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Com dívidas e prejuízo, bufês de SP retomam festas adiadas na pandemia

Tânia Santos, que trabalha em uma empresa de decoração, ajeita arranjo de flores no Espaço Wood - Carine Wallauer/UOL
Tânia Santos, que trabalha em uma empresa de decoração, ajeita arranjo de flores no Espaço Wood
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Sibele Oliveira

Colaboração para o TAB, de São Paulo

16/05/2022 04h01

Isalice Amorim Garcia, 62, entrou no ramo dos bufês por acaso. Pediu as contas do trabalho de telefonista quando engravidou, pois o que ganhava não dava para pagar alguém para cuidar da criança. Em casa, aprendeu a fazer doces e salgados vendo programas de culinária na televisão. Um dia, ao abrir uma conta bancária no bairro da Vila Formosa, observou que havia poucas lanchonetes e docerias no local. Passou a levar os quitutes para a agência todas as tardes.

Sem carro, conta que carregava as bandejas nos braços pelo bairro. Agradou tanto que começou a ser indicada por igrejas e salões nas imediações. Quando se deu conta, já estava trabalhando com festas — e lá se vão 30 anos, muitos deles dentro do bufê que construiu, o Tâmisa, na Mooca.

Tudo ia bem até a pandemia. Às vésperas de um casamento, o mundo de Isa desabou. As flores estavam compradas; as bebidas na geladeira, doces e bolo, prontos. Precisou acalmar a noiva, que desatou a chorar. "Dona Isa, pelo amor de Deus! E agora?"

Isa não pensou nas cerca de 160 festas contratadas para 2020 e 2021, pois acreditava que era uma questão de semanas para tudo se normalizar. Enganou-se. As consequências da pandemia vieram a galope para ela e tantos outros.

"Eu estava esperando aquela carteira de clientes pagar, mas todos pararam."

Sem saber como dar conta das despesas, estava decidida a impedir que o trabalho de uma vida fosse por água abaixo. Procurou os clientes antigos, principalmente os do Santander (ex-Banespa, onde havia começado os quitutes) e voltou a vender bolos, doces e salgadinhos. Foi o que lhe deu um respiro.

Em meio ao marca-e-desmarca, a empresária teve de lidar com outro problema: o pânico causado pelo boato de que os bufês estavam fechando em massa. Não era de todo infundado. Ela soube de quatro que quebraram na região e de gente que pagou e ficou sem o evento. "Conheço espaços que pagam R$ 25 ou R$ 30 mil de aluguel. Difícil aguentar."

No sábado (6), o Buffet Tâmisa estava pronto para o casamento da noite. Quem via o salão não imaginava os perrengues que ela tem passado. Não entra dinheiro no caixa do bufê há dois anos, pois as festas que acontecerão até outubro foram pagas em 2019. A situação é ainda mais complicada com o aumento no preço dos alimentos. "O lucro que a gente teria é o que estamos pagando nas mercadorias", lamenta. Na ponta do lápis, o prejuízo encosta nos R$ 700 mil, em valor bruto.

Isalice Garcia precisou demitir cinco funcionários e agora não tem mais nenhum fixo. Como passa o dia preparando doces, bolos e salgados, recebe clientes no bufê à noite. Vive correndo para dar conta de tudo e recebe ajuda da filha, do marido e da irmã. "Lucro só a partir do momento em que eu fechar festa nova", constata. Serão necessários dois anos para cobrir os prejuízos.

Anna Zarzur (à esq.) e sua sobrinha, Manoela Zarzur, donas do Espaço Wood, no Brooklin, na zona sul de São Paulo - Carine Wallauer/UOL - Carine Wallauer/UOL
Anna Zarzur (à esq.) e sua sobrinha, Manoela Zarzur, donas do Espaço Wood, no Brooklin, na zona sul de São Paulo
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Zero a zero

Em outro grau, alguns empresários conseguiram manejar o pior momento da crise. Às 10h do mesmo sábado, os preparativos para um casamento e um bar-mitzvá estão a todo vapor nas duas unidades do Espaço Wood, ambas no bairro do Brooklin, em São Paulo. As donas Anna Zarzur, 40, e sua sobrinha, Manoela Zarzur, 29, se apressam. Além dos eventos nos salões, elas precisam pegar a estrada para cuidar dos detalhes de um aniversário de 41 anos em Itu, no interior paulista.

O ritmo faz parecer ficção o que elas viveram dois anos atrás, quando souberam do decreto proibindo a realização de eventos. Como Anna tinha acabado de voltar da Suíça, onde a paralisação já era realidade, não ficou surpresa. As mensagens não paravam de chegar, mas a primeira coisa que ela fez foi ligar para a mãe de uma debutante, cuja festa aconteceria dias depois, enquanto Manoela tratou de doar a comida comprada. A comemoração foi remarcada para dali 15 dias.

