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Cratera em Petrópolis expulsa moradores: 'Pago pelo pecado que não cometi'

Haroldo e sua Caravan - Fabiana Batista/UOL
Haroldo e sua Caravan Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, de Petrópolis

14/11/2021 04h00Atualizada em 16/11/2021 11h22

Eram 9h de 7 de novembro de 2017, uma terça-feira, quando Elaine Pereira, 35, foi saber o que eram os gritos vindos da rua. Ao sair de casa, uma cratera se abrira próximo ao local em que a irmã morava e os gritos eram uma tentativa de acordar a sobrinha, que dormia enquanto tudo ao redor era engolido pelo buraco.

A menina acordou a tempo de pegar apenas o celular e o cachorro. Tentou descer a escada, mas ela havia desabado. A única opção foi ser resgatada no fundo do quintal. "Foi um filme de terror. Assim que conseguimos tirá-la, a casa inteira desabou", relembra Elaine.

O buraco, que engoliu a casa de três andares e parte das que estavam ao redor, foi fechado com pó de pedra. Segundo as vítimas, o lugar foi abandonado dias depois.

A cratera tinha 20 metros de profundidade e 30 metros de diâmetro e se formou na comunidade do Vale da Escola, após quatro anos do início das obras de um túnel na área do Contorno, na BR-040, em Petrópolis (RJ). A construção faz parte do projeto "Nova Subida da Serra", de 2014, planejado e executado pela Companhia Concer, paralisado em 2016 por problemas com o TCU (Tribunal de Contas da União).

Além de Elaine, mais 55 famílias foram impedidas de retornar às suas moradias por dois anos. Na mesma semana, a empresa estabeleceu pagar R$ 1.000 às vítimas, até que a situação se resolvesse. Não se resolveu: já se passaram quatro anos e doze famílias decidiram retornar ao local.

Local da cratera e, ao fundo, a casa do Haroldo - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Local da cratera e, ao fundo, a casa do Haroldo
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Passado interditado

Sentada à beira da estrada no dia em que a cratera, já cheia de mato, completa quatro anos, Elaine relembra que os 16 anos em que vivia na comunidade com o marido foram maravilhosos. Nem mesmo o barulho dos carros subindo a serra a perturbava. Com a abertura do túnel, a vida ficou um caos. "Teve dias em que os meus cômodos inundavam e eu nem sei explicar por quê."

Na correria de quatro anos atrás, precisaram abandonar o carro na garagem, resgatado dias depois com um buraco no muro do vizinho, mesmo sem a autorização da Defesa Civil. "Já tínhamos perdido a casa, não dava para perder o carro também", conta ela ao TAB.

Lembra, com certa vergonha, que ficaram apenas com os documentos e a roupa do corpo, e receberam ajuda de alguns familiares, até encontrarem um lugar para morar. Atualmente, moram na comunidade em frente e sentem saudade de quando os parentes do marido, que também perderam tudo, eram vizinhos. "Todo mundo ajudava, e isso me dava segurança."

Além da saudade, sentem muito por pagar para morar. "Nós temos uma casa, não é justo continuar de aluguel. Com a indenização, queremos comprar um lugar que seja do nosso jeito." Sua moradia continua interditada.

A Caravan

Outro morador que não volta mais é Haroldo Wayand, 86, que vivera com a esposa ali por meio século. Subindo a única rua da comunidade para buscar o carro, o caminhoneiro lembra com pesar da manhã em que precisou sair correndo do barbeiro para socorrer a mulher. No dia, saiu cedo para cortar o cabelo e recebeu a notícia pela filha — que apareceu esbaforida no barbeiro.

Por sorte, a casa permanecia inteira, mesmo muito próxima ao buraco. Viu a mulher sendo socorrida na estrada e o carro, uma Caravan verde-escura, por um fio do barranco. Pegou uma corda e prendeu o veículo no poste. O automóvel ficou preso por uma corda por 26 dias, até que conseguiu tirá-lo de lá com a ajuda de amigos. O carro bem conservado chamou a atenção da reportagem. "Continua novinho", disse Wayand, sorridente.

Sem pressa, Haroldo rememora, triste, os anos de construção do túnel. "A gente acordava de madrugada com as explosões, era horrível." Ainda em 2014, foi ao Ministério Público para reclamar e alertar as autoridades para um possível desastre. "Me trataram como louco." Depois da tragédia, em um encontro que teve com um representante da Concer, ouviu que na empresa haviam esquecido disso. "Pode uma coisa dessas?".

Com a expressão abatida, Haroldo acorda todos os dias à espera de uma indenização. Apesar do valor pago pela Companhia, a cada ano de reajuste no aluguel a mudança de moradia é certa. A aposentadoria não é suficiente para arcar com a diferença. "Tô pagando pelo pecado que não cometi", lamenta.

Placa com a história de Haroldo - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Placa com a história de Haroldo
Imagem: Fabiana Batista/UOL

O retorno da dona e do cão

No sábado em que TAB esteve na comunidade, Maria de Jesus, 66, cozinhava para um grupo de pessoas na escola municipal Leonardo Boff. Em novembro de 2017, também cozinhava, dessa vez para a merenda da escola, quando ouviu funcionários da Defesa Civil chegarem aos gritos, pedindo para que todos descessem para a estrada, pois o morro tinha chances de desabar.

Maria os ajudou a levar as crianças para a estrada, mas, para desespero de todos, voltou a subir até sua casa. Foi soltar os gatos e o cachorro que estavam presos no canil do quintal. Moradora do Vale da Escola há 50 anos, ela conhece todo mundo e cada cantinho da rua. Ficou o ano de 2018 inteiro morando em uma casa próxima dali para não perder suas raízes.

