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Repetindo 41 vezes a palavra 'corrupção', Dallagnol se filia ao Podemos

Deltan Dallagnol e Sergio Moro em evento do Podemos - Theo Marques/UOL
Deltan Dallagnol e Sergio Moro em evento do Podemos Imagem: Theo Marques/UOL

Plínio Lopes

Colaboração para o TAB, de Curitiba

10/12/2021 19h27

Repetindo o que vem fazendo Sergio Moro, pré-candidato à presidência da República, o ex-procurador Deltan Dallagnol também não falou com a imprensa durante a celebração de sua filiação ao partido Podemos na manhã desta sexta-feira (10) no Hotel Mabu, no centro de Curitiba.

O evento contou com a presença de diversos políticos filiados ao Podemos, como os senadores paranaenses Oriovisto Guimarães, Flávio Arns e Álvaro Dias, da deputada federal e presidente nacional do partido Renata Abreu, do ex-prefeito de Guarapuava e presidente regional do partido Cesar Silvestri Filho e do deputado estadual Paulo Roberto da Costa, o Galo.

Agendado para às 11h, o começo do evento, que atrasou mais de meia hora, foi marcado pela execução do hino nacional. Os cerca de 200 presentes — eram 154 cadeiras, mas muitas pessoas ficaram de pé ou sentadas no chão — cantaram o hino fervorosamente. "Fiquei até arrepiada", disse uma das mulheres na plateia apontando para o braço. Quem não conseguiu entrar no auditório ficou amontoado na porta tentando ouvir as falas. Todos os presentes utilizavam máscara.

Além de ato de filiação de Dallagnol, o evento serviu também como palanque para o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro. Os que discursaram quase falaram mais de Moro do que de Dallagnol. O presidente regional do Podemos Cesar Silvestri Filho disse que o governo de Jair Bolsonaro (PL) foi necessário, mas que ele se perdeu "no Centrão" e fez uma análise comparando Bolsonaro à primeira dose de uma vacina. "Mas para livrarmos o Brasil do PT, precisamos de uma segunda dose", disse ele se referindo a Moro.

Cerimonia de filiação do ex-procurador do MPF Deltan Dallagnol ao Podemos, em Curitiba - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Cerimonia de filiação do ex-procurador do MPF Deltan Dallagnol ao Podemos, em Curitiba
Imagem: Theo Marques/UOL

Dallagnol foi o último a discursar para a plateia, já sem a presença de Moro. "Eu sonho com um país que realize os anseios de justiça e prosperidade", começou a sua fala. "E eu tenho sido movido por um sonho que é condição para esse país de justiça e prosperidade. Que é um país com menos corrupção". Durante sua fala de cerca de 45 minutos, Dallagnol explicou como a corrupção atrapalha a merenda escolar das crianças, contribui com o aumento das mortes em acidentes de trânsito e dificulta o tratamento de câncer de pacientes — e mencionou, pelo menos 41 vezes, a palavra "corrupção".

Ele, assim como Moro, disse respeitar o STF (Superior Tribunal Federal), mas criticou as recentes decisões do tribunal de anular as condenações de Lula e de outros condenados, além do excesso de impunidade no Brasil. O ex-procurador também fez diversas críticas ao Congresso, citando principalmente a paralisação das chamadas "novas medidas contra a corrupção" e o esvaziamento da lei anti crime, proposta por Moro. "Jamais vamos desistir do nosso país", finalizou o ex-procurador, que foi aplaudido de pé pelos presentes.

Dallagnol também disse que ia assinar uma carta suprapartidária para colocar '200 deputados' com três compromissos básicos: preparação política, democracia e combate à corrupção.

Ao final da assinatura do termo de filiação, ele atendeu todos os pedidos de selfies e abraços, assim como tinha feito no evento de lançamento do livro de Moro, mas não conversou com a imprensa. Dallagnol deixou o MPF (Ministério Público Federal) do Paraná em novembro de 2020 depois de 18 anos na corporação, tendo trabalhado em casos como os "Diários Secretos'' e o "Banestado". Ele atuou na Lava Jato entre 2014 e 2020 e era um dos principais rostos da operação.

O ex-procurador do MPF Deltan Dallagnol deve disputar eleições para o cargo de Deputado Federal pelo Podemos - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
O ex-procurador do MPF Deltan Dallagnol deve disputar eleições para o cargo de Deputado Federal pelo Podemos
Imagem: Theo Marques/UOL

'Estandarte da esperança'

O senador Alvaro Dias, que foi candidato à presidência da República em 2018 pelo mesmo Podemos, afirmou que Dallagnol e Moro representam uma nova justiça. "É um estandarte de esperança", disse ele. O ex-procurador não havia revelado para qual cargo iria se candidatar em 2022, mas Dias entregou em sua fala que Dallagnol irá concorrer a umas das 513 vagas na Câmara dos Deputados.

Já o senador Oriovisto Guimarães se emocionou ao lembrar que foi professor de Dallagnol no cursinho pré-vestibular Positivo e contar que o ex-procurador doou todo o dinheiro recebido com a venda de um carro que ele havia ganhado por ter ficado em primeiro lugar no vestibular.

Enquanto todos falavam em combate à corrupção, o senador Flávio Arns diversificou a pauta e sugeriu uma "força tarefa contra a pobreza". Os três senadores paranaenses são filiados ao Podemos, que tem a terceira maior bancada no Senado. O partido conta com 408 mil filiados.

