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Por que a Espanha é um oásis para jogadoras brasileiras de futsal?

A jogadora de futsal Jane Marques (de vermelho), que atua pelo Poio Pescamar, na Espanha Imagem: Arquivo Pessoal

Carina Castro Ávila

Colaboração para o TAB, de Sevilha (Espanha)

13/01/2022 04h01

Jane Marques, 31, cresceu jogando futebol ao lado da mãe em Açude Novo, no interior do Ceará. Vila é modo de dizer, porque o lugar não chegava a ser isso. Jogavam no areal mesmo, nas estradas próximas.

Aos 14 anos, Jane mudou-se para a casa dos avós em Boa Viagem, município de 50 mil habitantes no sertão cearense. Lá, passou a integrar o time de futsal da cidade e a disputar torneios pelo estado. Foi o pontapé da carreira como jogadora profissional de futsal.

Hoje, a atleta vive em Poio, na Espanha, e defende o clube Poio Pescamar, que disputa a primeira divisão da Liga Espanhola. "Eu e minha família vivemos do futsal. É do que eu ganho em euro como jogadora que a gente sobrevive, paga as contas. Aqui na Espanha, consigo mandar um pouco mais de dinheiro para minha mãe", pontua.

Domínio brasileiro

Atualmente, 21 brasileiras disputam a primeira divisão da Liga Espanhola de Futsal. O Torreblanca, equipe de Melilha - cidade autônoma espanhola localizada no continente africano -, tem mais brasileiras do que nativas no elenco (são dez).

"Sou muito feliz por ter vindo para um grupo que já tinha brasileiras, porque a gente tem uma à outra. Na Espanha, em geral, as pessoas são frias, muito fechadas. E no Brasil o pessoal gosta de acolher, de abraçar, de conversar, de interagir. É bom demais ter compatriotas, principalmente quando bate a solidão", diz Jhennif Machado, 24, jogadora do Torreblanca.

Jhennif Machado, 24, jogadora do Torreblanca, time de futsal da Espanha Imagem: Arquivo Pessoal

A mineira de Pompéu contou animada ao TAB que a primeira compra que fez ao chegar à Espanha foi a de um patinete elétrico. As companheiras de time seguiram a onda. "A gente só anda de patinete. Patinete é vida. Todo mundo comprou, até a Amandinha está andando de patinete", diverte-se.

Em 2022, o Torreblanca anunciou a contratação da cearense Amandinha, eleita sete vezes consecutivas a melhor jogadora do mundo (2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019, 2020). É a primeira vez que a craque atua fora do país.

Oásis do futsal

O principal motivo de atração é unanimidade entre as seis atletas entrevistadas pelo TAB: o calendário anual invejável. Além da Liga Espanhola, que dura dez meses, os times disputam a Copa de la Reina. Os vencedores dos dois campeonatos jogam entre si a Supercopa. O campeão da Liga ainda participa da Champions League, competição entre os melhores clubes da Europa. Fora os torneios regionais. Ou seja, tem jogo o ano inteiro.

"Aqui é muito organizado. Você já inicia a temporada sabendo os campeonatos que vai disputar, quais serão as pausas, quando vai poder viajar. Então a gente pode se programar, o que não acontece no Brasil. Isso é muito importante, porque, apesar de jogarmos futsal, a gente também tem vida", explica Jhennif.

A mineira compartilhou que ela e algumas companheiras de equipe estão planejando viagens para a França e para a Itália em 2022 - a agenda garantida e o salário em euros permitem.

Para 2022, a Confederação Brasileira de Futsal tem quatro competições confirmadas: Novo Futsal Feminino Brasil (NFFB), Taça Brasil, Copa do Brasil e Supercopa. Contudo, é comum que as equipes precisem lidar com alterações de datas e cancelamentos de torneios em cima da hora.

