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Com ingresso a R$ 80 e sem falar com imprensa, Moro lança livro em Curitiba

Plínio Lopes

Colaboração para o TAB, de Curitiba

03/12/2021 09h48Atualizada em 03/12/2021 17h20

Sem falar com a imprensa e com autógrafos feitos previamente, o ex-juiz, ex-ministro e atual presidenciável Sergio Moro lançou o seu livro "Contra o sistema da corrupção" (Editora Sextante) na noite de quinta-feira (2) no Teatro Positivo, em Curitiba. O evento na capital paranaense abre a turnê do livro que ainda vai passar por Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

Uma hora antes do início do evento, às 18h, uma fila já se formava na entrada do teatro. Era possível notar a presença de muitas pessoas de cabelos brancos, além de jovens com uniforme escolar. Mas o grosso era formado por jovens adultos de terno ou vestido.

Quem participou do evento precisou pagar R$ 80 no ingresso ou R$ 95 no combo ingresso, bloco de notas e o livro de 288 páginas autografado. Mesmo assim, na entrada do auditório, um estande vendia o livro de Moro para quem ainda não o tivesse adquirido. Ao lado, o livro "Os dias mais intensos" (Editora Planeta), escrito por Rosangela Moro, esposa do ex-juiz, também estava à venda.

A primeira parte da turnê de Moro reuniu cerca de 800 apoiadores em um ambiente que comporta 2,3 mil pessoas. Uma funcionária da equipe da limpeza, que disse ainda não saber em quem irá votar no ano que vem, contou que os eventos realizados em semanas anteriores lotaram o auditório. Para o lançamento do livro do ex-juiz, o piso superior estava lacrado e reservado apenas aos jornalistas.

Ao chegar depois de soar a campainha, um grupo notou que a parte de baixo do teatro estava muito cheia. "O problema é ficar aglomerado", disse um dos membros. "Acho que o jeito vai ser ficar lá no canto esquerdo", completou ele, com uma risada. Não foi necessário. A produção abriu umas das seções da parte superior e o grupo se sentou por lá. Nos dias anteriores ao evento, a organização cogitou trocar o local para um espaço menor, mas mudou de ideia com a boa divulgação do evento na mídia paranaense.

Mesa com livros de Sergio Moro - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
Imagem: Plínio Lopes/UOL

'Agora é Lula presidente'

Posicionados na entrada do campus da Universidade Positivo, que abriga o teatro, cerca de 15 militantes petistas protestavam contra Moro utilizando máscaras de papelão com o rosto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aos gritos de "olê olê olê olê / Lula Lula". Carros particulares e motoristas de aplicativo precisavam passar pela manifestação para poder entrar. "Não é mais Lula Livre porque ele já saiu da cadeia. Agora é Lula presidente", justificou Rosemery Marcengo, sobre o novo grito de guerra.

Um dos ocupantes de um dos carros que passou gritou: "Lula na cadeia". O grupo reagiu no mesmo tom e gritou: "Moro na cadeia". O espaço onde o evento foi realizado possui, além do grande auditório utilizado por Moro, um anfiteatro com capacidade para 700 pessoas, onde ocorria uma formatura. Um jogo de vôlei também era disputado em uma quadra dentro do espaço.

Alguns dos carros buzinavam, em apoio aos militantes petistas. "Estamos aqui protestando contra a arbitrariedade de Sergio Moro e também contra o atual governo, do qual ele fez parte, que causou essa situação em que o Brasil se encontra hoje", resumiu Marcengo. Apesar de pacífico, dois seguranças acompanharam toda a manifestação, que durou até o escurecer e o começo do evento.

