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Trombadas

As assombrações de Milton

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

25/03/2021 04h01

O senhor repara não, que aqui a conversa é assim mesmo, de picadinho. Chegou carro a gente precisa interromper.

-- Por favor, a Avenida das Américas?
-- Segue retão, próxima portaria. De nada, que é isso.

Mas onde nóis tava? Ah, sim, o corona. Duas coisas mudaram pra mim na pandemia. Uma, que eu raspei o bigode pela primeira vez em 68 anos de vida. Aproveitei a máscara e abusei experimentar. Ficou horrívi. Não gostei, a muié não gostou, os fio não gostaram, mas pronto: graças a Deus já tô o Milton Rodrigues de antes. A outra coisa, aí mais complicada, é a gente não poder mais cumprimentar ninguém. E de menino lá na minha terra, no norte do Paraná, eu aprendi que um aperto de mão vale mais que dinheiro. É dando a mão pro cara que você entende ele, se é confiávi, se não é, se é do bem ou se é do mal, se pode relaxar na presença dele, ou se deve ficar esperto. Agora sem aperto de mão como é que faz? Essa batidinha de punho fechado é que nem segurar em maçaneta de porta: frio, frio. A gente tá perdendo o contato com o ser humano, acho isso perigoso.

Comecei nesse serviço em 1988, o senhor faz as contas. Antes era ajudante de mecânico numa concessionária Chevrolet. Mas as costas não aguentaram e tive que arrumar outra coisa. Vim pra cá ser porteiro dos residencial. A vida não foi maravilhosa o tempo todo, mas até que tem sido generosa. Porque vou falar: eu fui rude, hein? Bebia demais. Tá pra mais de 20 anos que parei. Era alcoólico já. Me metia em briga, apanhava, batia. Ia pra casa todo doído, por fora e por dentro. Aí, no dia seguinte, pra diminuir as dor, bebia outra vez. Comecei muito novo, com uns nove, dez anos, junto com o cigarro. Achava bonito e pegava as bituca do meu pai pra fumar escondido no banheiro. De primeiro, gostava de caipirinha. Com o tempo caí na cachaça pura mesmo. A garrafa era igual meu RG, tava sempre comigo. A gente se divertia, sim, não vou mentir. Mas com aditivo em excesso diversão nem diversão é, é prejudicação. No fim, bebida é só perda: a gente perde o caráter, perde o respeito, perde a família, perde as amizade, perde o trabalho. O bêbado fica sem nada. Sempre tá errado e nunca quer dar razão pra ninguém. Até que um dia eu tive que dar razão pra minha muié, senão ia...

-- Diga, meu querido.
-- A rua Saúde, por gentileza?
-- Próxima direita. Fica à vontade.

... porque se eu não dou razão pra ela eu ia acabar no cemitério ou na rua, catando papelão. Um dia, depois que nóis brigou, assim de discutir, e o filho caçula ouviu e não parava de chorar, eu falei pra ela: tá bão, Aparecida, vou parar. E parei foi na opinião. Não teve médico, igreja, nem centro espírita. Dei a palavra e parei. No começo tremia, suava. Aí pegava as fôia que tinha, fôia de abacate, fôia de malva, de boldo, fazia um chá e bebia. Aos poucos pus a cabeça no lugar. Às vez eu passo num lugar, vejo o cara bebendo e penso: tá cheirando gostoso isso aí! Só não pode pôr a mão. Se meter a mão no copo já era. O ruim é que fiquei meio esquecido das coisa. A bebida estragou minha memória. Puxo serviço aqui de 12 horas direto e quase o tempo todo o rádio tá ligado na Kiss FM. Reconheço tudo as música que gosto, mas não consigo lembrar os nome dos cantor. Quero lembrar, eu tento, mas não vêm. Não, sertaneja não, que é isso! Eu gosto do rock. No meu radinho só toca rock e jogo do Curíntia.

Trombadas - Milton Rodrigues - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Ói, quando eu tô sentado aqui, quietinho, eu peço pra vir carro logo pra poder marcar as placa, indicar o caminho e ter o que fazer. É chato ficar sozinho sem fazer nada. Quanto mais carro entra e sai, mais depressa passa o tempo e mais rápido eu volto pra casa, que é a melhor parte do dia. Quando bato o portão é aquela festa dos neto: "O vô Bilto chegou! O vô Bilto chegou!" É uma alegria que nem cabe ni mim. Porque o senhor sabe que, ao contrário do que a turma diz por aí, o importante é nóis ter onde cair vivo. Morto pode cair em quarqué canto, que não faz diferença. Então, hoje em dia, o que eu mais penso é na hora de voltar pra casa.

Quando tô de folga trabaio em casa, na parte de pedreiro. Não é minha especialização, mas a vida pediu. Desde 2002 que nóis ergue nossa casinha, eu e a Dona Encrenca, tijolo por tijolo. Tem a parte de baixo, a parte do meio e, agora, a casa do meu filho em cima. Mas só compro material no fim de ano, quando tem caixinha dos morador aqui dos residencial. Casa de pobre é assim mesmo, difícil de terminar.