Apesar dos seguranças contratados para proibir a entrada dos moradores, a merendeira diz, indignada, que as residências foram saqueadas e que, ao descobrirem, famílias inteiras passavam a noite na escola e escondidos em suas moradias. Maria foi uma delas — e a primeira a voltar para a comunidade.

Assim que entrou na casa pela primeira vez, encontrou tudo revirado e embolorado. A televisão e um armário de cozinha, que ganhou no Dia das Mães daquele ano, foram roubados. "Vê só, tu vê suas coisas se perdendo e não pode fazer nada." Decidiu, então, fazer uma grande reforma para tentar esquecer tudo o que viveu.

Escola Municipal Leonardo Boff - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Escola Municipal Leonardo Boff
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Mãe, filha e livros embolorados

Emili dos Santos, 21, e a mãe viram na atitude de Maria uma possibilidade de voltar. A conversa de TAB com a jovem foi em frente ao seu portão, um dos últimos no alto do morro. Rodeada de gatos e sentada no chão, respondeu às perguntas de forma espontânea e politizada.

Para ela, o retorno foi tão doloroso quanto a saída. "Senti como se todas as minhas memórias tivessem sido jogadas dentro da cratera." Ao abrir a porta de casa, deparou com seus cadernos, livros e roupas mofados. Na manhã de 2017, a ainda estudante secundarista tinha saído cedo e não conseguira mais voltar.

Apontando para os cantos da rua, agora limpa e organizada, Emili lembra que tudo estava muito sujo e o mato já dominava a paisagem. Além da reforma dos cômodos, participou dos mutirões de limpeza coletiva. Durante a primeira semana, havia lixo acumulado e faltava eletricidade. Para religar a luz e ter direito à coleta de lixo foi mais uma luta. "A prefeitura não parecia se importar com os moradores."

Decidir voltar não anula o medo de um novo desastre. Durante o papo com Elaine, Haroldo, Maria e Emili, todos afirmaram que, sem a manutenção da área, uma nova cratera pode se abrir a qualquer momento.

Emili em frente a sua casa - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Emili em frente a sua casa
Imagem: Fabiana Batista/UOL

De quem é a responsabilidade?

Sobre a responsabilização pela cratera, há desentendimentos entre o Ministério Público e a Concer. O processo judicial está inconcluso. A empresa alega que "investigações técnicas independentes não estabeleceram vínculo entre as obras do túnel e a subsidência na comunidade do Contorno, ocorrida em novembro de 2017". E que a conclusão desta investigação "permitiu à Defesa Civil de Petrópolis liberar a rodovia e parte da própria comunidade".

De acordo com os peritos do Ministério Público Federal, conforme descrito na Ação Civil, o entendimento é outro. Com as obras paralisadas, "o túnel passou a funcionar como um verdadeiro dreno das águas do lençol freático localizado acima, quando as obras de escavação alcançaram caixa de falhas e fraturas geológicas, formada por vazios e rochas alteradas e intemperizadas, o que gerou um deslocamento mais acelerado e preferencial das águas subterrâneas em direção ao túnel, carreando material menos resistente", o que ocasionou a cratera.

Para o procurador Charles Stevan da Mota Pessoa, que representa o Ministério Público nesta ação, o que permitiu a liberação da via foram os reparos feitos e o monitoramento da área, que mostrou que não havia riscos permanentes. Entretanto, ainda há casas interditadas. "Este não é um evento do acaso. Não, coincidentemente, aconteceu na linha de projeção do túnel."

Após a publicação da reportagem, a Concer procurou TAB.

Esclareceu que, diferente do que dizem as famílias, a cratera foi corrigida com pó de pedra, contenção por solo grampeado e injeções de consolidação dias depois da ocorrência, sem que houvesse abandono. A nota prossegue: "Antes das obras do túnel, as casas da comunidade passaram por vistorias cautelares, e, durante as obras, a região era monitorada por sismógrafos e outros equipamentos. Não há registro de moradias inundadas, já que, na região do Contorno, o teto do túnel situa-se a 70m de profundidade".

Além disso, segundo a Concer, a obra foi paralisada em 2016 "por força de um desequilíbrio econômico-financeiro do contrato de concessão. O TCU recomendou a paralisação da obra somente no ano seguinte". A empresa alega que a região permanece sob monitoramento.

Sobre a responsabilização pela cratera, há desentendimentos entre o Ministério Público e a Concer. O processo judicial está inconcluso. A empresa alega que "investigações técnicas independentes não estabeleceram vínculo entre as obras do túnel e a subsidência na comunidade do Contorno, ocorrida em novembro de 2017". E que a conclusão desta investigação "permitiu à Defesa Civil de Petrópolis liberar a rodovia e parte da própria comunidade".

De acordo com os peritos do Ministério Público Federal, conforme descrito na Ação Civil, o entendimento é outro. Com as obras paralisadas, "o túnel passou a funcionar como um verdadeiro dreno das águas do lençol freático localizado acima, quando as obras de escavação alcançaram caixa de falhas e fraturas geológicas, formada por vazios e rochas alteradas e intemperizadas, o que gerou um deslocamento mais acelerado e preferencial das águas subterrâneas em direção ao túnel, carreando material menos resistente", o que ocasionou a cratera.

Para o procurador Charles Stevan da Mota Pessoa, que representa o Ministério Público nesta ação, o que permitiu a liberação da via foram os reparos feitos e o monitoramento da área, que mostrou que não havia riscos permanentes. Entretanto, ainda há casas interditadas. "Este não é um evento do acaso. Não, coincidentemente, aconteceu na linha de projeção do túnel."