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'Difícil cumprir prazo': apagão de testes em SP gera fila com 3h de espera

Silvado da Silva (de camisa listrada) sai a UBS República, na região central de São Paulo: ele precisa de um teste para poder fazer cirurgia de hérnia Imagem: João de Mari/UOL

João de Mari

Colaboração para o TAB, de São Paulo

15/01/2022 04h01

"Se ninguém me der uma máscara, todos vão pegar o vírus aqui dentro", esbraveja um homem de cabelo ralo, estatura média e cerca de 40 anos, enquanto perseguia uma enfermeira na recepção da UBS (Unidade Básica de Saúde) República, no centro de São Paulo, na última quinta-feira (13).

Os presentes assistiram à cena com olhos esbugalhados. "Quero fazer meu teste de covid, estou no meu direito", dizia ele, antes de ser retirado do local por um segurança. "Aqui só entra de máscara", exclamou em alto e bom som a profissional de saúde.

O clima de tensão às 8h30 tem sua razão. Em meio à escassez de testes para detecção de covid-19 e a alta demanda em unidades de saúde Brasil afora, a UBS República contabilizou, em menos de duas horas de portas abertas para o público, mais de 50 pessoas com sintomas de covid-19 aguardando pelo exame.

A Prefeitura tem oferecido testes rápidos nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais), Prontos Atendimentos, prontos-socorros e nas 469 UBSs, no setor de triagem, para identificar casos positivos de covid-19.

O teste de Silvado da Silva, 43, seria feito pelo plano de saúde, mas acabaram os kits. "Preciso do resultado negativo para amanhã fazer uma cirurgia de hérnia", lamentou o segurança, enquanto aguardava ser atendido. Se ele não sair da unidade de saúde com o resultado negativo, a cirurgia que aguarda desde 2020 não será realizada.

Alheio à movimentação, o autônomo Murilo Pereira, 40, se aproximou de Silva e falou com o homem como quem o acalmasse diante da preocupação. "Minha filha veio aqui ontem com minha esposa, pegou o acolhimento [senha especial para realizar teste covid], e aguardou quase 3 horas para fazer o exame. Mas o resultado saiu rápido, em 30 minutos", garantiu Murilo. "E deu positivo. Por isso vim fazer o meu."

Morador da região central, o autônomo vive com a esposa, grávida de quatro meses, e sua filha adolescente, agora infectada com a covid-19. Na hora de dormir, ele fica com o sofá da sala, a filha no quarto e a esposa em um colchão no corredor. "Vim para garantir a segurança da minha esposa, porque não estou com sintomas, só com uma tosse leve", diz ele — tosse é um dos sintomas da doença.

A calçada em frente à entrada faz parte da Praça do Patriarca, onde foi instalada uma tenda para vacinação contra influenza. Quem tinha sintomas de covid-19 e esperava ser atendido se misturava aos que aguardavam o imunizante contra gripe. Trinta minutos depois, um agente de saúde da UBS pediu que Murilo entrasse na unidade, pois iam agilizar o atendimento. O jovem profissional da saúde preferiu não dar entrevista. "Até metade do ano passado não era assim", disse apenas, referindo-se aos atendimentos exclusivos para testagem da covid-19.

Explosão de casos

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica estima que o número de exames para detectar a covid-19 realizados em todo o país aumentou 98% entre a última semana de 2021 e o início de 2022. O aumento da demanda fez também o preço do procedimento em algumas unidades de saúde particulares aumentar 50% em São Paulo.

Os testes feitos pelos profissionais do SUS são pelo método de antígeno. Esse tipo de teste pode ser feito também em farmácias, tem um resultado rápido e é mais barato que o PCR-RT, considerado padrão-ouro para detectar o vírus. Mais preciso, ele é também mais demorado.

O salto no número de procedimentos é uma das justificativas para as unidades públicas postergarem o atendimento, e laboratórios privados não entregarem os resultados no tempo estimado.

Um teste para covid com promessa de resultado em até um dia nas clínicas do grupo Fleury, por exemplo, custa até R$ 380 — o procedimento realizado nos estabelecimentos a+ Medicina Diagnóstica, que também pertence à rede, sai por R$ 320. Já no Hospital Israelita Albert Einstein, para ter um resultado em até 12 horas, é preciso desembolsar R$ 385.

Mas o valor não garantiu que os clientes tivessem a mesma rapidez — ou sorte — para receber o resultado, como conseguiu a filha de Murilo no SUS. A espera para o laudo de uma PCR chegou a até sete dias, entre as pessoas ouvidas pela reportagem.

