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Denúncias revelam tensão no Jacarezinho depois do 'Cidade Integrada'

Adriana* protesta contra "Cidade Integrada" no Jacarezinho, no Rio, na segunda-feira (24) - Fabiana Batista/UOL
Adriana* protesta contra 'Cidade Integrada' no Jacarezinho, no Rio, na segunda-feira (24)
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Fabiana Batista

Colaboração para o TAB, do Rio

25/01/2022 11h52

Às 16h45, o sol da segunda-feira (24) está a pino na favela do Jacarezinho, no Rio. O comércio mantém as portas erguidas e mototáxis sobem e descem as vielas. Mas há tensão no ar. Quatro viaturas entram rua adentro, cada uma com quatro policiais militares. Moradores param para olhar — tem até quem abaixe a cabeça.

Cerca de 20 minutos depois, na entrada principal, uma equipe jornalística chama a atenção. O repórter é ignorado pelos passantes, até que ouve uma voz do outro lado da rua. Aos gritos, um motoqueiro desabafa: "Se eu desaparecer amanhã, foi a polícia".

A voz reporta, no meio da av. Dom Hélder Câmara, casas invadidas e "esculachos" que amedrontam. Quem passa na rua aplaude. Na mesma hora, um homem fardado sai da viatura parada ao lado da quadra da escola de samba com um fuzil. É naquele salão que funciona uma ouvidoria para atender aos moradores.

Antes de meter o pé, o rapaz, que aparenta ter 30 anos, lança: "O governador é um safado".

Ainda durante o rebuliço, dez jovens se aproximam, e alguns gritam para o câmera: "Queremos paz". Estão ali reunidos para um ato organizado por grupos de WhatsApp. Há relatos de abuso desde quarta-feira (18), quando policiais entraram na comunidade para implementar o "Cidade Integrada", novo projeto do governo do Estado. Diante disso, uma mobilização foi realizada no sábado (22) e outra foi marcada para segunda (24).

Viatura na porta

O objetivo das manifestações é minimizar os abusos, mas a opinião sobre elas não é unânime. No protesto de segunda-feira, acompanhado pelo TAB, um homem identificado como presidente da associação tentava desarticular uma pequena aglomeração na favela. "Agora já temos a ouvidoria, denunciem os abusos lá", dizia ele. Uma moradora confidenciou à reportagem: "De que adianta uma ouvidoria onde uma viatura fica na porta?".

A tentativa resultou frustrada. Mulheres continuavam convictas de que precisavam falar, e deram início à caminhada. Adriana*, 48, com medo do que pode acontecer, topou falar apenas em condição de anonimato. Durante a entrada da PM no Jacarezinho, na quarta-feira (19), a diarista foi abordada diversas vezes dentro de casa. Em uma delas, o cão policial fez xixi no tapete.

Com o chão da sala coberto de caixas de papelão - ela se mudaria no dia seguinte —, precisou abrir tudo, todas as vezes em que a polícia entrou para revistar. Além disso, teve de provar que o filho é autista e tinha dificuldades de responder aos comandos policiais. Desde então, tem evitado sair de casa. "Eles podem entrar e 'esculachar' meus filhos e não ter ninguém para defendê-los."

Nesse momento, uma viatura passava pelo local e até mesmo os mais barulhentos pararam de falar. Eram 18h. Um pouco afastada, Ruth*, 44, observava. A camelô acredita que o "Cidade Integrada" pode melhorar seu dia a dia. "A gente não sabe se tem medo de bandido ou de polícia", desabafa.

Não houve violência no primeiro dia de operação, nem sua casa foi invadida. A filha mais velha de Ruth — ela tem três filhos — , entretanto, viu um policial apontar uma arma para crianças na rua. Isso ela achou errado.

Início do ato contra o 'Cidade Integrada', no Rio, na segunda-feira (24) - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Início do ato contra o 'Cidade Integrada'
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Roubo de comida

Antes das 18h30, trinta pessoas saíram determinadas a rodar a comunidade pelas vielas. O grito "Sai pra rua, morador!" tinha o objetivo de convocar e engrossar o caldo. Mas pouca gente estava disposta a marchar. Não porque não concordavam: nos becos, pessoas sentadas em calçadas apoiavam, aplaudiam e sorriam para a manifestação.

