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Michel Alcoforado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'É cilada, Bino!': BBB mostra crise de identidade dos participantes

BBB 21: Nego Di em entrevista para o "Rede BBB" - Reprodução / GloboPlay
BBB 21: Nego Di em entrevista para o 'Rede BBB' Imagem: Reprodução / GloboPlay
Michel Alcoforado

Michel Alcoforado Doutor em Antropologia, Michel Alcoforado se especializou em Antropologia do Consumo pela University of British Columbia, no Canadá, onde trabalhou prestando consultorias para agências especializadas em pesquisa de mercado, comportamento do consumidor e tendências de consumo. No Brasil, fez pesquisas sobre comportamento de consumidor on e off-line, especializou-se em Planejamento Estratégico de Comunicação e trabalhou como estrategista para grandes marcas. É pós-graduado em Comunicacão Integrada na ESPM e em Brand Luxury Management na London College of Fashion. Palestrante no Brasil e no Exterior, é membro do Instituto Millenium - um dos maiores think tanks brasileiros, colunista da revista Consumidor Moderno e Sócio-diretor da Consumoteca, uma boutique especializada no consumidor brasileiro. Atualmente, cursa um MBA na Berlin School of Creative Leadership/ Steinbeis University.

Colunista do TAB

23/02/2021 04h00

Faltou otimismo aos bossa-novistas quando vaticinaram, sem titubear, que "tristeza não tem fim, felicidade, sim". O noticiário da última semana deu um respiro.

O deputado Daniel Silveira foi preso depois de vestir a carapuça de galinho de briga fascista contra os ministros do Supremo Tribunal Federal. O Instituto Butantan vai adiantar a produção mais 54 milhões da picada contra a covid-19. E, no Big Brother (como não falar dele?) Fiuk emitiu reações e provou que não é um boneco de cera. Sarah, a fada sensata, virou líder da semana. Mas, sem a menor dúvida, a alegria do momento deve-se dobradinha de eliminações. Nego Di está fora e Karol Conka é a próxima.

Levados pelo ódio e pela bílis, milhões de telespectadores votaram. Há de se concordar que motivos não faltam para recorde de rejeição. Nego Di traiu o parceiro de jogo, se aliou ao gabinete do ódio, se achou mais inteligente do que é e, para completar, nos brindou com uma dancinha da planta capaz de aterrorizar as noites daqueles de bom coração por décadas. Exagerou. Sua família sofreu ameaças graves e não conseguiu o estouro prometido nos negócios e nem nas redes sociais. Nego Di foi cancelado. Fora da casa, o humorista se surpreendeu com a comoção e se defendeu dizendo que não é, na vida real, o que foi no programa.

Bugei. Ué, como ele não é o que foi lá? Afinal, o recente interesse de celebridades em um reality show não é justamente mostrar quem realmente são nos bastidores?

Pelo menos, era. Foi com esse intuito que humorista aceitou o convite dos organizadores dessa edição.

Em um vídeo recente, Nego Di revelou que viu na atração a chance de fugir do fosso da invisibilidade que os artistas do sul do país enfrentam. Projota, o cantor gamer, aceitou o convite da gravadora Universal para entrar no BBB 21 porque seus hits eram conhecidos pelo público, mas ninguém fazia ideia de quem era rapper. A obra era maior do que o artista.

O mesmo aconteceu com Karol Conká. A cantora apresentou programas no GNT, fez clipes com o tema do empoderamento feminino, mas tinha conexão com uma pequena bolha de fãs, os moderninhos. Viu no BBB a chance de mostrar ao Brasil inteiro quem era ela. Já Fiuk desejava sair da sombra do pai cantor e esclarecer, de uma vez por todas, que não era filho de Glória Pires.

Todos os participantes, anônimos ou semi-famosos, estão lá porque veem o programa como uma plataforma de exposição da própria personalidade para uma ampla audiência — e como oportunidade de consolidarem seus nomes no cenário nacional. Sob os olhos do Big Brother, creem que as câmeras serão capazes de revelar quem realmente são.

