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Paulo Sampaio

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Fui estuprado mais de 30 vezes, diz vítima de 'agente de modelos' turco

Matheus Magalhães: do Mandaqui para Istambul, o pesadelo da falsa promessa de uma "carreira internacional de modelo" - Paulo Sampaio/UOL
Matheus Magalhães: do Mandaqui para Istambul, o pesadelo da falsa promessa de uma "carreira internacional de modelo" Imagem: Paulo Sampaio/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do TAB

15/04/2021 04h01

Até o final de 2018, o destino não havia contemplado Matheus Magalhães com nada que o empolgasse. Filho de uma diarista, terceiro de quatro irmãos — cada um de um pai —, ele estava com 18 anos e via seu sonho de cursar artes cênicas e/ou brilhar como modelo de passarela jazer em uma franquia do restaurante Pollo Loko, na qual era encarregado de serviços gerais. Ajudava na cozinha, limpava os banheiros e, quando o salão estava cheio, dava um apoio aos garçons.

Antes das 10h e depois das 18h, fora do horário do expediente, passava boa parte do tempo "fazendo contatos" nas redes sociais.

Em outubro daquele ano, aceitou o convite de um amigo de Facebook para bater um papo na cafeteria Starbucks do Shopping Metrô Tucuruvi, na zona norte de São Paulo. Homossexual e surdo, como Matheus, o homem dizia ser turco, chamar-se Fábio e ter 35 anos. Estava acompanhado de um casal de evangélicos surdos e mudos, que ele apresentou como seus sócios em um banco de investimentos. Citou um irmão que era proprietário de uma agência de modelos em Dubai, nos Emirados Árabes.

Aprisionado em uma rotina árida, consumido pela desesperança, Matheus vislumbrou ali o passaporte para uma carreira de sucesso no exterior. Não havia espaço para desconfiar da conversa do turco. "Tentei alertar meu filho, mas ele é cabeça dura. Queria ir em busca da felicidade, de novas emoções, eu não tive como segurá-lo", lembra Imaculada "Malu" Magalhães, 45, mãe de Matheus.

A carta de mãe, que Matheus levou na carteira para a Turquia - Reprodução/Arquivo Pessoal - Reprodução/Arquivo Pessoal
A carta de mãe, que Matheus levou na carteira para a Turquia
Imagem: Reprodução/Arquivo Pessoal

Quatro meses depois, em fevereiro de 2019, o aspirante a modelo embarcava com Fábio para Dubai, com escala em Istambul. O jovem nascido em Iguape, a 200 km de São Paulo, e criado no Mandaqui, na zona norte, afirma hoje que a viagem foi uma experiência transformadora — não necessariamente empolgante.

"Em quase três meses de tortura, fui estuprado mais de 30 vezes", diz Matheus, que mede 1,83 m, pesa 53 kg e tem uma compleição física franzina. Lânguido, pele alva, ele conta que só começou a falar aos dez anos — o que parece surpreendente, pela fluência que apresenta agora. "Os fonoaudiólogos acham incrível a rapidez com com que evoluí, depois que comecei a falar", diz. Nos raros momentos em que não se entende o que ele diz, Matheus explica que tem "sotaque". "Eu falo como gringo", ri. Em uma praça do Mandaqui, próxima da casa em que vive com o irmão mais novo e a mãe, ele conta como sobreviveu ao cárcere, à violência sexual e ao pânico. "Sinto que ainda vai levar tempo até que eu consiga me livrar das sequelas."

De repente, no check-in

O embarque em Cumbica, em 8 de fevereiro de 2019, trouxe a primeira revelação. No passaporte, o nome do "agente de modelos" agora era Omer Duman. Inexperiente em relação aos costumes turcos, Matheus acreditou que poderia ser a versão traduzida, ou "muçulmana", de "Fábio". "Em março [de 2021], eles me informaram na Polícia Federal que essa identidade [do documento] pode não ser a verdadeira, e que ainda não dava para saber quantas ele teria falsificado. Disseram que a divulgação do documento ajudaria na investigação."

