'Esculacho' sem tradução: americano faz versões de sucessos brasileiros

Todo sábado, o farmacêutico Donald Smith, 29, tem uma rotina para aliviar o estresse do trabalho: escolhe um bom cenário, externo ou em sua própria casa, no Novo México, Estados Unidos, veste um figurino temático e grava vídeos, simulando clipes, de músicas brasileiras traduzidas para o inglês.
Filho de uma brasileira com um americano, Smith, que se intitula "Vaqueiro Americano", iniciou a brincadeira em setembro do ano passado — quando começou a postar vídeos de suas performances no YouTube e no Instagram.
"Faço versões das músicas que eu gosto", explica Smith, que tem quase 9 mil seguidores no Instagram. "Os americanos conhecem músicas brasileiras que estouram muito, Anitta, por exemplo. Ou clássicos da bossa nova. Mas eu prefiro canções do grupo de pagode Menos é Mais, do João Gomes, do Zé Vaqueiro." O nome Vaqueiro Americano, aliás, é uma homenagem aos artistas sertanejos que o farmacêutico admira.
Fã de piseiro
Embora nunca tenha morado no Brasil, Smith se diz um apaixonado pelo país. Já visitou o Rio de Janeiro, a Amazônia, Salvador, João Pessoa e Brasília. A mãe, a cosmética Sandra, nascida na Capital Federal, casou-se com Donald, um engenheiro de software natural da Pensilvânia e decidiu criar o filho nos EUA.
Formado em farmácia em 2018, o rapaz compõe músicas próprias desde o início de 2021. Bilíngue, no final de 2022 pensou que poderia alcançar um público maior com as versões de canções brasileiras em inglês, que já fazia por diversão. Mesmo seu trabalho autoral, admite Smith, tem muita influência do sertanejo universitário e do piseiro que ele sempre escutou.
Durante a semana, como conta num divertido post, o americano acorda cedo, come um ovo e toma um "cafézinho" antes de ir para o hospital em que trabalha — especializado no atendimento a indígenas na cidade de Alburquerque. "Eu pego as receitas médicas, leio tudo certinho para os pacientes e cuido para que as pessoas recebam os remédios corretos solicitados", diz.
'Hora de dar o troco'
"Sabe aquela mania dos brasileiros de pegar músicas estrangeiras e traduzir para o português? Eu brinco que chegou a hora de dar o troco. Chegou nossa hora de nos vingar", ri Smith.
Entre as canções que ele transformou em vingança, estão sucessos populares como "Tem cabaré essa noite" (Nivaldo Marques e Nattan), "Bandido" (Zé Felipe), "Não quero dinheiro" (Tim Maia), "Eu tenho a senha" (João Gomes), "Amiga da minha mulher" (Seu Jorge), "Xote dos milagres" (Falamansa), "Acorda Pedrinho" (Jovem Dionísio), entre outras.
O público que segue o "Vaqueiro Americano" nas redes é de muitas partes do mundo. Brasileiros, americanos, africanos. Smith conta que nunca teve problemas com os direitos autorais dos autores ou intérpretes originais. Ao contrário, alguns até repostaram vídeos com os "covers" protagonizados por Smith — como Alanzim Coreano, do hit "Pega o Guanabara" (parceria de Alanzim com Wesley Safadão), e o grupo de forró Falamansa, que viu o verso "esse xote faz milagre acontecer" transformado em "this xote makes a miracle happen".
Na versão de "Pagode Russo", de Luiz Gonzaga, o Vaqueiro ensaia desajeitados passos de dança cossaca com frevo para cantar, em idioma híbrido: "Last night I dreamed about Moscow, dancing russian pagode na boate Cossacou."
Ponte familiar
As versões divulgadas na web renderam a Smith até um reencontro familiar. "Uma vez, uns primos meus do Brasil que nem sabiam disso viram um vídeo meu e elogiaram. Vieram falar que eu era divertido e acabamos nos aproximando por isso", conta.
Vez ou outra as versões do Vaqueiro Americano se mostram, por assim dizer, desafiadoras. Como quando tentou sem sucesso encontrar uma palavra adequada em inglês para "esculacho" — presente no hit "Acorda Pedrinho", da banda Jovem Dionísio.
"Quando é assim, eu tento entender bem a expressão, porque às vezes é algo muito regional, aí faço a tradução. Mas tem hora que não funciona, fica sem nexo trazer para o inglês. No caso dessa música, mantive o 'esculacho' em português mesmo", ri.
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