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'Macumba, não': ícone da umbanda, altar de Zé Pelintra é atacado no Rio

Jeff Duarte, 45, guardião do santuário de Zé Pelintra e vestido a caráter, próximo aos Arcos da Lapa, no Rio - Zô Guimarães/UOL
Jeff Duarte, 45, guardião do santuário de Zé Pelintra e vestido a caráter, próximo aos Arcos da Lapa, no Rio
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Yuri Eiras

Colaboração para o TAB, do Rio

07/07/2022 04h01

Os Arcos da Lapa já foram um aqueduto que tirava água do rio Carioca e matava a sede do quase inabitado Rio de Janeiro do século 18. O centro nervoso da cidade cresceu ao redor, e hoje a Lapa é visitada por turistas durante o dia e, à noite, por boêmios e ainda mais turistas.

Plantado entre dois ícones religiosos (a Catedral Metropolitana do Rio e o Convento de Santa Teresa), os Arcos são o cenário de outro tipo de fé. No antigo terreno que separa os Arcos do Convento existe um pequeno altar dedicado a um homem que andou por aquelas bandas há mais de cem anos, segundo a tradição popular. Ele é tratado como santo popular por seus devotos, mas jamais poderia entrar em um convento ou igreja. Desde 2016, duas imagens de cerâmica de Zé Pelintra permanecem de prontidão ali, de frente para a Lapa e de costas para o lar das freiras carmelitas.

A localização do santuário de Zé Pelintra tinha tudo para ser uma alegoria da convivência harmoniosa entre as religiões no Brasil, mas o local tem sido atacado desde que foi construído. Os zeladores do santuário ouvidos pela reportagem do TAB calculam 22 ataques em quatro anos — cinco desses episódios foram registrados em delegacias. As imagens de Zé Pelintra foram quebradas, incendiadas e sujas de tinta. O muro já foi pichado diversas vezes, com inscrições como "vai cair", "foi marretado, avisei", e "macumba, não".

Quem passa pelo santuário consegue reconhecer quem é representado nas esculturas: o chapéu Panamá, o terno e os sapatos brancos com acessórios vermelhos formam a indumentária clássica de Zé Pelintra, entidade entre as mais importantes nas religiões afro-brasileiras, especialmente na umbanda e no catimbó.

Cultuado na linha dos malandros, a história de Zé não tem uma versão definitiva, segundo historiadores. A mais difundida é de que seria um homem nascido em Pernambuco, no fim do século 19, às portas da abolição, e que viveu a efervescência do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século 20, utilizando-se da sorte e da esperteza para sobreviver — eis a definição de malandragem, segundo os dicionários.

O poder de Zé estava na cura e no amparo aos doentes e desvalidos. A lenda oral diz que ele foi encantado, um eufemismo religioso para contar que ele virou um espírito de luz no momento de sua morte.

Altar para Zé Pelintra, no Rio - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Altar para Zé Pelintra, no Rio
Imagem: Zô Guimarães/UOL

'Malandro encarnado'

Há outros malandros na umbanda com mais registros históricos, como Miguel Camisa Preta, espírito associado a Alfredo Francisco Soares, morto em 1912. Em uma edição do jornal Correio da Manhã de 1909, uma crônica policial trata Camisa Preta como "gatuno" e "desordeiro", após um suposto furto no centro da cidade. Miguel é um dos malandros mencionados na canção "História da Lapa", composição de Wilson Batista e Jorge de Castro que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves na década de 1950. Zé Pelintra, que à época já era cultuado nos terreiros, não é citado na letra.

Pelintra é uma espécie de representação maior de todos os malandros. O altar dedicado a ele nasceu da ideia de um grupo de seguidores que confia em seu poder e ensinamentos. Jeff Duarte, 45, filho e neto de zeladores de terreiro de umbanda, é um deles. Mestre de taekwondo e passista de escola de samba, o protetor do santuário usa o nome artístico de "Malandro Encarnado" e diz que a aproximação com Zé Pelintra foi um chamado.

"Uma vez ele me disse: 'as pessoas vão olhar para você e vão passar a me ver'", conta ele. Isso acabou acontecendo, de certa forma. Os ensaios fotográficos em que Jeff está caracterizado como um malandro saíram do controle de suas redes sociais e viralizaram. Zé Pelintra ganhou um rosto na Internet - o rosto de Jeff. Montagens, flyers e camisetas têm a fotografia dele, sem os devidos direitos de imagem.

No dia a dia, Jeff usa sapato bicolor, veste camisa e calça bem alinhados e põe um chapéu Panamá, a principal marca dos malandros. "Às vezes, quando estou perto de uma igreja mais radical e as pessoas começam a olhar, olho de volta. Faço caras e bocas, expressões faciais, pego a bengala e começo a rodar. É uma espécie de luta. Preciso me antecipar aos movimentos", diz ele.

Santuário dedicado a Zé Pelintra no Rio - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Imagem: Zô Guimarães/UOL

Pelintra e a política

Em 2020, a imagem de Jeff vestido de Zé Pelintra foi indevidamente usada em uma montagem com Marcelo Crivella, então prefeito do Rio e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Em um debate eleitoral, Crivella alfinetou o então candidato Eduardo Paes por usar "chapeuzinho de Zé Pelintra". Foi a deixa para uma chuva de memes com o rosto de Crivella no corpo de Jeff.

Àquela altura, o altar já existia e já havia sido atacado mais de uma vez. Cuidadores do santuário instalaram três câmeras de segurança no local, depois de uma série de ataques ao longo de 2020. Só em setembro daquele ano foram quatro. Eles identificaram que um mesmo homem foi responsável por pelo menos duas ações. O autor do ataque, de jaqueta e capacete, estacionava a motocicleta próximo ao santuário, quebrava as imagens e pichava os muros.

"A gente não identifica o autor, mas acredita que possam existir grupos de fanáticos religiosos por trás. Há uns anos, eu mesmo recebi ameaça de um pastor chamado Tupirani, que enviou por mensagem de texto a frase 'Satanás tem que morrer'", afirma Diego Gomes, 31, outro zelador do santuário.

Tupirani da Rocha Lores é pastor da igreja pentecostal Geração Jesus Cristo, famosa por escrever nas paredes da cidade a frase "Bíblia sim, Constituição não". Tupirani foi preso pela Polícia Federal em março, após uma série de falas discriminatórias contra adeptos a religiões de matriz africana e judeus. Em 30 de junho, Tupirani foi condenado pela Justiça a 18 anos de prisão por crime de racismo.

Hoje, além das câmeras de monitoramento para proteger o santuário, existe um coletivo de fiscalização na própria Lapa. "A gente tem um grupo de travestis e pessoas em situação de rua que se disponibilizaram a nos ajudar a cuidar do santuário, por vontade própria. Elas criaram um grupo de proteção e não deixam zonear a área", conta Diego Gomes, o Don Malandro, outro cuidador do santuário e fiel a Zé Pelintra.

"Isso tem tudo a ver com a missão da religião", complementa Jeff. "Nossa ideia inicial, antes do santuário, era fundar uma ONG para amparar pessoas que precisavam de ajuda ali na região da Lapa. Porque, no fim, a verdadeira função do malandro é defender o pobre."

Diego Gomes, protetor do santuário de Zé Pelintra no Rio - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Diego Gomes, protetor do santuário de Zé Pelintra no Rio
Imagem: Zô Guimarães/UOL

'Mortes vão ocorrer a qualquer momento'

Bisneto de uma zeladora de santo, o vereador Átila Alexandre Nunes é o quarto parlamentar da família e o terceiro "Átila Nunes" — ele foi batizado com o mesmo nome do avô, morto em 1968, e do pai, deputado estadual por mais de 10 mandatos consecutivos (o primeiro em 1970). O avô Átila Nunes ficou famoso na década nas décadas de 1940 e 1950 com o programa noturno "Melodia de Terreiro", na rádio Guanabara.

"Um dia ele colocou num programa, já perto da meia-noite, um ponto de umbanda. Foi até muito ousado: era um ponto para Exu. A direção da rádio foi contra, obviamente, mas os ouvintes gostaram. Mesmo numa época em que a Igreja Católica representava a grande maioria no Brasil, a atitude dele foi bem aceita, foi popular, e pediram para que ele tocasse mais. O programa passou a ser um dos mais ouvidos da época", conta o neto.

A diversidade religiosa ainda é uma bandeira da família. Átila Nunes pai, hoje suplente de deputado estadual, mantém uma coluna semanal sobre espiritismo no jornal O Dia, mesmo veículo em que, décadas atrás, o pioneiro da família escrevia sobre as religiões de matriz africana.

No fim de 2021, enquanto esteve em exercício de mandato, Nunes protocolou na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) um projeto de lei para tornar o santuário de Zé Pelintra patrimônio imaterial do estado. O filho vereador, por sua vez, registrou na Câmara um projeto de lei para tornar o dia 7 de julho o Dia de Zé Pelintra. Tradicional na política fluminense, a família é tratada com diplomacia pelos colegas, mas encontra certa resistência às pautas, num cenário em que boa parte das Casas Legislativas do Brasil possui maioria evangélica.

Santuário de Zé Pelintra no Rio - Zô Guimarães/UOL - Zô Guimarães/UOL
Imagem: Zô Guimarães/UOL

"Era o Estado que perseguia os umbandistas na década de 1960. Era muito comum os terreiros serem invadidos pelos policiais. Nos anos 1980, surgiu a Igreja Universal com um discurso preconceituoso contra os cultos afro-brasileiros, e isso se espraiou para outras igrejas eletrônicas", afirma o veterano Átila Nunes, referindo-se às igrejas com extensa grade de programação em rádios e canais de TV aberta. "O que eram apenas agressões verbais viraram agressões físicas, depredações de terreiros. Não tenho a menor dúvida de que mortes vão ocorrer a qualquer momento."

Segundo Nunes, recentemente um vizinho que não gostava de ponto de umbanda esfaqueou a vizinha nos olhos e a cegou, em Macaé. Uma mãe de santo saiu fugida de Campos dos Goytacazes, também perseguida. "Em várias favelas, traficantes estão perseguindo terreiros", completa.

Nunes dá o exemplo do que ocorreu em maio no município de Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio. A festa de comemoração de 189 anos da cidade virou caso de polícia depois que o pastor Felippe Valadão, um dos artistas convidados, bradou que "a bagunça espiritual" havia acabado na cidade. O representante da Igreja Lagoinha foi além: "Digo mais: preparem-se para ver muito centro de umbanda sendo fechado na cidade". A família Átila Nunes acionou o Ministério Público do Rio para investigar o uso de dinheiro do município no episódio, tratado como crime de ódio.