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Os judeus que ajudaram a prender pastor por crimes de ódio no Rio

"Desestabiliza, mas é preciso ter coragem. Por isso entramos no Ministério Público", diz Alberto Klein, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro - Ricardo Borges/UOL
'Desestabiliza, mas é preciso ter coragem. Por isso entramos no Ministério Público', diz Alberto Klein, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Yuri Eiras

Colaboração para o TAB, do Rio

22/07/2022 04h01

Um homem atendeu às batidas na porta vestido de camiseta rosa e bermuda azul. "Bom dia, meu amigo. Há quanto tempo!", disse, com pretensa simpatia, ao reconhecer a visita. Voltou aos aposentos da casa, calçou um par de tênis, vestiu jeans e uma camiseta preta com os dizeres "não sou vacinado". Com um bom humor forçado, tentou mostrar naturalidade à imprensa que o aguardava. A visita era da Polícia Federal, que o conduziu à prisão.

A viatura estacionou em uma rua estreita de paralelepípedos no Morro do Pinto, zona portuária do Rio de Janeiro. Na porta do número 37 da rua Mariano Procópio estão placas com inscrições "Bíblia sim, Constituição não", "não elegemos marginais" e "ensinando a morrer por Jesus Cristo", ideias propagadas por Tupirani da Hora Lores, 56, líder da pequena Igreja Geração Jesus Cristo, cuja sede fica no endereço onde o pastor evangélico vivia. Naquela manhã de 25 de fevereiro, ele aproveitou os segundos de fama entre a porta de casa e a viatura da PF para, de repente, xingar judeus.

No dia 30 de junho, quatro meses após sua prisão na Operação Rofésh, Tupirani foi condenado a 18 anos e seis meses de reclusão por crimes de ódio e racismo, especialmente contra o povo judeu, condenação considerada simbólica por aqueles que um dia foram alvo de discursos violentos do pastor.

No Brasil, crimes de ódio se referem a discriminação ou intolerância contra uma coletividade ou referências a elementos específicos de raça, cor, religião e etnia.

Pastor 'figura carimbada'

Não foi a primeira vez que Tupirani xingou judeus. A ação do Ministério Público, à qual o TAB teve acesso, descreve a gravidade dos discursos. Em 2019, durante uma pregação na igreja registrada em vídeo, o pastor "pede a Deus que 'esmague', 'abata', 'massacre', 'humilhe' os judeus, a quem qualifica como 'vermes' e 'corja arrogante com orgulho podre'", diz um trecho do documento do MP.

Em outro vídeo, de 2020, Tupirani diz que "rios de sangue banharão Jerusalém". Em 2021, reforçou: "Ó Deus [...] te peço que tu antecipes sobre eles o teu Holocausto! Que o coronavírus busque a etnia judaica israelense e que se vejam os rabinos de Israel caindo no meio da rua, sem direito a entrar nos leitos", disse, durante uma pregação na igreja.

A Conib (Confederação Israelita do Brasil) foi assistente de acusação na denúncia do MP contra Tupirani. E não foi apenas uma denúncia. "Depois da primeira, ele se tornou uma figura carimbada. A todo momento surgia um vídeo advogando por um massacre do povo judeu, um segundo Holocausto", afirma a advogada criminalista Andrea Vainer, diretora da confederação.

Tupirani é um nome conhecido dos sistemas de informação da Polícia Civil do Rio. Em 2009, foi o primeiro condenado por intolerância religiosa no Brasil, ao lado de um fiel de sua igreja. A dupla divulgou na internet vídeos de incentivo a violência contra seguidores de outras religiões, especialmente as de matriz africana — e membros da congregação chegaram a invadir e depredar um centro de umbanda no Catete, zona sul da cidade.

Judeus, candomblecistas, umbandistas, muçulmanos, mulheres, LGBTQIA+, juízes e ministros estão entre os alvos do pastor, que também responde a uma ação por ter liderado uma manifestação contra muçulmanos na orla do Rio, em 2017. Na época, ele e seus seguidores começaram a pichar muros e outras estruturas da cidade com "Bíblia sim, Constituição não".

"Não tem como não dizer que isso não é um discurso de ódio. A prova é contumaz", comenta Vainer. Do ponto de vista jurídico, não se pode usar a liberdade de culto como carta-branca para atacar outros cultos. "Tem muitos casos na internet em que você fica uma zona cinzenta entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Neste caso, a dúvida desaparece porque o discurso é violento."

