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A louca rotina nas konbinis, lojas de conveniência 24 h no Japão

Piti Koshimura em uma das muitas konbinis japonesas - Carlos Kato
Piti Koshimura em uma das muitas konbinis japonesas Imagem: Carlos Kato

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

01/04/2022 04h00

"Irasshaimasê!", ouve-se imediatamente ao abrir a porta, antes que o tilintar da campainha pare de tocar. A expressão, que quer dizer "bem-vindo", é marca registrada das konbinis, as lojas de conveniência do Japão.

"Irasshaimasê!", assim, exclamativo e até estridente, foi como Rodrigo Takeo, 25, foi treinado para dar as boas-vindas às pessoas ingressando em uma konbini no porto de Toyohashi, na província de Aichi. No treinamento, o supervisor dizia a expressão, em alto e bom som, e na sequência novatos como Takeo precisavam repeti-la energicamente. Idem para "arigatou gozaimashita" ("obrigado"), seguido por uma reverência ao cliente que está indo embora.

Takeo nasceu no Pará, mas passou a infância e a adolescência entre Brasil e Japão — desta vez, está no arquipélago desde 2019. Aos 16, fez o primeiro bico em uma konbini. Aos 23, enquanto estudava japonês, trabalhou na unidade da rede Family Mart no porto, por onde passa por dia um sem-número de clientes, entre estudantes, engravatados e operários das fábricas dos arredores. Muitos deles, brasileiros.

Pit stop

Lá, Takeo buscava ajudar conterrâneos, em português. "O pessoal [japonês] me agradecia por poder ajudar. Como a cidade tem muitos brasileiros, japoneses já estão acostumados, inclusive com pedidos de ajuda para, por exemplo, usar a máquina de xerox", conta.

A konbini não para. Aberta 24 horas por dia, sete dias por semana, ela é um misto de lotérica para quem precisa pagar contas, fast food para quem só quer pegar um PF ou lanche e ir embora, pit stop para um café ou uma cerveja, e minimercado com itens que vão de lapiseira a lenços umedecidos e ovo cozido (unitário, embalado sozinho). Também é possível revelar fotos, imprimir e digitalizar documentos e enviar encomendas para o correio.

Para quem está do outro lado do balcão, o ritmo de trabalho é intenso e, entre um bem-vindo e outro, é preciso conferir e repor produtos diversas vezes nas geladeiras e gôndolas, esquentar quitutes a pedido do freguês, organizar quinquilharias, limpar corredores, ser super ágil no caixa, dizer sempre em voz alta a quantia exata de troco. E fazer o possível para ser gentil.

Embora esteja trabalhando em outro ramo atualmente, Takeo ainda vai todos os dias a ao menos uma konbini: no intervalo, passa no Family Mart para um café, no Lawson para uma batata frita ou no 7-Eleven para pegar um bentô.

Seven Eleven  - Samir Sayek/Unsplash - Samir Sayek/Unsplash
Seven Eleven
Imagem: Samir Sayek/Unsplash

Uma caixa repleta de luz

Konbinis estão presentes nas ruas, estações e até dentro de hotéis — hoje, há mais de 50 mil delas no Japão. Independentemente do endereço, é possível identificá-las de longe: iluminadas e coloridas, um tanto assépticas, com prateleiras padronizadas e atendentes treinados, às vezes com sons tão típicos (a campainha, o caixa, o infalível irasshaimasê) que é como se formasse um mundo próprio nelas, um aquário.

Ou, nas palavras melhores da autora japonesa Sayaka Murata no best-seller internacional "Querida Konbini": uma caixa repleta de luz. No romance, a autora narra a história de uma japonesa que, sem se encaixar nas expectativas da sociedade, encontra seu lugar no mundo trabalhando em uma konbini.

Na primeira vez que uma editora lhe pediu um parecer sobre o livro, a tradutora paulistana Rita Kohl, 37, gostou, mas teve dúvidas se ele "viajaria" bem, quer dizer, se seria possível compreender as singularidades de uma loja assim no Brasil. Um tempo depois, quando outra editora, a Estação Liberdade, comprou os direitos para publicar o livro, Kohl viu que sim — e quis traduzir as páginas.

O livro foi publicado no Brasil em 2018 e, até lá, a tradutora ficava pensando se as pessoas iriam compreender o quão comum é a dinâmica de uma loja tal qual descreve Murata. "Um exemplo é treinar o 'aisatsu', as saudações, e todo mundo repetindo junto, e é literal, é o que realmente acontece", diz Kohl, mestre pela Universidade de Tóquio. "Para quem mora ou morou no Japão, os sons, as luzes, os gestos, é muito palpável a ideia do que é uma konbini."

Folk art

Murata trabalhou por quase 18 anos em uma konbini. Depois do sucesso do livro, lançado no Japão em 2016, ela continuou a bater cartão por lá, por quase um ano.

O antropólogo norte-americano Gavin H. Whitelaw, 51, também teve seus dias de atendente de konbini na área urbana de Tóquio e na rural de Yamagata. Hoje diretor executivo do Instituto de Estudos Japoneses de Harvard, nos Estados Unidos, Whitelaw estuda o assunto há mais de uma década.