O voo transcorreu com relativa tranquilidade, sem nada que antecipasse o que estava por vir. Assim que chegou ao hotel, em Istambul, exausto por causa do jet-lag, Matheus apagou. Ao despertar, nova surpresa. Seu passaporte e os únicos R$ 500 que levara na viagem haviam sido "confiscados". Fábio-Duman deu a desculpa de que os guardara como medida de segurança. "Para você não perder", disse. Em um gesto de carinho, aproximou-se do jovem, deu a ele uma "aliança de noivado" e o acariciou, sussurrando para que baixasse a calça. "Eu disse que faria qualquer coisa, mas aquilo não", lembra Matheus. Ao mesmo tempo em que elogiava a beleza do jovem, Omer o aterrorizava. "Ele dizia que, se eu não o deixasse 'fazer aquilo', me mataria. E também que acionaria os contatos dele no Brasil para dar fim a toda a minha família." Desde então, Matheus passou a ser violentado quase todos os dias.

Na volta da Turquia, Matheus denunciou Omer Duman na Polícia Federal e publicou a identidade dele em seu perfil no Instagram - Reprodução - Reprodução
Na volta da Turquia, Matheus denunciou Omer Duman na Polícia Federal e publicou a identidade dele em seu perfil no Instagram
Imagem: Reprodução

Um mudo falante

Se até desembarcar em seu país, Omer Duman se dizia surdo e mudo e se comunicava em libras (língua brasileira de sinais), em Istambul ele passou a falar fluentemente, em alto e bom som. Menos de uma semana depois da chegada, levou Matheus para a província de Antalia, um balneário turístico 700 km ao sul. Eles se hospedaram no apartamento de um casal da comunidade de surdos-mudos (parece um padrão), que Duman dizia ser seu parceiro nos negócios. Lá, apresentou o jovem como seu filho.

Omer Once (um homônimo) morava em um prédio habitado por toda a família da mulher, Ezgmi — a irmã dela, Ikbal, o cunhado, Mustafa, e os pais delas. Os dois hóspedes dormiam num sofá-cama instalado na sala; as refeições eram feitas no andar de baixo, onde moravam os pais de Ezgmi e Ikbal. Enquanto tudo só piorava, Matheus procurava esconder uma crise violenta de ansiedade. "Eu estava paralisado de medo, mas não podia demonstrar. Para fugir daquela situação, passava um tempão no banheiro. Ligava o chuveiro e ficava ali", conta.

Sua mãe, com quem falava diariamente pelo aplicativo WhatsApp, não sabia de nada. "Ele escondia a verdade de mim, acho que com vergonha", lembra Malu.

Promessas a esmo

Em conversa pelo aplicativo com a coluna, Mustafa Koçer, hoje ex-marido de Ikbal, conta que sua cunhada (Ezgmi) tornou-se amiga de Omer Duman pelo Facebook, e a partir daí convenceu a família a recebê-lo em casa. "Ela é muito crédula, acredita em qualquer conversa. Conheceu o próprio marido (Omer Once), de quem hoje é divorciada, na Internet. Omer Duman a seduziu com a promessa de arranjar um emprego para meu cunhado no Canadá."

Em um café em Istambul - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Em um café em Istambul
Imagem: Arquivo Pessoal

Uma noite, de passagem pela sala, Omer Once viu que o "pai" (Omer Duman) estava nu no sofá com o "filho". Matheus lembra: "Eles já estavam desconfiados de que havia algo estranho, e eu até pensei em me abrir com a família, mas não quis arriscar. Não sabia até que ponto ia a relação deles. Além disso o Omer [Fábio] não saía do meu lado um minuto. Me controlava o tempo todo."

As suspeitas da família acerca do visitante cresciam dia a dia, até que Omer Once teve a ideia de atrair Omer Duman para um passeio, enquanto os outros chamaram Matheus para uma conversa na cozinha. Ele acabou contando "tudo". "Eu achava que ia morrer de qualquer jeito. Estava certo que não voltaria de Dubai, para onde a gente ainda iria", lembra. Os anfitriões ficaram escandalizados com o relato.

Aproveitando a ausência de Omer Duman, Mustafá arrombou o cadeado da mala do estelionatário e revirou sua bagagem atrás do passaporte e do dinheiro de Matheus. Na volta do passeio, Duman foi confrontado pela família. "Eu estava muito alterado, berrava, e no fim o expulsei de casa", lembra Mustafá. Ele diz que ainda tentou localizar Omer Duman, para denunciá-lo, mas o perdeu de vista.

