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Luiza Sahd

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A polêmica do 'poliamor solo': existe amor na 'economia da atenção'?

. - Mathias Pape/UOL
. Imagem: Mathias Pape/UOL
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Luiza Sahd

Luiza Sahd é jornalista e escritora. Colaborou nas revistas Tpm, Superinteressante, Marie Claire e Playboy falando sobre comportamento, ciência, viagem, amor e sexo. Vive entre São Paulo e Madrid há anos, sem muita certeza sobre onde mora. Em linhas gerais, mora na internet desde 2008.

Colunista do TAB

24/05/2022 04h01

Foi com um tanto de choque e muita curiosidade que dei de cara com uma reportagem de Jessica Klein para a BBC, avisando o seguinte: a onda agora é o poliamor solo.

É fácil entrar em contato com esse conceito e virar a Nazaré Confusa, tentando calcular como uma pessoa vai dar conta de ter vários amores... sozinha. Pode ser também que, assim como eu, você termine esse texto temendo ser um adepto do poliamor solo sem nunca nem ter suspeitado (ou ainda: suspeitando que esse pessoal é simplesmente solteiro e nem sabe). O final você decide.

De acordo com Liz Powell, a terapeuta e educadora sexual ouvida por Klein em seu artigo, os adeptos dessa modalidade de relacionamento são "pessoas que estão abertas a namorar ou dedicar-se a diversos relacionamentos significativos, sem que tenham um 'parceiro principal' com o qual eles se comprometem acima de todos os demais parceiros".

Sabe aquela pessoa que aparece no seu aplicativo de paquera avisando que está feliz em uma relação não monogâmica, mas que está ali para ter encontros casuais e divertidos com outras que não terão a mesma importância? Então. No caso dos poliamorosos solo, a ideia é dar a mesma (moderada) atenção para todo mundo com quem venham a se relacionar. Sem prioridades, sem grandes ambições românticas.

Soa familiar para o solteiro médio, né? Ficar com João e José sem criar uma hierarquia definindo quem é seu parceiro principal. Mas de acordo com essa comunidade, os poliamorosos solo são diferentes porque têm a si mesmos como parceiros centrais — e assim desejam permanecer: não planejam dividir casa, despesas, planos de longo prazo ou filhos com ninguém além deles próprios.

Me ocorreu que minha avó, depois de ficar viúva, pregava o mesmo modo de vida. Seria ela uma visionária do poliamor solo? A história dirá.

Fato é que os adeptos dessa filosofia deixam claro que: 1) podem mudar de ideia a qualquer momento para nutrir relações mais ambiciosas com alguns de seus parceiros; 2) eles não se identificam com a noção de que relacionamentos precisam avançar naquela ordem clássica de namorar, morar junto, casar, ter filhos e envelhecerem lado a lado.

O tal do amor líquido

Em defesa dos poliamorosos solo, é interessante notar que existe, por parte da comunidade, a boa intenção de discutir a hegemonia dos relacionamentos heteronormativos que sempre "evoluem" nessa ordem — como se dividir toda a vida com um par fosse nosso destino determinado pela Mãe Natureza em pessoa (ou como se fosse a única forma possível de se relacionar).

Por outro lado, ver a si próprio como seu parceiro principal não deixa de ser um gesto que coloca um espelho no lugar onde entrariam as trocas mais significativas com outras pessoas. Nada contra, mas dá pra chamar de amor o que a gente sente pelas pessoas com quem não vamos construir uma intimidade especial, sonhos e eventuais tretas que nos fragilizam de vez em quando?

Para chegar a essa resposta, infelizmente seria preciso dar um passo atrás e explicar aquilo que todo mundo tentou, mas nunca conseguiu: o que é amor. Seria uma missão impossível, mas, no mundo como está, dá para ter uma pista do que acontece quando alguém te ama.

Recentemente, uma fala do filme "A filha perdida", adaptação do livro homônimo de Elena Ferrante, viralizou na internet. Trata-se de uma citação da escritora Simone Weil: "Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade".

Nada no mundo contemporâneo é mais valioso do que a nossa atenção. É por ela que os 500 anúncios e os 30 influencers que você viu hoje na internet lutam. É exatamente ela que as pessoas tentam direcionar para a coisa, pessoa ou atividade certa o tempo todo. É a nossa atenção que não sabemos nunca se está no lugar que deveria, trabalhando a nosso favor. Em outras palavras, a atenção é a linguagem do amor universal: só dedicamos atenção especial aos nossos escolhidos — sejam eles entes, amigos, colegas ou parceiros.

Particularmente, sei que amo algumas pessoas (com quem sequer troco fluidos!) porque, em diversos cenários, eu abandonaria meus planos para ajudar, apoiar ou socorrê-las. O manifesto do poliamor solo não parece ser uma dinâmica em que isso vá acontecer, não. Lembra mais um muro imaginário delimitando até onde vai a intimidade e a dedicação aos parceiros.

Nos últimos anos, conquistamos um monte de liberdades comportamentais que tornam a vida em sociedade mais suportável: a possibilidade de não ter um casamento tradicional, a de tê-lo e não querer filhos, a de se relacionar com quem a gente ame em formatos não convencionais e inclusive a preciosa liberdade de não precisar de outra pessoa pra que a gente se sinta completo.

Como efeito colateral, dá pra sentir no ar que a gente respira a dificuldade imensa que as novas gerações têm de se arriscar no amor, de se comprometer com as escolhas nesse sentido e com os riscos e renúncias que vêm com elas.

Ter a si próprio como parceiro de vida central é uma decisão indiscutivelmente saudável, mas correr o risco de sentir na pele as frustrações do comprometimento com outras pessoas também costumava ser. Quando a gente escolhe não incluir quem amamos em nenhum dos nossos planos de vida mais importantes, parece até exagero denominar esse tipo de relação como "amorosa".

Ou então o amor mudou — e a gente que é menos atento às novidades nem viu isso acontecer.