-- Milton, tem alguma caixa de papelão aí? Eu trouxe cabeça de peixe pra você dar pros bichinhos.
-- Tinha uma, mas a chuva de ontem moiô. A senhora pode me dar aqui que eu arrumo um lugar pra pôr. Brigado, deus abençoe.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Senhor vê: essa moradora traz comida pros quatis. Tem uma família inteira de quati aí na mata, com os fióti grandinho já. Não gosto de falar muito alto, porque se os peão de obra ouve eles quer pegar pra comer. Esses caras de obra come de tudo. Eu já aviso logo: tem câmera espaiada por todo canto, só de você pensar em pegar os bicho todo mundo fica sabendo. Não deixo, não. Tem quati, sagui, saruê, teiú, uns teiú que parece jacaré, de tão grande. Eu cuido deles. Cuido dos passarinho que cai do ninho também. Depois solto. O que mais peguei carinho, vamos dizer assim, foi um urubuzinho. Um morador achou caído no quintal dele e trouxe pra eu cuidar. Foi o único que dei nome. Era o Buiu. Seis meses tratando dele, alimentava com resto de carne que eu buscava no mercadinho. Quando fui soltar, ele não quis ir embora. Tive que espantar ele batendo o jornal no chão, fazendo barulho, até que ele voou. Ainda ficou um tempo nessa paineira aí da frente e então se foi de vez. Era bonitinho o Buiu.

É isso. E quando não tô cuidando dos bicho ou recebendo os carro, eu gosto de enfeitar a guarita. Tudo que o senhor tá vendo fui eu que pendurei. Retrovisor de caminhão, relógio, esse globo bonito de luz. O orelhão funcionava até outro dia. De que parte eu gosto mais? Hoje tô gostando mais desse crucifixo e dos bodoque que fiz com ramo de unha-de-gato. Lasquei no canivete, envernizei e taí. Às vez a turma quer comprar, eu falo "toma, pode levar, é presente".

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Mas tem morador que reclama. Acha meio bagunçado. Reclama principalmente daquelas duas bonequinhas. "Ah, Milton, você tá fazendo macumba, é?" Mas que macumba?! Bonequinha de plástico, não estorva ninguém. Só porque pintei uma de vermelho e outra de preto e meti uma ferradura na cabeça acham que é macumba. Né nada. Elas protege a mata. Não deixam ninguém derrubar as arvi como fizeram aí em cima. Que tristeza aquilo, senhor lembra? O tanto de caminhão de tronco que saiu daí, Deus do céu. E pra quê? Lotearam tudo e as casa que construíram vivem rachando, de tanto sol que pegam. A gente óia dali e pode vê: todas com ar-condicionado. Claro, sem arvi fica sem sombra e sem vento fresco. Reparou que não faz mais frio aqui? Antigamente, a gente trabaiava de noite e com a unha raspava a geada do chapéu. Faz anos que não tem geada. Até a chuva mudou. Antes chovia uma semana inteira sem parar. Agora é essas tempestade de dar medo e arrancar teiado. Vai dizer que não...

-- Bom dia, vou na rua Chile.
-- Sabe o caminho, né? Fica à vontade.

... vai dizer que não tem a ver com as arvi que tiraram? Fora os passarinho que sumiram. Não se vê mais picharro, não se vê mais anu-preto, coleirinha, tico-tico. Nem o joão-de-barro, que tinha de monte. E vou falar uma verdade pro senhor: nem as estrela a gente vê mais. Muito difícil. Antes essa Granja Viana tudo era um breu que dava gosto. Hoje iluminaram as rua, asfaltaram, mudou muito. Em noite sem lua ficava tão escuro que era difícil encontrar gente pra trabaiá aqui de madrugada. A turma tinha medo. Eu achava graça. É que na rua Sapê, toda terça-feira, passada meia-noite, aparecia uma bola de fogo lá. No chão mesmo. A gente mandava os menino fazer a ronda e eles passavam um rádio pra cá: "Ô, Milton, vem aqui ver um negócio". Era a bola de fogo. Não fazia maldade. A gente caminhava na direção dela, se aproximava de mansinho até que, puf!, desaparecia. Faz tempo que ninguém não vê a bola de fogo. Mas o índio ainda aparece. Tem um índio que vive na mata, o senhor sabe, né? Uma pessoa cabeluda, sem camisa e calça comprida. Dizem que é o espírito de um que se afogou no criador de rã que teve aí no passado. Exclusive um tempo atrás nóis ouviu barulho e entrou de farolete pra procurar. Fumo até lá embaixo e nada. Na volta, só escutava os passo dele atrás de nóis, só que tava invisívi.

De assombração é só isso mesmo, coisa pouca.

-- Milton, trouxe chá e açúcar.
-- Muito obrigado. Deus lhe pague.

Olhaí, hoje já não vou precisar rancá as fôia. Vai ter chá de saquinho.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Milton Rodrigues, 68 anos.

Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar — e ouço. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.