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Não se masturbe, trabalhe! O que explica a campanha #NoFapSeptember

Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do UOL

23/09/2020 14h01

Acredite se quiser, caro leitor.

Em 2020 tivemos um janeiro que passou mais lento e entediante que uma maratona de lesmas. Agosto voou e ninguém mais sabe quando é segunda, terça, ou quarta-feira. E agora, há gente impondo causa e cor para o ano todo.

Descobri nesta semana, na surdina das redes sociais, que associações das mais variadas bandeiras já dominam toda a paleta de cores primárias e o ciclos de 30 dias impostos pelo calendário gregoriano. Já não se pode nem mais começar o mês só preocupado com o dia do salário da conta. É preciso saber qual causa abraçar e qual pigmentação mais combina.

Abril pede o azul. Pelo autismo. Março, o lilás pelo comprometimento com o câncer de colo de útero. Caso a cor não lhe caia bem, use azul-marinho por outro câncer — o colorretal. Sem deixar de esquecer das doenças inflamatórias intestinais, às quais se reserva o roxo para o mês de maio.

A maior confusão ficou com o mês de setembro. Ainda não se sabe bem porquê, mas todos lhe querem. É o mês da prevenção ao suicídio, do combate a gordofobia, do incentivo a doação de órgãos, das campanhas contra o câncer de mama e, como se não bastasse, do #NoFapSeptember.

O movimento começou em fóruns de internet em 2009, a partir da divulgação de um estudo chinês (pouco confiável) afirmando que a abstinência no consumo de pornografia e na masturbação aumentava os níveis de testosterona no sangue e melhorava a ação da dopamina. Campanhas para evitar a masturbação apareciam aqui e acolá, e em 2011 o desenvolvedor Alexander Rhodes, dos EUA, tirou suas próprias conclusões e lançou uma cartilha de comportamento que tem feito a cabeça de muitos. "NoFap" virou tema de debate.

A trupe, ligada ou não no trabalho de Rhodes, vê na abstinência a solução para a procrastinação. A abstinência também vai ajudar a passar no concurso público, aumentar a produtividade, a concentração e o vigor pelo trabalho.

Nem Freud, conhecedor do papel da sexualidade para a subjetividade humana, é capaz de explicar as razões do movimento.

Se a psicanálise não tem elasticidade teórica para compreender as bizarrices de 2020, talvez caiba à antropologia a árdua tarefa. Para nós, pouco importa se abstinência do consumo de pornografia, masturbação e orgasmo (PMO, sim eles chamam assim) traz efeitos positivos aos neurotransmissores. Deixemos isso para os neurocientistas.

Interessa saber como uma leitura muito particular sobre um estudo levou um jovem norte-americano a ligar filme pornô à queda de produtividade — e, como consequência, a angariar uma legião de seguidores pelo mundo.

Alexandre Rhodes é millennial (sim, também achei que eles não inventariam mais nada). Nasceu, cresceu e sempre trabalhou dentro daquilo que os especialistas chamam de capitalismo informacional ou cognitivo. Uma das revoluções do capitalismo, consolidada no final dos anos de 1970, marcado por inovações que impuseram uma nova lógica à vida social.

Como pontou o sociólogo espanhol Manuel Castells, estudioso do tema, a informação passou a ser a principal moeda de troca, dado que os homens deixam rastros, pistas e um bocado de informações enquanto navegam pela internet. O movimento fez com que a subjetividade humana fosse, gradativamente, sendo organizada a partir da lógica do mercado.

Castells pontua também que o capitalismo informacional é guiado pelo princípio da flexibilidade. As caixinhas que organizam as nossas vidas se misturam umas às outras. Pode tudo! Só que o que parece liberdade vez ou outra se transforma numa jaula de controle sobre o que somos.

As mudanças no mundo do trabalho são abruptas. Há uma clara ruptura na maneira como as empresas contratam, geram seus recursos e demitem seus funcionários. As aptidões que interessam ao mercado são outras. Pouco a pouco, a experiência de anos na mesma profissão ou os diplomas pendurados na parede já não servem de muita coisa. Interessa ao mercado sua capacidade de trabalhar em equipe, liderar, comunicar-se e resolver problemas. São as "soft skills".

No entanto, é preciso lembrar que essas são características pessoais, fazem parte do conjunto de habilidades de cada um e permeiam nossa subjetividade. Em sua maioria, não são resultado de diplomas conquistados, mas fruto, sobretudo, do perfil geracional, das histórias de vida, das viagens que fazemos, das pessoas que conhecemos e dos livros que lemos. É o núcleo duro da nossa personalidade, que agora passou a interessar ao sistema. Tudo está à venda.

O mundo do trabalho invadiu a esfera privada de vez. Entrou pela porta da sala e dominou aquilo que você vê na Netflix. Passou pela mesa da cozinha e mapeou sua alimentação diária. Invadiu a lavanderia e impôs uma nova etiqueta no vestir. Chegou ao seu quarto e padronizou seu sono. Durma pouco, mas sem esquecer de acordar às cinco da manhã para ter a vida dos sonhos, diz "O Milagre da Manhã", o livrinho da moda (não gaste seu dinheiro com isso!). Agora, entrou pelo banheiro o colonizou os últimos resquícios de individualidade e privacidade que nos restavam: a masturbação.

A troca parece justa para alguns: deixe de gozar em troca de minutos de concentração e tudo estará resolvido. O capitalismo não aceita vazios. Se há brechas, ele entra, domina, coloca à venda e nem te conta o preço.

Rhodes e sua horda de seguidores são vítimas do espírito do tempo. Em um mundo no qual está cada vez mais difícil ter sucesso, dinheiro e ver os sonhos realizados, o atalho da abstinência não é nada. Vale o esforço.

Juntos, formam mais um bocado de enfeitiçados pelo canto doce da sereia.

Saudades do tempo em que só a Igreja dizia o que era pecado e os meses eram organizados pelas folhinhas coladas na geladeira de casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL