'Quem sabe faz a hora': a história do 1º ato das Diretas Já, em Pernambuco

Ao cair da tarde, um caminhão estacionou no centro de Abreu e Lima, em Pernambuco, para ser palco de um ato político. Na carroceria, políticos discursaram em defesa das eleições diretas para presidente do Brasil. Era 31 de março de 1983, marco inusitado (e pouco conhecido) das Diretas Já, campanha que culminaria na passeata com mais de 1 milhão de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, no dia 15 de abril de 1984.
Na Praça da Bandeira de Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, cerca de cem pessoas se reuniram graças a um quarteto de jovens vereadores. "Naquela época se fazia muito comício em cima de caminhões. Tínhamos uma caixinha de som e um microfone, e cada um falava o que tinha pra dizer", conta o aposentado Reginaldo Silva, 72, um dos dois ex-parlamentares vivos para contar a história.
Ao seu lado, Severino Farias, 68, lembra que a maioria do público "era de operários das fábricas, alguns estudantes, sindicalistas e professores". Também no palanque estavam o então presidente da câmara municipal José da Silva Brito e o jovem vereador Antônio Amaro.
Enquanto isso, em outros pontos da cidade, militares desfilavam em comemoração ao aniversário do que chamavam de "Revolução de 64". "A gente escolheu esse dia justamente pra afrontar eles. Era feito desfile nas escolas, campeonato de futebol e festas, para passar para pessoas que a ditadura era algo bom. Mas, a gente sabe que, enquanto eles estavam fazendo a festa, muitos companheiros estavam sendo torturados e mortos", afirma Silva.
O ato durou cerca de duas horas com falas incisivas contra o militarismo. "O discurso era pra torar mesmo, na linguagem popular", diz Farias. Outros políticos, relata Silva, "não tiveram coragem de participar". "O compromisso deles era outro, não era pela redemocratização da República."
História sem foto
As imagens de um dia tão importante ficaram gravadas apenas na memória de seus participantes, pois o fotógrafo convidado não compareceu "por medo". "Naquela época, pouca gente tinha máquina de fotografia e não tínhamos a preocupação com o registro, pois não sabíamos que isso seria tão histórico", esclarece Silva.
Farias lembra que eles nem chegaram a pensar em despistar os militares. Eles, desde jovens próximos a movimentos populares e católicos, eram conhecidos como "os comunistas, o povo da igreja".
Abreu e Lima tinha acabado de se emancipar, em 1982, e já carregava características à esquerda. Os quatro jovens vereadores, filiados ao antigo PMDB, tinham menos de dois meses de mandato quando organizaram o comício. Mas, Silva diz que a manifestação já vinha sendo planejada. "Foram anos conversando, amadurecendo, em qualquer lugar que dava pra se reunir. E, após a eleição, tínhamos autoridade para fazer."
A pequena cidade pernambucana figurou como cenário desse primeiro dos, ainda tímidos, comícios realizados pelo Brasil. Farias diz que sonha com o dia em que as aulas de história abordem essa memória local. "Um município sem história é difícil. Estão botando um guarda-chuva na história, mas embaixo só tem democracia", diz.
Democracia sempre
O ato de Abreu e Lima foi uma faísca que acabou incendiando o país com outros protestos, avalia o promotor José da Costa Soares, coordenador do Núcleo do Patrimônio Histórico e Artístico Cultural do MPPE (Ministério Público de Pernambuco), que tem atuado no registro desse fato histórico pernambucano. "Naquele momento da história, realizar um ato público pedindo eleições diretas era uma atitude, no mínimo, inusitada."
"Foi suficiente para colocar gás no sentimento nacional de bem comum", acrescenta o historiador Diedson Alves. "Esse movimento, conhecido constitucionalmente como emenda Dante de Oliveira, foi ecoando: já era hora de eleições para presidente."
"Quem sabe faz a hora", diz Reginaldo Silva em referência à canção "Para não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré, que se tornou um dos hinos das passeatas pelas Diretas Já. "Tem sempre alguma coisa para se fazer na sociedade e cabe à juventude enfrentar, ter pulso e continuar lutando. Ainda tem muito o que mudar no Brasil, em Pernambuco, e aqui em Abreu e Lima", afirma.
Severino Farias defende a continuidade da luta pela democracia e considera os pedidos recentes pela volta dos militares ao poder como analfabetismo político. "São pessoas que não viveram aquilo, que não tiveram o trabalho nem de ler o que foi a ditadura militar."
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