Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.
'É cilada, Bino!': BBB mostra crise de identidade dos participantes

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Faltou otimismo aos bossa-novistas quando vaticinaram, sem titubear, que "tristeza não tem fim, felicidade, sim". O noticiário da última semana deu um respiro.
O deputado Daniel Silveira foi preso depois de vestir a carapuça de galinho de briga fascista contra os ministros do Supremo Tribunal Federal. O Instituto Butantan vai adiantar a produção mais 54 milhões da picada contra a covid-19. E, no Big Brother (como não falar dele?) Fiuk emitiu reações e provou que não é um boneco de cera. Sarah, a fada sensata, virou líder da semana. Mas, sem a menor dúvida, a alegria do momento deve-se dobradinha de eliminações. Nego Di está fora e Karol Conka é a próxima.
Levados pelo ódio e pela bílis, milhões de telespectadores votaram. Há de se concordar que motivos não faltam para recorde de rejeição. Nego Di traiu o parceiro de jogo, se aliou ao gabinete do ódio, se achou mais inteligente do que é e, para completar, nos brindou com uma dancinha da planta capaz de aterrorizar as noites daqueles de bom coração por décadas. Exagerou. Sua família sofreu ameaças graves e não conseguiu o estouro prometido nos negócios e nem nas redes sociais. Nego Di foi cancelado. Fora da casa, o humorista se surpreendeu com a comoção e se defendeu dizendo que não é, na vida real, o que foi no programa.
Bugei. Ué, como ele não é o que foi lá? Afinal, o recente interesse de celebridades em um reality show não é justamente mostrar quem realmente são nos bastidores?
Pelo menos, era. Foi com esse intuito que humorista aceitou o convite dos organizadores dessa edição.
Em um vídeo recente, Nego Di revelou que viu na atração a chance de fugir do fosso da invisibilidade que os artistas do sul do país enfrentam. Projota, o cantor gamer, aceitou o convite da gravadora Universal para entrar no BBB 21 porque seus hits eram conhecidos pelo público, mas ninguém fazia ideia de quem era rapper. A obra era maior do que o artista.
O mesmo aconteceu com Karol Conká. A cantora apresentou programas no GNT, fez clipes com o tema do empoderamento feminino, mas tinha conexão com uma pequena bolha de fãs, os moderninhos. Viu no BBB a chance de mostrar ao Brasil inteiro quem era ela. Já Fiuk desejava sair da sombra do pai cantor e esclarecer, de uma vez por todas, que não era filho de Glória Pires.
Todos os participantes, anônimos ou semi-famosos, estão lá porque veem o programa como uma plataforma de exposição da própria personalidade para uma ampla audiência — e como oportunidade de consolidarem seus nomes no cenário nacional. Sob os olhos do Big Brother, creem que as câmeras serão capazes de revelar quem realmente são.
Ledo engano. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Quem bem definiu o dilema foi Neymar Jr., num tuíte, logo após a eliminação de Nego Di.
Seja pela própria jornada no showbiz ou pelos conhecimentos sócio-antropológicos, Neymar. sabe que ninguém pode ser definido pelo o que é simplesmente porque nasceu assim. Nossa identidade, imagem ou personalidade não é uma estrutura dura a ser revelada independente do momento. Apostar que seremos os mesmos na casa e na rua, no trabalho e no lazer, nos palcos ou na plateia, nos bastidores ou no BBB é tolice. Nossos atos e formas de pensar mudam de acordo com os movimentos. É normal. O jogo da vida, de futebol ou do BBB 21 nos apresenta contextos, circunstâncias e interações com os outros que nos forçam a adaptar nossas visões de mundo ao momento. Por consequência, somos obrigados a virar outros de nós mesmos.
O sociólogo jamaicano, Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade, lembra que na contemporaneidade todos carregamos uma multiplicidade de identidades e colocamos a baila na medida em que funcionam bem para cada situação. A dinâmica social dos dias de hoje é pautada por uma velocidade de transformação tão intensa que antigas identidades fixas (gênero, classe, raça, origem) não conseguem se manter sólidas, intactas e permanentes e nem justificar nossos atos. Temos vários eus dentro de nós.
Tolos foram os famosos e seus empresários quando acreditaram que o programa era uma oportunidade de reforçar os pilares da marca, pensada nos planos estratégicos de comunicação de cada artista. No jogo, o pensado é colocado à prova das regras do jogo, do interesse do público, dos patrocinadores, das afinidades pessoais — e os brothers se veem obrigados a virar aquilo que a situação pede.
Os mais hábeis sabem jogar com as forças do momento ao seu bel prazer, surfam a onda e conseguem sair melhor do que entraram. Outros seguem presos aos seus valores e princípios — mesmo que o jogo caminhe para outro lado e, não raro, viram plantas. Sem falar naqueles que se aproveitam da correnteza do jogo para se posicionar, se atrapalham, levam um caixote das ondas e deixam o programa cancelados. Aqui fora, precisam provar que são melhores do que foram no confinamento.
O choque entre a autoimagem e a percepção do público tirou o sono do Nego Di e promete perturbar o descanso dos outros brothers. Conká, Projota e Fiuk se defenderão da imagem vendida no programa. Culparão as câmeras, as regras do jogo, as más companhias, a edição do programa ou os interesses do diretor para mostrar que são melhores do que foram. Oxalá consigam provar tudo isso para o público.
Nessa edição, é notório como, mais uma vez, os participantes são profundos conhecedores das regras do jogo. O vício na atração ou a falta de tempo para ler esse colunista não justificam os erros futuros. Afinal, Tiago Leifert, vez ou outra, dá aula de sociologia aos brothers em seus discursos de eliminação.
Foi o que ele fez na saída de Nego Di.
"Jogar é diferente de viver o BBB. Essa coisa de jogo deu a vocês uma sensação errada de controle. (...) Eu vou do ponto A ao ponto B. Eu não faço curva. Eu vou seguir meus princípios, valores, intuições, e não mudo nunca. Isso é para dizer para vocês serem mais maleáveis. Se vocês não escolherem mudar de acordo com as coisas, serem maleáveis, a história fica repetitiva. A rigidez não é sinônimo de força no BBB. É sinal de que você vai quebrar"
Se comportar de uma forma diferente no programa e na vida não é sinal de uma crise de identidade, de desvio de personalidade ou falta de caráter. É do jogo da vida e do Big Brother Brasil. A única diferença é que lá tem câmera, e você tem a chance de sair rico no final.
Viver é saber trocar de carapuça quando o momento pede. O segredo é saber dançar conforme a música.
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