Apoiadores de Lula, do lado de fora do teatro Positivo, onde Sergio Moro lançou seu livro - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
Apoiadores de Lula, do lado de fora do Teatro Positivo, onde Sergio Moro lançou seu livro em Curitiba
Imagem: Plínio Lopes/UOL

'Um governo de mentiras'

Assim que Moro subiu ao palco, os presentes se levantaram e o aplaudiram por cerca de dois minutos. Depois, sacaram os celulares para filmá-lo e fotografá-lo. "Curitiba é meu lugar de poder", disse o ex-ministro, ao falar que havia morado por anos na cidade e que foi aqui que a Operação Lava Jato se desenvolveu. Avisou que não falaria sobre a filiação ao Podemos ou propostas. "Hoje é dia de falar sobre o livro. Não quero misturar as duas coisas", justificou. A última pesquisa Ipespe mostrou Moro com 11 pontos percentuais, atrás de Lula, com 42, e Bolsonaro, com 25.

A fala de Moro durou cerca de quarenta minutos. Ele se manteve de pé e caminhava pelo palco enquanto versava sobre a carreira de juiz, analisava os casos que julgou e alfinetava o presidente Jair Bolsonaro. "Uma carreira parlamentar mais ou menos, e isso é pra ser bondoso", disse Moro. A plateia toda riu. Quando falou sobre o pacote anticrime e os vetos que Bolsonaro havia prometido e não cumprido, uma pessoa na plateia gritou: "Bolsonaro traidor". Moro deu uma leve risada e a plateia aplaudiu. "Esse é um governo de mentiras", o ex-juiz sentenciou, minutos depois.

Depois de algum tempo esperando, o jornalista Marc Sousa, da TV Record e da Jovem Pan Curitiba, passou a questionar Moro sobre o livro. Começou perguntando se Moro sempre quis estudar direito. O ex-juiz respondeu que pensou em fazer jornalismo, mas desistiu — e que poderia buscar a profissão no futuro, caso não haja "regulação" dos meios de comunicação. "Temos que defender a imprensa e respeitar os jornalistas", concluiu ele, sem relacionar direito uma coisa à outra.

Ao comentar sobre a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de anular as condenações de Lula, um espectador gritou: "Gilmar Mendes". A plateia riu, mas Moro pediu respeito ao tribunal.

Sergio Moro lança o livro 'Contra o sistema da corrupção' no Teatro Positivo, em Curitiba - Cassiano Rosário/Futura Press/Folhapress - Cassiano Rosário/Futura Press/Folhapress
Sergio Moro no palco do Teatro Positivo, em Curitiba, no lançamento de 'Contra o sistema da corrupção'
Imagem: Cassiano Rosário/Futura Press/Folhapress

'Não é a minha versão. É a verdade'

Moro contou que pensou em deixar o governo já em dezembro de 2019, quando Bolsonaro ignorou seus pedidos de veto na lei conhecida como pacote anticrime. Como ministro, ele acumulou outros reveses, como a orientação do presidente para não reverter a suspensão do compartilhamento de dados do Coaf e a troca da direção da Polícia Federal. "Se não vai ajudar, não atrapalhe", teria dito Bolsonaro.

Para dar credibilidade ao livro, Moro disse que os fatos narrados não são meras histórias. "Não é a minha versão. Essa é a verdade. Não tem essa de verdade alternativa", frisou.

Surfando no clima "Nem Bolsonaro, Nem Lula", afirmou que cumpriu a lei e foi ético ao julgar o petista. "O presidente respondeu em liberdade [...] e só foi preso em 2018 porque o tribunal mandou expedir o mandado de prisão que era a execução da condenação em segunda instância. Eu recebi aquilo e cumpri", disse Moro. Ele também aproveitou para alfinetar o PT (Partidos dos Trabalhadores). "Fiquei chateado [com a mudança do número da vara federal] por vários motivos. O principal é que 13 é um número que dá azar", brincou.

Ao falar sobre o Congresso, Moro afirmou ser possível negociar de forma republicana sem 'toma lá da cá' e aproveitou para cumprimentar os senadores paranaenses que estavam presentes no evento. "Tô vendo aqui nosso querido senador Álvaro Dias, tô vendo aqui o querido senador Oriovisto [Guimarães]", disse Moro. O grupo que acompanha o senador Flávio Arns precisou gritar para avisar Moro que Arns estava presente. O ex-juiz disse que não conseguiu enxergá-lo, mas estendeu os cumprimentos a ele. Todos os senadores, que são do Podemos, partido a que Moro se filiou, foram aplaudidos pela plateia.