Nos anos 2000, fez trabalho de campo em três lojas, uma experiência antropológica que considera essencial. "Isso me fez ter uma perspectiva melhor. Entrevistei clientes e funcionários. O cliente não vê o outro lado: ele quer comprar o leite, ler uma revista, pagar a conta, usar o banheiro; ele não vê todas as outras coisas que estão acontecendo. Então, parte do meu trabalho etnográfico foi entender o que é esse mundo", diz.

Tempos depois, o antropólogo organizou uma exposição dedicada ao universo konbini como "mingei", isto é, folk art ou arte popular. Foi assim que, em 2013, instalou-se a "Counter Culture: Japan's Konbini and Elements of Mingei", no Museu Memorial Yuasa, em Tóquio — sem os produtos, mas com os elementos que marcam a atmosfera das lojas, como cartazes, caixa registradora, estandes, prateleiras e uniformes.

Konbini, nas palavras de Whitelaw, "é uma janela fascinante para o que é a vida contemporânea" no Japão.

Gavin H Whitelaw trabalhando na konbini - Gavin H Whitelaw - Arquivo pessoal - Gavin H Whitelaw - Arquivo pessoal
Gavin H Whitelaw trabalhando na konbini
Imagem: Gavin H Whitelaw - Arquivo pessoal

Uma verdade (in)conveniente

O primeiro Family Mart abriu as portas em 1973, outros proliferaram ao longo dos anos 1980 e só na década seguinte a palavra "konbini", que deriva do inglês "convenience store", entrou no léxico japonês, assinala Whitelaw no estudo "Konbini Nation", publicado em 2018.

Atualmente, há três redes maiores (7-Eleven, Lawson e Family Mart) e outras menores (como Ministop e Daily Yamazaki). Abertas a qualquer hora, com diversos produtos e serviços e um banheiro frequentemente superlimpo, as konbinis são de fato convenientes. Quebram diversos galhos, como quando se está na estrada precisando parar para tomar um café ou sair de casa às 3h da madrugada para comprar band-aid.

Mas elas também revelam inconvenientes do que é a vida contemporânea no Japão pós-industrial. De um lado, salários baixos, como relata Takeo, para trabalhadores quase robotizados, como narra Murata. De outro, parada para trabalhadores esgotados de longas jornadas — não é incomum ver pessoas comprando comida pronta ali e jantando dentro dos próprios carros. De quebra, excesso de lixo plástico e desperdício de comida.

Whitelaw fez um experimento em 2005: decidiu abraçar o estilo de vida konbini por um mês, em Tóquio. Perto de sua casa havia 23 konbinis de 11 redes diferentes. Na primeira semana, consumiu 28 sacolas plásticas, 6 canudos, 13 pares de pauzinhos, 11 colheres de plástico, garfos e dois sacos de 10 litros com potes, invólucros de celofane e garrafas PET. Após quinze dias dependendo apenas dessas lojas, o autor escreveu no "Konbini Nation", também estava se sentindo "emocionalmente vazio".

Este vídeo foi o primeiro gravado por Piti Koshimura no Japão, em 2013; desde então, ela se profissionalizou e já produziu dezenas de vídeos sobre o país.

Viver a cidade

Para a produtora de conteúdo Piti Koshimura, 37, curadora da plataforma de cursos de cultura japonesa Momonoki, pensar o papel da konbini lembra o estudo do arquiteto japonês Toyo Ito para "a mulher nômade de Tóquio", da década de 1980. "Era época da bolha econômica e ele pensou uma espécie de residência, uma tenda móvel para você dormir e se trocar — e resolver o resto da vida na rua, da alimentação à lavanderia", conta ela, autora do blog e podcast Peach no Japão. "A konbini se encaixa muito nesse contexto, cumpre vários papéis. Elas acabam fazendo parte do cotidiano, ajudam a manter vivas as cidades."

Entre idas e vindas, Koshimura está desde 2019 morando em Tóquio. Perto de sua casa, frequenta um Lawson onde sempre fica impressionada com a polidez de um atendente. Toda vez, ele pergunta se ela possui cartão de fidelidade. Ela não tem. Ele então pede desculpas por ter perguntado — "num tom tão dramático, ele é a personificação da humildade, virou um personagem na minha vida", diz a produtora, que abordou o caso num episódio do podcast sobre "a arte de pedir desculpas".

As konbinis estão tão integradas à paisagem urbana japonesa que às vezes podemos passar por diversas delas sem notar sua presença nas vias — até precisarmos de uma de última hora. "No fim, konbini lembra um lugar de conforto, de amparo."

O produtor de conteúdo e consultor de viagens Roberto Maxwell, 47, também recorre às lojas de conveniência, principalmente na madrugada, notívago que é. "A konbini tem muito a ver com o estilo de vida urbano do Japão. É parte integral da vida diária das pessoas", considera ele, há quase 20 anos radicado no país.

Sempre que pode, Maxwell leva seus clientes, viajantes vindos do exterior, para conhecer uma unidade. "E eles ficam encantados com as possibilidades, a educação dos funcionários, a rapidez no atendimento e a variedade de produtos", relata. "Muitos se perguntam como vão viver sem isso quando voltarem ao Brasil. Acho graça, mas entendo muito. Quando estou no Brasil, fico perdidinho sem konbini."