A Polícia Federal prendeu o pastor Tupirani da Hora Lores, líder da Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, por crime de ódio e racismo - TV Globo/Reprodução - TV Globo/Reprodução
O pastor Tupirani da Hora Lores, preso na Operação Rofésh, da Polícia Federal
Imagem: TV Globo/Reprodução

'Terra de ninguém'

Em 2021, Tupirani citou nominalmente "sinagogas" e a "associação deles (judeus) no Rio de Janeiro".

A "associação deles" é a Fierj (Federação Israelita do Rio de Janeiro), que representa institucionalmente os israelitas no estado, desde 2020 presidida por Alberto Klein. Estima-se que a comunidade judaica brasileira seja formada por cerca de 100 mil pessoas; no Rio de Janeiro, são pouco mais de 20 mil. A federação também buscou o MP contra o pastor. Representante de 64 instituições israelitas cariocas, entre clubes, instituições de ensino, lares de idosos e hospitais, a Fierj foi alvo direto dele.

"O pastor entrava uma ou duas vezes por semana no Facebook da federação com vídeos ameaçadores. Eu pedia para a equipe de comunicação retirar para não assustar a comunidade", lembra Klein. "Isso desestabiliza, mas é preciso ter coragem. Por isso entramos no Ministério Público. Durante um ano, ia de 15 em 15 dias a delegacias."

Alberto Klein, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
'Ia de 15 em 15 dias a delegacias', conta Klein, que buscou o MP diante dos ataques do pastor
Imagem: Ricardo Borges/UOL

Apesar do esforço da comunidade nos corredores de delegacias e do MP, o que acontece na internet é difícil de controlar: uma rápida busca por "Tupirani" indica que o pastor, apesar de alvo de repúdio, também é tratado como meme por uns usuários. "Tem hora que entendo a revolta do Tupirani" e "não voto no Tupirani porque ele não é candidato" são comentários soltos na web.

"Para um Estado democrático de direito, até a internet precisa ter leis. Hoje, é terra de ninguém. Recentemente, derrubamos um leilão de peças nazistas que aconteceria virtualmente", conta Klein.

"Todo tipo de intolerância, contra diversos povos, é potencializado pela internet", complementa Mykael Rozenbrah, diretor de comunicação da Fierj. "A comunidade judaica é vigilante, sim. Se a gente pensar que [algo como o Holocausto] não vai se repetir porque o tempo é outro, na verdade é preciso não deixar acontecer o mesmo processo", destaca. "O que a comunidade faz é acionar os órgãos competentes."

Onde mora o perigo

Batizado com um nome indígena, assim como o pai, Janduari, Tupirani é um homem grisalho, de sobrancelhas grossas e óculos quadrados. Hoje, ele está preso no Complexo de Gericinó, em Bangu.

A igreja dele, no entanto, continua aberta. Num culto dominical, uma pregadora chegou a nivelar uma futura liberdade de Tupirani com a ressurreição de Jesus Cristo. Tratado como um religioso "sequestrado pela democracia" pela fiel, Tupirani estaria vivendo "a maior glória" dentro da prisão. Naquela manhã de 17 de julho, 17 pessoas acompanharam a pregação dentro da igreja. Outras 30 a assistiam online.

"Nos vídeos, você vê o pessoal ficar em êxtase. E é aí que mora o perigo. Ele alimenta a liderança dele incitando o ódio", diz Klein.

Apesar de preso, Tupirani voltou a viralizar neste mês: alastrou-se um vídeo, gravado em fevereiro, em que ele deseja a morte dolorosa de ministros do Supremo Tribunal Federal. "Deus, que aqueles juízes não morram de causas naturais", pede o pastor e, ao fundo, fiéis dizem "aleluia".

"Ele é emblemático pela violência, mas tem inúmeros casos de discursos antissemitas, a ideia de conspiração de que judeus têm estratégia para dominar o mundo, usando mentiras, distorcendo fatos históricos", destaca Klein.

A defesa de Tupirani recorreu da decisão e espera apreciação. Segundo o advogado Luiz Carlos de Araújo, que defende o pastor, diz que ele fazia apenas "proselitismo religioso". "Ele [Tupirani] não atenta somente contra a religião judaica, ele fala também dos muçulmanos. Tudo o que ele fala está baseado na Bíblia (eu não sei porque não leio a Bíblia). Mas ele só dizia: 'olha, minha religião é melhor do que a sua'", afirmou, ao TAB.