes, bastava uma noite para combinarem um lugar e se encontrarem. Dessa vez, porém, até topou conversar sobre finanças, um assunto completamente desconhecido para ele.

Esquivando-se de um encontro presencial, Li dizia que o tio era homofóbico e não sabia que ele era gay, que a cultura dele era muito dura com pessoas homossexuais e outros argumentos do tipo. "Ele se irritou bastante quando insisti em nos encontrar", relembra.

A paixão de Daniel começou a arrefecer com a desconfiança. Bastou, então, uma busca rápida no Google para encontrar uma reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian, em julho de 2021, descrevendo um golpe financeiro que parecia se desenrolar exatamente como o que estava vivendo. O entrevistado da reportagem precisou abrir uma conta na Binance, uma plataforma de negociação de criptomoedas, e fazer um investimento.

"Li me pediu para investir US$ 200. Eu até ri quando ele falou esse valor", diz Daniel. "Mesmo quando o valor baixou para US$ 100, continuava muito para mim. Você sabe quanto está o dólar?".

Ele precisaria, então, transferir o dinheiro para outro aplicativo, o MetaTrader 5 (MT5). Outras vítimas mencionaram outras plataformas, como BCH8 e o FOREX. Ali, Lin supostamente o ajudaria a realizar os melhores investimentos. E é aí que o golpe aconteceria. No caso relatado pelo The Guardian, a vítima perdeu 20 mil libras esterlinas, fora os traumas ao perceber que todas as interações eram apenas manipulação.

Daniel percebeu o golpe antes de cair nele. "Tivemos uma conexão tão intensa que até fiquei mal quando comecei a perceber o que estava acontecendo comigo. Quase me endividei. Ainda bem que pesquisei antes de ir fundo nisso."

Daniel parou de conversar com Lin — mas não sabia que poderia assistir a vídeos dele a qualquer momento em outras plataformas. É que as fotos utilizadas no aplicativo eram prints recortados de vídeos de um influenciador fitness chinês. O dono daquele rosto sorridente tem mais de 1 milhão de seguidores no TikTok e um canal no YouTube.

O relato de Daniel não é inédito no universo dos encontros por aplicativos. No Brasil ainda não há estatísticas sobre esse tipo de ocorrência, mas o cenário norte-americano dá pistas sobre o que pode estar acontecendo por aqui. Em 2020, o número de fraudes em aplicativos e sites de relacionamento subiu 50% nos Estados Unidos, em relação ao ano anterior. De acordo com o FTC (Federal Trade Commission), US$ 304 milhões foram perdidos por causa de golpes desse tipo. Criou-se até uma categoria específica: "golpes românticos". A Interpol enviou um alerta a 194 países, no início de 2021, avisando sobre o crescimento desse tipo de fraude.

Não era amor, era cilada

Lígia*, uma jovem franco-húngara de 31 anos que mora na França, descobriu que o homem pelo qual tinha se apaixonado depois de um match no Tinder era um golpista.

Em dezembro de 2020 ela conheceu Jon, um profissional de exportação bonito e divertido. "Na primeira semana, conversamos sobre mim, sobre família, trabalho e tudo mais. Ele fez eu me sentir confiante, bem comigo mesma", relembra.

Foi apenas na segunda semana, depois de ter conquistado a confiança de Lígia, que Jon começou a falar sobre criptomoedas e sobre como poderia ajudá-la a ganhar dinheiro com esse tipo de investimento. "Eu respondia: 'Ok, vamos falar sobre isso depois'. E continuava conversando sobre nossas vidas", pontua. "Quando ele me disse para instalar o Binance e ingressar neste mundo, eu aceitei", lamenta.

Ela conta que, em fevereiro, já tinha investido 8,7 mil euros em critptomoedas em uma plataforma indicada por Jon. Foram dois meses de movimentações financeiras na plataforma. Até que, de um dia para outro, o dinheiro sumiu. "Só percebi que era um golpe quando, depois disso, o cara ficou offline por mais de uma semana. Antes, ele me enviava mensagem todos os dias, às 21h", relata. Assustada, a francesa procurou pela foto do homem no Google e encontrou o verdadeiro dono das imagens: um influenciador digital alemão.

"Senti-me doente por quase 10 dias, muito perdida. Você se sente vulnerável e com medo de dizer o que sofreu para outras pessoas, por ser vista como uma idiota", afirma Lígia. Ela foi à polícia e prestou queixa, mas diz que as autoridades locais não conseguiram fazer nada. Desamparada, começou a procurar outras pessoas que tivessem passado por algo parecido. E encontrou.

Vítimas unidas no WhatsApp

Um grupo de WhatsApp com mais de 50 participantes debate ações plausíveis para diminuir os impactos financeiros e mentais causados pelo golpe da criptomoeda. "Encontrei pessoas que perderam muito mais do que eu — herança, dinheiro da família...", comenta.

Lígia diz que a função primordial do grupo é que as pessoas ofereçam apoio mental umas às outras, além de incentivá-las a buscar ajuda psicológica profissional. Além disso, estão procurando autoridades policiais e financeiras de cada país, incluindo o FBI e Interpol, com o objetivo de encontrar uma alternativa para o problema. Até agora, no entanto, não houve nenhum retorno significativo.

Juntos, os membros do grupo perderam mais de 1 milhão de euros, de acordo com Lígia. Mas eles acreditam que pode haver mais vítimas. Até agora, não há nenhum brasileiro entre eles. O coletivo está buscando indivíduos que também tenham caído nesse golpe, com a crença de que as autoridades estarão mais atentas com um número maior de vítimas.

O que dizem os aplicativos

Procurada por TAB, o Tinder afirmou que entristece a empresa saber que alguém foi vítima de um golpe enquanto estava atrás de uma conexão real. Eles dizem que têm uma política de tolerância zero para comportamentos predatórios de qualquer tipo e uma equipe de tecnologia dedicada a verificar sinais de fraude e detectar e remover perfis suspeitos. Além disso, afirmam que trabalham ao lado das autoridades locais.

"Embora a maioria das pessoas tenha boas intenções, as mesmas regras e riscos [do mundo físico] se aplicam digitalmente", afirmou a empresa, por e-mail. Eles frisaram a parceria com ONGs brasileiras como ABGLT, Fonatrans, Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo e Mapa do Acolhimento, que visam facilitar denúncias e seguranças de usuários. E aconselham a não enviar dinheiro a quem o usuário nunca encontrou pessoalmente e relatarem na ferramenta quando alguém pedir informações financeiras.

O Binance, em resposta, afirma que o caso não está diretamente relacionado ao mercado de criptomoedas. A assessoria da empresa afirmou que tem como um de seus pilares a educação e indicou os conteúdos sobre segurança do Binance Academy, braço educacional da corretora. "Também atuamos em nosso blog, redes sociais e canal no YouTube com conteúdos para orientação e educação, de forma que o usuário possa se informar e se prevenir desse tipo de golpe."

O Grindr não respondeu à solicitação da reportagem, até o momento da publicação do texto.

*Os nomes são fictícios a pedido dos entrevistados