Moro aproveitou a abertura de Arns e tentou abordar outros assuntos em sua fala. "Existem outros problemas que afligem os brasileiros. A economia vai mal. Tem menos dinheiro no bolso dos brasileiros", disse ele, citando dados da inflação e uma conversa que teve com o instituto mantido pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa. "Desenvolvimento sustentável, preservação do meio ambiente, direitos humanos e combate à corrupção", completou o ex-juiz.

Um fato que chamou a atenção de alguns fotógrafos é que Moro estava piscando muito, o que dificultava as fotografias. Sobre seu programa de governo, Moro disse que ainda estava construindo as diretrizes. "Mas o principal é resgatar todos os sonhos perdidos. E é possível fazer isso com coragem, bravura e convicção", finalizou seu discurso. Ele saiu minutos depois escoltado por seguranças porque tinha um voo para São Paulo — e não falou com a imprensa. "Se a gente não consegue falar com ele assim, imagina quando for presidente", reclamou um repórter de uma televisão local.

Cerimônia de filiação de Deltan Dallagnol ao Podemos - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Cerimônia de filiação de Deltan Dallagnol ao Podemos
Imagem: Theo Marques/UOL

'Vá fazer Powerpoint'

Na frente do hotel, um grupo de cerca de 20 militantes petistas protestaram contra Dallagnol com bandeiras, faixas e uma caixa de som. "Você está inelegível, vá fazer Powerpoint", dizia o áudio que tocava em loop na caixa. Coincidentemente, o local onde foi realizado o evento de filiação, o Hotel Mabu, é o mesmo local onde Dallagnol realizou a famosa apresentação, em 2016. Recentemente, ele chegou a afirmar que o powerpoint foi um "erro de cálculo" da operação.

Um dos organizadores do protesto contou que os militantes tentaram alugar um carro de som para o protesto, mas que os motoristas não aceitaram o protesto contra Dallagnol e Moro por medo da polícia e por respeitarem as duas figuras. "É a república de Curitiba, né, fazer o que", lamentou. Carros e motos passavam gritando contra e a favor dos manifestantes, que sempre respondiam com frases como "Lula Livre" e "Lula Inocente". Uma van dos Correios diminuiu a velocidade, buzinou e fez um sinal positivo para os militantes.

Uma mulher de vestido verde e cabelos brancos passou na frente do hotel e perguntou para o segurança e para o responsável pelo estacionamento: "o babaca já chegou?". Eles responderam que não. Quando ela foi embora, os dois conversaram sobre o caso. "Era pra ela ser inteligente, é professora da Federal, sempre vejo ela passando", disse o manobrista. "Ah, tá explicado. Professor de Federal já perdeu a moral", respondeu o segurança. Ele confidenciou que era bolsonarista "100%", chamou os petistas de "lixo" e disse que eles deveriam ir trabalhar. "Eles não tem moral pra falar do Deltan. Ele salvou o Brasil", concluiu.

Antes do começo do evento, o clima era de tensão entre os seguranças do evento. Durante a semana, alguns sites e blogs paranaenses haviam publicado que manifestantes bolsonaristas também iriam ocupar a praça para protestar contra Dallagnol e Moro, assim como os petistas. No final das contas, apenas pessoas com a camiseta vermelha apareceram.

Sergio Moro comparece à cerimônia de filiação de Dallagnol ao Podemos - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
Sergio Moro comparece à cerimônia de filiação de Dallagnol ao Podemos
Imagem: Theo Marques/UOL

Articulação do partido

Durante suas falas, os senadores, deputados e recém-filiados reafirmaram a importância da presença feminina na política destacando, principalmente, a deputada federal Renata Abreu, que também é presidente do Podemos. Ela é articuladora dos bastidores do partido e a responsável pela filiação dos três senadores paranaenses, de Moro e de Dallagnol. Em uma espécie de coletiva de imprensa improvisada no meio do corredor, Abreu afirmou que novos nomes ainda serão lançados pelo Podemos "em momento oportuno". O senador Alvaro Dias adiantou que serão "candidatos da área judiciária, que envolve Polícia Federal, Ministério Público, Polícia Civil e partes da justiça".

Em sua fala, Abreu afirmou que o projeto político do Podemos é "mais do que um projeto para ganhar eleição". "É um projeto para dar esperança para as pessoas", disse ela. Ela também defendeu o respeito aos "homens e mulheres" e aos "homossexuais", disse que um político não poderia fazer "piadinha com a esposa em evento público" e que o partido irá "respeitar os diferentes".

O ex-procurador do MPF Deltan Dallagnol  - Theo Marques/UOL - Theo Marques/UOL
O ex-procurador do MPF Deltan Dallagnol
Imagem: Theo Marques/UOL

Fora do hotel do evento, que fica de frente para a Praça Santos Andrade, algumas pessoas perguntavam o que estava acontecendo no local — já que uma viatura da Polícia Militar ficou estacionada na frente —, mas continuam suas atividades normalmente depois de descobrirem. A feirinha de Natal, tradicional da praça, continua vazia. "As pessoas estão sem dinheiro, então tá sendo difícil pra gente também", contou uma das vendedoras.

Dentro do prédio histórico da UFPR (Universidade Federal do Paraná), que fica ao lado do hotel, um dos seguranças da instituição ficou surpreso ao saber da presença de Moro a poucos metros dali. "Desde que entrou na vida política, não aparece mais aqui. Faz mais de um ano que não vejo ele", contou. Moro deu aulas no curso de direito da universidade até 2018 — e sua presença no evento chamou mais atenção do que a filiação de Dallagnol por si só.