Como Roberto Menescal, um dos pais da Bossa Nova, revelou Xuxa na música

Roberto Menescal estava lá quando o movimento da Bossa Nova nasceu no apartamento de Nara Leão, no Rio. Nas famosas rodas de violão dos anos 1950, compôs hinos como "O Barquinho" e, nas décadas seguintes, se tornou figura onipresente toda vez que a genialidade da música brasileira acendia.
A vida dedicada à música, porém, guarda outros méritos pouco mencionados. Com o tino único para captar novidades e saber burilar musicalmente vozes poderosas, como as de Maysa e Elis Regina, Menescal farejou algo em 1985, ao ver como sua filha mais nova ficava vidrada na TV, todas as tardes. Na tela, uma garota loira, de um jeito brejeiro e às vezes brusco, dividia o palco com crianças, organizava brincadeiras e cantarolava timidamente canções infantis. Xuxa, a modelo que namorava Pelé, ganhava brilho próprio com o sucesso do programa "Clube da Criança", na extinta TV Manchete.
"Eu gostava daquilo, ficava assistindo com ela, mas pensando: 'será que a vida inteira ela vai ficar cantando essas músicas para crianças?' Passou na minha cabeça que eu poderia fazer um disco com ela, algo mais interessante", ele relembra.
Em pouco tempo, aquela voz insegura invadiu também os toca-discos e ajudou a marcar no imaginário brasileiro o nome da garota e seu título: Xuxa Meneghel, rainha dos baixinhos, uma das artistas que mais vendeu discos no país, ao lado de Roberto Carlos e Nelson Gonçalves. Um feito e tanto na carreira histórica do produtor.
"Sempre fiz discos para os pais das crianças comprarem. Queria fazer um que as crianças gostassem, mas que tocasse também os pais, porque são eles que compram discos", observa o produtor, hoje, aos 85 anos.
Menescal podia. Estava há 15 anos como produtor musical na gravadora Polygram (atualmente Universal Music), onde revelou nomes como Belchior e Fagner, e produziu discos memoráveis, como "Elis" (1972). Xuxa estava a anos-luz do ambiente que ele ajudara a construir, mas para Menescal aquela voz soava como promessa de um grande "estouro". Foi direto ao presidente da companhia na época, Cor Van Dyke, apenas para informar o plano de transformar a grande estrela do momento na TV numa... intérprete de joias da MPB.
Ouviu um dos primeiros nãos da carreira de produtor. O presidente gringo tinha outros planos: era preciso segurar as rédeas na produções por causa da crise do petróleo — de onde vinha a matéria-prima básica para a confecção do principal produto daquela indústria, o disco de vinil.
"Ficou aquela coisa assim, eu peitando, ele também. Até que ele disse que não ia aprovar o dinheiro da gravação. Eu disse: 'tudo bem, vou fazer sem dinheiro'", ele relembra, numa das pausas de estúdio — que continua sendo seu hábitat natural. "Foi aquela pirraça, eu era muito assim."
Na verdade, Menescal já se preparava para deixar a gravadora. Sentia falta de trabalhar em suas próprias músicas, ao invés de produzir e arranjar outros artistas. Por "pirraça", mas também a vontade de deixar o último marco naquela indústria: um disco com alguém que não sabia cantar — e que custou míseros trocados.
Sem poder contratar músicos, bolou na cabeça um repertório de canções de Caetano Veloso, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Roberto e Erasmo Carlos e Toquinho. Abriu a agenda de contatos e saiu telefonando, pedindo autorização não apenas para regravar as músicas, mas também utilizar toda a base pré-gravada.
"Eu dizia: pode ter certeza que com a música de vocês eu vou fazer um trabalho legal com ela. Não sei se era por causa de mim, mas eles confiaram e todo mundo aprovou", conta.
Dueto virtual
A estratégia foi a seguinte: utilizar a base da música e incluir a voz de Xuxa como se estivesse num dueto na gravação original. No primeiro encontro com o produtor, nos corredores da TV Manchete, a nova cantora ficou incrédula: "Ela disse: 'Puxa, imagina, eu e Caetano?' Ela não tinha muita intimidade com aqueles artistas, mas conhecia 'O leãozinho' e sabia quem era Vinicius de Moraes", diz o produtor.
Todo dia à noite, Menescal enviava à casa de Xuxa fitas cassete para que ela treinasse em casa e se familiarizasse com o repertório. Mas havia um desafio ainda maior. E Xuxa repetia isso a Menescal: "Eu não sei cantar". Menescal respondeu: "Xuxa, a gente dá um jeito em tudo. A gente tem como mexer na sua voz para ficar melhor", recorda-se. "Mas não falei pra ela sobre afinação."