A empresária Rita Krejici, 49, perdeu a semana inteira de trabalho pelo atraso no resultado do teste realizado no Albert Einstein na última segunda-feira (10). Ela iria administrar uma palestra com duração de uma semana para clientes da empresa onde trabalha, em São Paulo, mas alguns dias antes teve contato com uma pessoa que estava com covid-19. A espera pelo veredito do hospital demorou 72 horas.

"Liguei para os laboratórios para procurar, não foi fácil. Achei só nos laboratórios mais caros e acabei fazendo no Einstein, que era o mais caro de todos, mas tinha um prazo de resposta mais curto: 12 horas. Para mim era interessante, porque caso desse negativo eu perderia apenas um dia de trabalho", relembra. Irritada com a demora, Rita reclamou. Ela, porém, foi informada que, devido à alta demanda, "não podiam fazer nada".

O atraso no resultado do teste da covid-19 também atrapalhou os planos da vendedora Érica*, 25, que está mudando de apartamento com o namorado. A tosse e a dor de garganta começaram em 5 de janeiro. No dia 7, ela fez um teste no laboratório Salomão Zoppi da av. Angélica, em São Paulo. A promessa de resultado em 24 horas, porém, também não foi cumprida: o exame, que deu positivo, só saiu 7 dias depois. "Ia contar com ajuda de parentes para fazer a mudança, mas descartei essa possibilidade porque o teste não saiu", reclamou. "Meus sintomas inclusive já sumiram, e fiz a mudança praticamente sozinha."

Ansiosa com a demora para saber se estava infectada ou não, a vendedora diz que comprou um teste antígeno de uma amiga que trouxe o exame da Europa. "Absolutamente nenhuma farmácia perto de casa realizava o procedimento", relatou ao TAB. "Tive que pagar para não ficar na mão dos caras."

O teste de antígeno, a propósito, apontou resultado negativo. Ela não está mais infectada.

Imagem: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Folhapress

Ômicron é variante dominante

A chegada da variante ômicron do coronavírus que, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), foi responsável por quase 60% dos casos de covid-19 no mundo no último mês, pode explicar o salto nos casos e suspeitas da doença nas últimas semanas. A nova cepa é muito mais contagiosa.

Até o dia 27 de dezembro, a variante foi encontrada em 58% dos casos sequenciados no Brasil, de acordo com um levantamento feito pela plataforma Our World in Data. Cientistas defendem a testagem em massa da população para rastrear o caminho do vírus e evitar uma disseminação desenfreada da doença.

A consultora de desenvolvimento humano Carla Ottoni, 49, pegou um voo do Rio de Janeiro para Salvador em 6 de janeiro — ela, porém, não sabia que estava infectada. Antes de viajar, seu pai havia apresentado sintomas da doença durante as festas da família no Natal, e ela chegou a fazer um exame no hospital particular São Lucas. O resultado, porém, atrasou 48 horas.

"Não tinha sintomas, mas no dia 11 de janeiro [terça-feira] saiu o resultado e detectou que eu estava com a covid-19. Viajei no início da semana infectada", conta ela. "Se eu já estava com o vírus, não deveria ter viajado."

Teste rápido positivo para covid-19 na UBS Humaitá, bairro da Bela Vista, região central de São Paulo Imagem: Suamy Beydoun/AGIF

Peregrinação diagnóstica

A cerca de seis quilômetros de distância da UBS República, o técnico em informática João Santos, 52, percorria quase todos os três quilômetros da av. Angélica em busca de um teste covid-19. Ele desembarcou de um voo no último domingo (9) com dores de cabeça e tosse. Deixou a tenda de um laboratório particular zangado, sem conseguir realizar o exame. Atravessou a rua em direção a uma farmácia. Poucos minutos depois, deixou o local agora com expressão de preocupação. No celular, tentou agendar o exame pela internet. Ao TAB, ele explicou que aquele era o quinto lugar onde tentava fazer o exame.

"Aparentemente os laboratórios estão vazios. Mas pelas informações que passam, os testes só são feitos por agendamento. Se eu não conseguir fazer hoje, volto para casa e tento marcar. Mas não sei como farei com meu trabalho, porque estou indo presencialmente."

Em quatro dos cinco lugares em que Santos esteve, a reportagem do TAB o acompanhou. Sem se identificar, em todos os casos, funcionários das quatro unidades disseram que "o prazo está sendo difícil de cumprir".

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