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'Charlatães e abusos': boom de turismo de ayahuasca abre debate na Colômbia

Um vídeo com três estrangeiros caminhando nus pelas ruas da cidade de Caldas, na região metropolitana de Medellín, viralizou no fim de junho. Os turistas teriam consumido ayahuasca — e um deles chegou a afirmar que tinha "vindo de outro planeta".

O incidente chamou atenção para o boom das cerimônias com uso do chá ritual e alucinógeno dos indígenas da América do Sul, que se espalharam com serviços e pacotes de turismo pela Colômbia e por outros países com territórios de floresta amazônica, como Brasil e Peru. Plataformas de vendas online como o Mercado Livre oferecem a ayahuasca, que pode ser encomendada também em redes sociais como o Instagram.

Frasco de ayahuasca comercializado na Colômbia pela internet
Frasco de ayahuasca comercializado na Colômbia pela internet Imagem: Mayahuasca/TikTok

A exploração comercial de uma atividade indígena tradicional tem gerado debate. Carlos Suárez Álvarez, 48, escritor espanhol envolvido com o tema e radicado na Colômbia desde 2007, afirma à reportagem: "Conheço indígenas que ganharam muito dinheiro vendendo ayahuasca pela internet. Isso deve parecer ótimo para eles". Por outro lado, aponta Suárez, organizações têm denunciado com razão o saque e a extração de conhecimentos ancestrais nessa atividade.

Segundo o escritor, o conhecimento e a prática associados à ayahuasca estão ressurgindo entre jovens indígenas justamente por seu sucesso comercial. Administrá-la a turistas virou profissão que pode ser bem remunerada. E os centros que abrem a visitantes tornaram-se uma importante fonte de renda para as comunidades.

Observando o cenário do turismo na América do Sul, especialmente o Peru, onde há maior difusão das práticas, o escritor nota que "o valor cobrado pelos indígenas depende do lugar onde trabalham. Mas já ouvi o caso de uma xamã que trabalha em um centro de retiros luxuosos e cobra US$ 2.000 por três semanas de trabalho".

A região de Santa Elena, em Medellín, notabilizou-se por uma série de serviços oferecendo participações em cerimônias de ayahuasca. De retiros com durações mais longas, incluindo hospedagem, a participações pontuais nos rituais, há uma gama ampla de possibilidades para variados orçamentos. Nas redes é possível encontrar desde a oferta de uma cerimônia única por 100 mil pesos colombianos (R$ 123) a pacotes em pousadas por 5,31 milhões de pesos (R$ 6.480).

Experiência 'autêntica' e riscos

A britânica Magdalena Tanev, 29, consumiu ayahuasca pela primeira vez em 2019, em Santa Elena. Desde então, vive em Medellín e ajuda turistas interessados nos ritos. Segundo ela, muitas vezes o público busca cura profunda, crescimento pessoal e expansão espiritual.

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"Muitos vêm aqui especificamente para participar de um retiro, e outros descobrem oportunidades de participar de uma cerimônia quando já estão na Colômbia e querem saber mais sobre o assunto", afirma. Muitas vezes, conta ela, esses turistas já tomaram o chá e procuram uma experiência mais "autêntica" do que a que têm acesso em seus países de origem.

A recente onda, porém, admite ela, não veio sem riscos. "Infelizmente, com o boom do interesse pelas cerimônias estão surgindo muitos charlatães, que se autodenominam 'taitas' [como eles chamam os xamãs, quem conduz a cerimônia] quando não é o caso, e nem possuem o treinamento adequado para servi-la", critica Magdalena.

"Já ouvi falar de muitas experiências negativas em que o 'xamã' foi negligente, bem como casos de abuso sexual contra mulheres durante as cerimônias", diz.

Um dos casos mais emblemáticos de abusos de um "taita" foi o de Édgar Orlando Gaitán. De meados da década de 1990 a 2015, ele liderou uma seita em torno do consumo da ayahuasca em várias cidades do país — um grupo que chegou a ter mais de 500 pessoas em seu auge. Em 2019, um tribunal o condenou a 29 anos de prisão por abusar sexualmente de quatro mulheres.

Casos assim, avalia a britânica, explicam a mídia negativa que se criou. "A ayahuasca é geralmente muito segura, desde que ministrada por facilitadores treinados, e que os participantes sejam submetidos a um processo de admissão diligente."

'Tem acontecido uma adaptação das práticas locais destinadas aos 'gringos'', afirma o escritor espanhol radicado na Colômbia Carlos Suárez Álvarez
'Tem acontecido uma adaptação das práticas locais destinadas aos 'gringos'', afirma o escritor espanhol radicado na Colômbia Carlos Suárez Álvarez Imagem: Arquivo pessoal
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Proibição e estigmas

A França proibiu a ayahuasca em 2005, incluindo todas as plantas usadas em seu cozimento, enquanto a Itália adotou medida semelhante em março de 2022. Há preocupação com as eventuais conexões dessas cerimônias com o comportamento de seitas, o que recentemente levou a uma série de prisões na Espanha.

Para Constanza Sánchez Áviles, diretora de políticas públicas e direitos humanos do Iceers (Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviços Etnobotânicos, na sigla em inglês), a proibição é um passo equivocado. "Contribui apenas para tornar essa prática mais clandestina e, portanto, mais difícil de ser avaliada", argumenta.

Ela acredita que a onda recente de proibições na Europa tenha estimulado pessoas interessadas no fenômeno a viajar para a América do Sul. Na Colômbia, atualmente não há nenhuma regra para o uso, o que é alvo de críticas de quem avalia que é necessário maior controle dos rituais e substâncias.

"Quem orienta as cerimônias e quem participa também têm grande responsabilidade", afirma a especialista, que defende mecanismos de autorregulação, como guias de boas práticas, códigos de ética e a adoção de protocolos de segurança.

'Ayahuasca é segura se ministrada por facilitadores treinados e com processo diligente de admissão de participantes', diz Magdalena
'Ayahuasca é segura se ministrada por facilitadores treinados e com processo diligente de admissão de participantes', diz Magdalena Imagem: Arquivo pessoal
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Cerimônias via Wi-Fi no TikTok

Apesar de as cerimônias terem como objetivo o autoconhecimento, na era das redes sociais o compartilhamento dessas experiências em plataformas como o TikTok passou a ser comum.

Em especial perto de grandes centros urbanos da Colômbia, retiros oferecem instalações bem mais confortáveis que as costumeiras áreas de floresta. Nestes lugares é possível ocupar dormitórios individuais e ter acesso a piscina e Wi-Fi enquanto se usa ayahuasca.

Para Suárez Álvarez, embora sejam apresentados como tradicionais, em algumas partes da América do Sul onde houve maior presença turística, como no caso de Iquitos, no Peru, o que existe atualmente são na verdade ritos modernos. "O que tem acontecido é uma adaptação das práticas locais destinadas aos 'gringos'", afirma. Influenciadores colombianos e estrangeiros apesentam com detalhes a rotina desses locais no TikTok, incluindo o passo a passo das cerimônias.

Já em regiões de floresta, como Putumayo, na fronteira com o Peru e o Equador, as experiências seguem tradicionais, diz ele. Magdalena diz ter participado de cerimônias em lugares remotos, onde sequer há eletricidade. "Não é para os fracos de coração, mas é uma experiência incrível se conectar com o remédio em seu local de nascimento — muitas vezes cercado por cordas de ayahuasca e vendo a população local cozinhar o próprio chá."

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