O jeito foi encher as faixas com coros. "E tinha outra coisa: naturalmente os tons da Xuxa não eram os mesmos de Caetano Veloso, por exemplo. Quando tinha uma parte assim, mais aguda, eu colocava um coro junto. Aí você nem sabia que a voz dela tava junto, puxava mais a voz de outra menina", ele descreve a traquinagem. "Ela veio na maior boa vontade, tímida. Às vezes não dava certo, eu pedia pra gente tentar novamente. Foi tudo prazeroso, ninguém falava a palavra 'trabalho' naquele momento."
Assim, Xuxa surge na gravação original de "O leãozinho", como se voltasse aos anos 1970 para dividir os vocais com o baiano. E não só. Em "O caderno", quase um hino infantojuvenil de Toquinho, cantou na mesma base que Chico Buarque.
Já em "Pra mode chatear", de Tom Jobim, Menescal fez a ponte entre dois marcos extremos da carreira e reuniu na mesma gravação duas vozes com tons parecidos: a doçura afinada de Nara Leão e a timidez trepidante de Xuxa. Tudo virtualmente. A presença da banda Biquíni Cavadão e até d'Os Trapalhões deixou o registro mais pop, que se encerrava na interpretação de Xuxa para "Acalanto" — uma canção de ninar conhecida na voz grave do seu autor, Dorival Caymmi.
A gambiarra de luxo evidenciava o perfil criativo de Menescal desde os tempos em que as crises não eram só a falta de matéria-prima, mas também de liberdade. Foi assim com Chico Buarque, que, na primeira metade dos anos 1970, tinha praticamente todas as suas canções vetadas pela censura.
"Ele tinha vindo com 'Apesar de você' e eles perceberam isso depois. Fizeram aquela velha pirraça." Chico entrou em crise criativa. A solução veio da cabeça do produtor: "O maior protesto que você pode fazer contra a censura é lançar um disco de intérprete". Nascia ali o álbum "Sinal Fechado" (1974). "No fim, meu papel era esse, trazer soluções."
Feitos e pirraça
O disco "Xuxa e Seus Amigos" estourou, indo além das expectativas de Menescal. Vendeu mais de 500 mil cópias — o primeiro trabalho como produtor a atingir essa meta. "Na época, era coisa pra burro", observa.
Durante as gravações, Menescal, então com 47, e Xuxa, 22, desenvolveram uma amizade insólita. Mesmo com o disco já pronto, ela costumava ligar para o produtor. Ele se lembra do que ouvia do outro lado da linha: "Roberto, como está sua tarde? Eu posso ir aí um pouco? Eu te deixo trabalhando, eu fico lendo na sua sala.' Eu dizia que podia chegar artista e ela insistia: 'Se chegar, eu saio e depois eu volto, posso?'".
Nos encontros, o principal assunto era o futuro da carreira. Ela havia acabado de ser contratada pela TV Globo. "Ela tinha uma insegurança. Coisas que quaisquer uns de nós teriam. Ela achou em mim alguém que pudesse responder algumas coisas", conta. "Tive isso com vários artistas no decorrer da vida. É a carência dos artistas, tem horas que bate. Sempre conversei sobre a vida deles, sobre os medos de se fazer um novo trabalho. É normal isso. Durante muito tempo ela foi muito amiga minha, me chamava para ir nas festas de aniversário dela."
A amizade improvável (e o feito nas vendagens) marcou o fim da relação do produtor com a Polygram, que, àquela altura, estava encantada com a vendagem dos discos. Menescal e Xuxa passaram então a ser convidados para reuniões com representantes da gravadora — todo mundo queria conhecer a garota que mais vendia discos e, de quebra, tirar uma foto com a revelação.
Como bom pirracento que ele declaradamente era, Menescal anunciou na frente de todo mundo que não teria um segundo disco. "Não temos dinheiro, não é mesmo, Van Dyke?", disse, provocando o presidente da gravadora. "Eu tinha até combinado com a Xuxa que eu ia falar tudo isso."
Como estava de saída, ligou para um amigo, dono da gravadora concorrente, oferecendo a nova pupila. Era João Araújo, o chefão da Som Livre, que estranhou a oferta de bandeja, mas aceitou. Na nova casa, Xuxa atingiu a marca de mais de 50 milhões de discos vendidos entre os anos 1980 e 1990. Menescal, que voltara a cuidar da própria música, assistiu tudo de longe: "Agora deixa ela fazer as coisas dela".
Roberto Menescal é, até hoje, um rato de estúdio. "É impossível imaginar minha vida sem isso", diz, desculpando-se por não lembrar de mais histórias da gravação. "Peguei covid-19 há seis meses e isso afetou minha memória, rapaz."
A parceria com Xuxa lhe arranca sorrisos até hoje por muitos motivos, para além da amizade que o fazia circular na casa da amiga, como fazia no apartamento de Nara Leão. Uma delas foi ter conseguido fazer clássicos da MPB alcançarem uma nova geração. "Dei sorte. A gente dá sorte às vezes na vida", observa. "O que eu posso dizer é que os pais das crianças realmente adoravam. Inclusive este pai aqui."
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