Jogadora do Futsi Atlético Navalcarnero há oito anos, a capixaba Ariane Nascimento, 34, enfatiza a estabilidade da agenda espanhola. "Quando cheguei, fiquei positivamente surpresa. O futsal aqui é bastante estudado, a preparação é muito intensa, o calendário é de dar inveja."

Jane afirma que, no Brasil, como não existe um calendário consolidado, os salários são menores, porque os patrocinadores não querem investir em um time que não tem data certa para jogar, sem saber se vai ter transmissão de jogo.

Além da variedade de competições e dos salários mais altos, todas as partidas são transmitidas na internet, o que aumenta a visibilidade das equipes e, consequentemente, os patrocínios.

"Todos os jogos são narrados e transmitidos em tempo real, mesmo que estejam acontecendo vários jogos simultaneamente. Seria muito importante ter isso no Brasil", destaca Luísa Mayara, 30, jogadora do Poio Pescamar.

Luísa Mayara, 30, jogadora do time de futsal espanhol Poio Pescamar Imagem: Arquivo Pessoal

Calendário recheado de partidas, transmissões narradas, patrocinadores e dinheiro na conta das atletas geram, em conjunto, um outro atrativo para o futsal espanhol: a competitividade. Confrontos extremamente equilibrados, emoção até o fim.

"Aqui não tem nenhum time que você olhe e fale: 'É ruim'. Então, todo jogo é uma final. Iguala muito. A gente sai esgotada do tanto que a gente corre. No Brasil, só de saber as equipes que vão se enfrentar, você já sabe quem vai ganhar, você já tem uma ideia de qual equipe é superior", ressalta Jhennif.

Ariane Nascimento, 34, jogadora do Futsi Atlético Navalcarnero há oito anos Imagem: Arquivo Pessoal

Reconhecidas na rua

É impossível ignorar a importância das atletas brasileiras no desenvolvimento da modalidade na Península Ibérica.

O sucesso do melhor clube de futsal feminino do mundo passa pelos pés de cinco brasileiras. Eleito no ano passado como o melhor clube feminino do mundo de 2020 e indicado como o melhor de 2021 -- a premiação ainda não tem data marcada --, o Burela venceu absolutamente todas as competições que disputou na temporada passada: Liga Espanhola, Copa de la Reina, Supercopa e Champions League.

"São dois anos consecutivos que estamos à frente de tudo", comemora a paulista Cilene Paranhos, 37, jogadora do Burela há seis temporadas. O clube representa o município de mesmo nome, localizado na região da Galícia, ao norte da Espanha. É a única cidade do país com equipe feminina e masculina na primeira divisão nacional e, surpreendentemente, esse centro do futsal mundial tem menos de dez mil habitantes.

"Como a cidade é muito pequena, os habitantes vivem futsal, respiram futsal. Ficam perguntando quando tem jogo, não veem a hora. O ginásio enche", relata a veterana Cilene, que foi eleita a melhor jogadora do mundo em 2008. "A gente está na rua e eles cobram: 'Tem que ganhar!'. E quando perde também, a gente fica: 'Putz, vou ter que sair na rua! [risos]'".

As atletas são celebridades em Burela, principalmente as mulheres, que obtêm resultados mais expressivos. "O feminino se destaca bem na cidade, o pessoal cumprimenta a gente na rua, é legal. Quando vou ao mercado, ou a uma lojinha, falam comigo, pedem os horários dos próximos jogos", acrescenta a paranaense Emilly Marcondes, 27.

Entre as dez melhores jogadoras do mundo pelo Futsal Planet Awards (principal premiação da modalidade), seis são brasileiras. Uma delas é justamente Emilly, que atua como pivô. "O da Espanha, para mim, é o melhor campeonato que já disputei, mas se eu tivesse uma estrutura boa no Brasil, não viria para o exterior, não teria este sonho de jogar em outro país que não fosse o meu. Sou muito patriota. Então, eu não teria vindo se o Brasil me oferecesse tudo o que eu tenho aqui", diz.

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