Logo viram que a situação não era passageira. Haviam mudado a data de 53 das 93 festas contratadas, mas, como a pandemia se prolongava, começaram a espaçá-las mais. "A gente queria diminuir o trauma dos clientes, jogando mais para frente, em vez de ficar picando de 15 em 15 dias", conta Manoela. O jeito foi parar as vendas, num primeiro momento, e montar um departamento de crise. Como são sócias de outros empreendimentos e donas dos prédios que abrigam os dois salões, conseguiram atravessar a crise sem tantos sobressaltos.

O custo mais alto era o da mão de obra. Ainda assim, não dispensaram nem reduziram salários. Elas contrataram cerca de 20 pessoas que trabalhavam em bufês que fecharam, como o França, ou que foram demitidas. "Era gente boa que estava no mercado. Tínhamos o plano de ampliar a empresa para a parte de eventos externos. Era um plano para 4 anos, que acabou acontecendo em 4 meses", relata Anna.

Mesa posta no buffet Espaço Wood - Carine Wallauer/UOL - Carine Wallauer/UOL
Mesa posta no buffet Espaço Wood
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Para evitar prejuízo, colocaram em prática sugestões dos funcionários e passaram a oferecer serviço de delivery em condomínios de luxo. Abriram a agenda para eventos a partir de 2022 e fizeram investimentos. Passaram a crise sem lucro, mas também sem dívida. Em outubro de 2020, reabriram o salão que já existia antes da pandemia e estrearam a unidade da avenida Chucri Zaidan, onde as empresárias receberam a reportagem do TAB.

"Quando dava meio-dia, o bufê inteiro parava para ver o que o [João] Doria ia falar. Parecia Copa do Mundo", lembra Anna. Em fevereiro de 2021 veio a autorização definitiva. Desde então, a agenda permanece cheia. Os funcionários continuam usando máscara e não vão parar tão cedo. Apenas sete festas foram canceladas na pandemia — por morte, separação dos casais ou mudança de endereço. As demais seguem esperando sua vez.

O casal Cristiane e Fernando Giansante, donos do Espaço Pipoca, no Tatuapé, em São Paulo - Carine Wallauer/UOL - Carine Wallauer/UOL
O casal Cristiane e Fernando Giansante, donos do Espaço Pipoca, no Tatuapé
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Sonhos que não voltam

Sem conseguir esperar a festa de um ano no Espaço Pipoca, no Tatuapé, crianças correm de um lado para outro enquanto funcionários preparam o local. A movimentação é acompanhada de perto pela proprietária Cristiane Giansante, 47, e seu marido Fernando Giansante, 49. Pouco antes de a celebração começar, o casal conta ao TAB como sobreviveu tanto tempo com as portas fechadas.

A experiência de ambos ajudou. Antes, Cristiane teve um bufê infantil em Curitiba. Fernando, por sua vez, fez um planejamento financeiro que resistisse a possíveis intempéries. Mantiveram a tranquilidade, mesmo com a chegada da pandemia. Pensaram que na pior das hipóteses ela devia durar seis meses. Nesse caso, o bufê, inaugurado em 2018, sairia ileso. Quando a crise chegou, ele tinha menos de dois anos de funcionamento. Era a hora de o investimento começar a dar retorno.

Foi um golpe duro porque o bufê era novo e estava começando a ser conhecido. Cerca de 40 festas contratadas para 2020 ficaram em suspenso. O casal reembolsou os clientes que cancelaram os eventos, conseguiu um desconto em torno de 40% no aluguel, acertou tudo com os fornecedores e separou dinheiro para o pagamento dos funcionários e despesas, que incluía a manutenção dos brinquedos. E Cristiane foi para casa.

Buffet Espaço Pipoca - Carine Wallauer/UOL - Carine Wallauer/UOL
Festa infantil montada no Espaço Pipoca
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Ela passava no bufê uma vez por semana para ver se estava tudo em ordem, mas sofria com as incertezas. "Fiquei bem abalada. Chegou um dia que falei: não vou mais lá. Se não voltar até dezembro, não tem como a gente ficar só injetando dinheiro", recorda-se.

Houve momentos em que até Fernando, que é mais pragmático, desanimou. "O mais difícil foi não saber até onde ia. Não tinha um limitador, um fim do horizonte, que seria o fim da pandemia", descreve o administrador de empresas.

Cristiane e Fernando ficavam sabendo de outros salões vendidos com desconto, cujos novos proprietários se responsabilizariam pela realização das festas. Eles não tinham queimado o caixa por necessidade econômica, mas estavam no limite. Além das preocupações, Cristiane convivia com a frustração dos pais. "A festa de 1 ano é um evento para a mãe. É como um casamento." Não são raros os casos em que estão sendo substituídas por aniversários de 3 anos.

O Espaço Pipoca tem 18 meses para voltar ao patamar financeiro de antes da pandemia. "No período, tivemos um prejuízo de R$ 300 mil. Tiramos dinheiro do bolso para manter o bufê", declara Fernando. As festas voltaram um pouco vazias porque os convidados temiam o vírus. Hoje, esse receio não existe mais. O que veio para ficar foi uma mudança no comportamento dos clientes. Antes eles pagavam o evento com seis meses de antecedência. Agora muitos fecham contrato um mês antes. Combinada à crise, a vida ganhou urgência e cautela redobradas.