O calor nas ruas estreitas era maior que nas mais largas. As casas são coladas umas às outras. É difícil saber o que é casa e o que é birosca (boteco de janela). Às vezes, uma também é outra. Apertados em um cômodo, uma família bebe cerveja para se refrescar e crianças brincam nas poças d'água acumuladas na área externa.

Ninguém quis conversar com a reportagem. Depois de virar esquinas à direita e à esquerda, um número maior de manifestantes invadiu uma rua larga. Córregos se misturam à água de uma pia fora da casa e botecos improvisam duchas.

O grupo parou num cruzamento e conversou com moradores nos portões. Animada, quem se destacou foi Cintia*. Aos 24 anos, já vivenciou intempéries e não aguenta mais sentir-se punida por algo que não fez e não é. "Não sou bandida. Não temos culpa de morar em uma área dominada pelo tráfico", explicou.

Em um de seus discursos inflamados, sacou o celular do bolso e mostrou ao TAB o vídeo de uma casa incendiada, no final de semana. "Se não fosse a mobilização dos moradores, veríamos outra chacina, agora causada por um incêndio criminoso." Não há provas de que a polícia seja a autora, mas há vozes que a denunciam no material que circula nas redes sociais.

Mulher na favela

Ao falar com TAB, Cintia demonstrou confiança e outras mulheres rodearam a reportagem. Todas ao mesmo tempo, contavam situações de violência que vivenciaram.

Um jovem ouviu de vizinhos que a polícia tinha invadido sua casa. Ao entrar, encontrou as próprias roupas sujas de fezes. Uma mulher grávida que vive sozinha teve os móveis quebrados - inclusive, R$ 20 e alimentos que estavam na geladeira foram roubados. Uma mulher viu um policial rasgar seu sofá novo. Uma senhora teve sua quentinha roubada dentro de casa.

Ao serem questionadas qual o maior medo do novo projeto, quatro mulheres responderam que temem ser molestadas por um policial. "Minha irmã já levou uma cantada de um fardado. Não quer mais andar na rua sozinha", contou uma delas.

Mulheres e jovens são a maioria na manifestação. Menos de dez são rapazes. Todas são negras. Boa parte das que conversaram com TAB são mães solteiras. "O morador não quer mais policia, ele quer paz", pontuou Cíntia. A passeata seguiu rumo ao trilho do trem que corta o fim daquele trecho.

Protesto contra o projeto 'Cidade Integrada' no Jacarezinho, no Rio, na segunda-feira (24) - Fabiana Batista/UOL - Fabiana Batista/UOL
Caminhada contra o 'Cidade Integrada' no Jacarezinho
Imagem: Fabiana Batista/UOL

Ato como indignação

Já eram mais de 19h e a iluminação vinha dos postes da rua, das casas e dos bares. O medo da polícia aumentou — até aquelas que incentivaram a continuidade da marcha começaram a questioná-la. Vitória* não era uma delas. O ato é uma forma de mostrar sua indignação. Mãe de dois adolescentes, a dona de casa mora há quatro anos no Jacarezinho e estava acompanhada do esposo.

Desde a chacina de nove meses atrás, pensa duas vezes antes de deixar as crianças sozinhas na rua. No último final de semana, Vitória vivenciou duas situações de violência, enquanto cuidava dos que brincavam à luz da lua.

Num dia, um policial apontou a arma para a cabeça dela. Ao questionar, ele respondeu: "Tô trabalhando". Em outra situação, um adolescente levou dois chutes, um em cada perna, quando um PM quis revistá-lo. Indignada, questionou o PM.

A caminhada parecia perder forças. Ao virar outra viela, parte das pessoas se dispersou. Um grupo seguiu para Manguinhos, comunidade vizinha. O intuito era convocar um novo ato. Para elas, a ouvidoria não parece ser um caminho. O diálogo é perigoso com a polícia, que fica na porta do salão da escola de samba, vendo quem entra e quem sai, de guarda.