Ledo engano. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Quem bem definiu o dilema foi Neymar Jr., num tuíte, logo após a eliminação de Nego Di.

Seja pela própria jornada no showbiz ou pelos conhecimentos sócio-antropológicos, Neymar. sabe que ninguém pode ser definido pelo o que é simplesmente porque nasceu assim. Nossa identidade, imagem ou personalidade não é uma estrutura dura a ser revelada independente do momento. Apostar que seremos os mesmos na casa e na rua, no trabalho e no lazer, nos palcos ou na plateia, nos bastidores ou no BBB é tolice. Nossos atos e formas de pensar mudam de acordo com os movimentos. É normal. O jogo da vida, de futebol ou do BBB 21 nos apresenta contextos, circunstâncias e interações com os outros que nos forçam a adaptar nossas visões de mundo ao momento. Por consequência, somos obrigados a virar outros de nós mesmos.

O sociólogo jamaicano, Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade, lembra que na contemporaneidade todos carregamos uma multiplicidade de identidades e colocamos a baila na medida em que funcionam bem para cada situação. A dinâmica social dos dias de hoje é pautada por uma velocidade de transformação tão intensa que antigas identidades fixas (gênero, classe, raça, origem) não conseguem se manter sólidas, intactas e permanentes e nem justificar nossos atos. Temos vários eus dentro de nós.

Tolos foram os famosos e seus empresários quando acreditaram que o programa era uma oportunidade de reforçar os pilares da marca, pensada nos planos estratégicos de comunicação de cada artista. No jogo, o pensado é colocado à prova das regras do jogo, do interesse do público, dos patrocinadores, das afinidades pessoais — e os brothers se veem obrigados a virar aquilo que a situação pede.

Os mais hábeis sabem jogar com as forças do momento ao seu bel prazer, surfam a onda e conseguem sair melhor do que entraram. Outros seguem presos aos seus valores e princípios — mesmo que o jogo caminhe para outro lado e, não raro, viram plantas. Sem falar naqueles que se aproveitam da correnteza do jogo para se posicionar, se atrapalham, levam um caixote das ondas e deixam o programa cancelados. Aqui fora, precisam provar que são melhores do que foram no confinamento.

O choque entre a autoimagem e a percepção do público tirou o sono do Nego Di e promete perturbar o descanso dos outros brothers. Conká, Projota e Fiuk se defenderão da imagem vendida no programa. Culparão as câmeras, as regras do jogo, as más companhias, a edição do programa ou os interesses do diretor para mostrar que são melhores do que foram. Oxalá consigam provar tudo isso para o público.

Nessa edição, é notório como, mais uma vez, os participantes são profundos conhecedores das regras do jogo. O vício na atração ou a falta de tempo para ler esse colunista não justificam os erros futuros. Afinal, Tiago Leifert, vez ou outra, dá aula de sociologia aos brothers em seus discursos de eliminação.

Foi o que ele fez na saída de Nego Di.

"Jogar é diferente de viver o BBB. Essa coisa de jogo deu a vocês uma sensação errada de controle. (...) Eu vou do ponto A ao ponto B. Eu não faço curva. Eu vou seguir meus princípios, valores, intuições, e não mudo nunca. Isso é para dizer para vocês serem mais maleáveis. Se vocês não escolherem mudar de acordo com as coisas, serem maleáveis, a história fica repetitiva. A rigidez não é sinônimo de força no BBB. É sinal de que você vai quebrar"

Se comportar de uma forma diferente no programa e na vida não é sinal de uma crise de identidade, de desvio de personalidade ou falta de caráter. É do jogo da vida e do Big Brother Brasil. A única diferença é que lá tem câmera, e você tem a chance de sair rico no final.

Viver é saber trocar de carapuça quando o momento pede. O segredo é saber dançar conforme a música.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL