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Fila para almoço em restaurante popular de Manaus começa antes das 8h

A venezuelana Janet Diaz, que almoça no restaurante popular de Manaus - Indiara Bessa/UOL
A venezuelana Janet Diaz, que almoça no restaurante popular de Manaus Imagem: Indiara Bessa/UOL

Indiara Bessa

Colaboração para o TAB, de Manaus

18/06/2022 04h01

A venezuelana Janet Diaz, 44, mora em Manaus há quatro anos. A autônoma faz parte do grupo de 600 pessoas que diariamente se alimentam com apenas R$ 1 em um restaurante popular no centro da capital amazonense. Desde o final do ano de 2021, o número de restaurantes populares com refeições mais acessíveis em Manaus quase dobrou e o público, diversificou.

Antes frequentado por pessoas em situação de extrema pobreza e de rua, o restaurante do centro de Manaus, que passou por uma reforma e foi reaberto em 9 de junho, atrai agora trabalhadores, estudantes e aposentados.

A fila para garantir o almoço começa antes das 8 da manhã. O grupo se divide, segundo os funcionários, entre os que seguem com seus compromissos e outros tantos que preferem esperar na fila pelo início da distribuição da refeição, às 11h.

Janet Diaz abriu mão de dois empregos no país nativo para morar no Brasil. "Lá [na Venezuela] era difícil, eu tinha 2 trabalhos e não tinha dinheiro para comprar comida, roupa. Trabalhava em um hospital, era assistente de estatística e em uma clínica e trabalhava com serviços gerais", relatou.

No restaurante do programa Prato Cheio, a autônoma relata que a refeição a R$ 1 consegue mantê-la no curso de língua portuguesa, a algumas ruas da unidade, e ajuda nas finanças da casa onde mora com o marido e o filho de 20 anos.

"[Como aqui] Para economizar. Alimentar-se por conta própria ainda é muito caro para nós e aqui a comida é muito boa, eu gosto muito. Meu filho também gosta", disse.

Mesmo com esposo e filho empregados, a venezuelana ainda se encaixa nos requisitos de vulnerabilidade alimentar da Secretaria de Estado de Assistência Social, que coordena o programa.

Funcionário dos Correios pega fila para almoçar por R$ 1 no Prato Cheio do centro de Manaus - Indiara Bessa/UOL - Indiara Bessa/UOL
Funcionário dos Correios pega fila para almoçar por R$ 1 no Prato Cheio do centro de Manaus
Imagem: Indiara Bessa/UOL

Enquanto coleta os dados cadastrais das pessoas para o almoço, uma funcionária afirma ter notado um aumento da procura pelo serviço, sobretudo a partir da pandemia. A unidade do centro é a única do Prato Cheio que serve 600 refeições completas — 200 a mais que as outras unidades da capital e do interior.

"Para mim, como imigrante, é uma ajuda muito essencial na minha vida. Economizo dinheiro que pode servir para outras coisas", relatou Janet.

Ao todo existem 27 restaurantes populares no Amazonas. Até 2021 só havia sete unidades do Prato Cheio, e todos ficavam na capital. A expansão é recente. O programa existe em duas modalidades: Cozinha Popular e Restaurante Popular. Os locais de implantação das unidades ficam a critério da secretaria, que analisa os pontos da cidade com maior índice de pessoas em situação de insegurança alimentar.

Fila do restaurante popular no centro de Manaus, antes das 8h - Indiara Bessa/UOL - Indiara Bessa/UOL
Fila do restaurante popular no centro de Manaus, antes das 8h
Imagem: Indiara Bessa/UOL

Solidão e aperto

Frequentador antes e após a reforma do Prato Cheio do centro, Rosemiro Marques, 77, é morador da "periferia do centro", como ele mesmo diz — uma casa de 19 m² no bairro São Lázaro, abriga apenas o aposentado.

A vida de salário mínimo e "bicos" como eletricista ainda não supre todas as necessidades de Rosemiro. "Eu pago aluguel, por sinal caro pra caramba para o meu bolso. Pago luz também, muito caro. Tudo isso com os R$ 1,2 mil que recebo, que é muito pouco", relatou.

Além das despesas, ele conta que todos os meses tenta ajudar os filhos financeiramente. "Onde moro é pequeno demais para mim, mas eu não tenho condições para pagar um melhor, para ficar melhor do que eu já estou vivendo. Procuro viver da maneira que posso", afirmou.

A frequência nos restaurantes tornou-se quase um hábito nos últimos dois anos, segundo o aposentado. O almoço tornou-se, ainda, uma forma de não se sentir sozinho em casa.

"Aqui no restaurante pelo menos tenho com quem conversar. Mas venho porque preciso. Se for comer em outros lugares, o prato de comida é mais de R$ 20. Gastar tudo isso por semana está fora de cogitação", explicou.

O cadeirante Alberto Filho, 38, é estudante de mecatrônica e busca uma oportunidade de emprego. Para ele, o restaurante popular tem a função de amparar quem não tem condições de comer próximo ao seu local de trabalho ou estudo, como ele. Para não abandonar o curso, ele se alimenta pela quantia de R$ 1 antes das aulas.

"A opção é boa. Vou para faculdade e já tenho o almoço de cada dia", diz ele. Após uma longa recuperação contra o vício em drogas, ele conta que se emociona com a possibilidade de conseguir realizar as refeições todos os dias.