Lançamento do livro de Sergio Moro em Curitiba - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
Apoiador de Moro não quis se identificar mas topou ser fotografado, durante lançamento do livro do ex-ministro, em Curitiba
Imagem: Plínio Lopes/UOL

Sem conversa privada

No final de sua fala, Moro agradeceu a todos os presentes e, nominalmente, às assessoras de imprensa e alguns colegas. Marc Sousa, o jornalista que conduzia a conversa com o ex-juiz, lembrou que o ex-procurador Deltan Dallagnol estava sentado na primeira fileira. Moro pediu desculpas por não ter enxergado o amigo e, então, o agradeceu. Dallagnol foi aplaudido de pé, inclusive por Moro.
"[Meu livro] é um excelente presente de Natal", sugeriu Moro, ao encerrar sua fala.

Depois dos aplausos, Moro rapidamente saiu pela lateral do palco e entrou no camarim. Alguns amigos procuradores o seguiram, assim como os senadores Alvaro Dias e Oriovisto Guimarães. A produção do evento já havia informado que Moro não tiraria fotos, não daria novos autógrafos no seu livro e nem falaria com a imprensa. Um repórter de um blog local reclamou que ele, que apoiava Moro, não conseguia falar com o ex-juiz, mas que a TV Bandeirantes conseguia.

Fabio Aguayo, presidente da Abrabar (Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas), foi um dos empresários curitibanos que fez campanha nas redes sociais para divulgar o livro de Moro. Chegou a comprar mil exemplares do livro para distribuir para amigos e colegas. Ao final da fala de Moro, foi rapidamente encaminhado ao camarim ao qual os jornalistas não tiveram acesso.

Quem não fugiu das selfies e dos abraços no meio da plateia foi Dallagnol. Jovens, adultos e idosos lhe davam conselhos ao pé do ouvido. "Ele é mais popular que o Sergio Moro", disse uma mulher que havia cansado de esperar na fila. "Ele é pré-candidato, tem que estar no meio do povo", disse outra pessoa. Em documentos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ele já consta como segundo vice-presidente do Podemos, mesma sigla de Moro. Depois de esgotar todos os pedidos, Dallagnol seguiu em direção ao camarim para encontrar Moro.

Deltan Dallagnol dá autógrafos no fim do lançamento do livro de Sergio Moro, em Curitiba - Plínio Lopes/UOL - Plínio Lopes/UOL
Deltan Dallagnol dá autógrafos no fim do evento de lançamento do livro de Sergio Moro
Imagem: Plínio Lopes/UOL

Espera na saída

Mesmo com a informação de que não haveria fotografias e conversas, um grupo de quase 50 pessoas fincou os pés em frente à entrada do camarim. Depois de um tempo, uma assessora avisou que o ex-juiz iria receber todos para uma foto, mas que ia demorar. "Nós vamos esperar", respondeu um homem com o aval do grupo.

Enquanto Moro não chegava, o comediante Zico Lamour, que participa do programa "Boa da Pan" da rádio Jovem Pan, passou a imitar políticos e divertir quem aguardava a selfie. Ele imitou o prefeito de Curitiba, Rafael Greca, o presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e até o ministro Gilmar Mendes. A cada troca de personagem, a claque gargalhava.

Por fim, imitou Sergio Moro e ironizou a demora. Um dos apoiadores comentou que a imitação não era mais tão parecida porque a dicção de Moro tinha melhorado. "Ele fez [consulta com] fonoaudióloga, media training e até fisioterapia. Cogitaram até uma cirurgia", disse.

O evento acabou perto das 22h. Parte do público que o aguardava conseguiu entrar para fotos. Enquanto Moro lançava seu livro, Bolsonaro realizava sua tradicional live de quinta-feira (83 mil visualizações no YouTube e 270 mil visualizações no Facebook). Lula, na mesma noite, dava entrevista ao podcast "Podpah", que teve 2,7 milhões de reproduções e 292 mil usuários simultâneos.

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