Final infeliz

Além de acolher Matheus por mais alguns dias, a família de Ezgmi e Ikbal bancou a passagem dele de volta para o Brasil e até hoje mantém contato. Apesar do desfecho relativamente apaziguador, o final da história está longe de ser feliz. Desde que desembarcou em São Paulo, Matheus tenta administrar as sequelas físicas e emocionais da trágica experiência. "Os exames para HIV e infecções sexualmente transmissíveis deram negativo", diz. Contudo, ele passou a tomar antidepressivos, para aplacar crises alternantes de depressão e ansiedade.

Quem prescreveu o medicamento foi o psiquiatra Wladimir Costa e Silva, 44, de Divinópolis (MG), que Matheus conheceu em um aplicativo de relacionamento. Os dois passaram um tempo juntos, mas o namoro não prosperou. "Tenho convicção, como médico, de que não é ético misturar o pessoal e o profissional, mas nesse caso, pela dificuldade de acesso dele, achei que o estaria ajudando", diz Wladimir.

A perspectiva de tornar-se ator e modelo voltou à estaca zero. Apesar de ter feito fotos e manter contato com algumas agências, Matheus ainda não recebeu convites de trabalho. Desde antes de ir para a Turquia, anuncia serviços de massagem em um site de acompanhantes. Diz que não conheceu Omer por ali, e sim pelas redes sociais. "Eu sei que muita gente vai me culpar, a partir dessa informação, mas o preconceito dessas pessoas não muda a violência da história."

Em 2019, enquanto aguardava algum convite publicitário, empregou-se como auxiliar administrativo em uma empresa de logística. Desde agosto de 2020, por causa da instabilidade emocional, está em licença médica não-remunerada. Wladimir assinou o atestado, com o diagnóstico de "depressão e transtorno de estresse pós-traumático". "Em determinado momento, ele passou a apresentar um comportamento dissociado da realidade. A mente opta por um modo econômico, de redução do campo da consciência, e deixa de registrar tudo o que acontece. Ele falou várias vezes em por fim à própria vida, o que me pareceu preocupante", diz o médico.

Em foto para o book de modelo - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Em foto para o book de modelo
Imagem: Arquivo Pessoal

Oferta recusável

Ao contrário do que se imaginava, Omer Duman não sumiu do mapa. Matheus conta que, pouco antes de deixar a Turquia, recebeu um telefonema de seu abusador, feito a partir do Brasil. "Ele ria na minha cara, disse que eu não me livraria tão fácil. Eu avisei que procuraria a Polícia Federal assim que desembarcasse em São Paulo. Ele desligou." Um tempo depois, Duman localizou Matheus em um aplicativo de relacionamento e mandou a foto do passaporte dele, para provar que não estava blefando. Ofereceu 20 mil euros para não ser denunciado na polícia.

"Nem por 1 milhão", afirma Matheus, que registrou queixa na delegacia de polícia da pessoa com deficiência e prestou depoimento na PF. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de SP, "a investigação preliminar apontou que havia indícios de crime de tráfico internacional de pessoas e, por isso, o caso foi encaminhado à Justiça Federal e à Polícia Federal". A assessoria da PF informa que "não comenta sobre eventuais investigações em andamento".

Jeová na causa

Pedindo para preservar sua identidade, os evangélicos que estavam com "Fábio" em seu primeiro encontro com Matheus dizem por WhatsApp que receberam ameaças de Omer, mas decidiram não prestar queixa. Acharam melhor aguardar a justiça divina. "Ele mentiu muito, infelizmente, levou nosso dinheiro, mas vai ajustar contas com Deus Jeová, que sabe o tempo certo para tudo."

Em duas horas de entrevista, Matheus pouco sorriu. Não faz um ano que ele passou a falar abertamente sobre o que aconteceu. "Eu me sentia culpado, me cobrava, e tinha muita vergonha", lembra. Pelo que conta, transformou todo o horror que viveu em tripla militância. No Instagram, onde tem cerca de 6 mil seguidores, posta textos de combate ao preconceito contra a comunidade LGBTQI+; contra pessoas com deficiência e contra a violência doméstica. "Recebo muitos ataques, mas agora eu não me deixo abater tão facilmente."