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Trombadas

As lágrimas bíblicas de Sensacional

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

09/09/2021 04h01

Ih, mano, minha vida é Star Wars seis episódios, por onde você quer começar? Eu escolho? Deixa ver. Vamos de O Retorno de Jedi, que é essa parada do meu apelido. Sensacional. Surgiu quando eu era era motoboy. Trabalhei 17 anos de entregador, a maior parte do tempo no China in Box. Entreguei pizza também. Eu chegava nas casas ou nos prédios, passava a maquininha de cartão e dava errado. Passava de novo, errado de novo. Um monte de entrega na caixa, a comida esfriando, e nada. O cliente perdendo a paciência. Mano, que sufoco. Até que dava certo.

— Opa! Passou! Sensacionaaaal!

Só que muitas vezes era o porteiro que recebia a entrega. Eu queria dizer alguma coisa legal pros porteiros. Guerreiros esses caras, hein, véio? Guerreiros. Mas dizer o quê? Bom apetite? Nem eram eles que iam comer. Então eu tocava o interfone e falava:

— China in Box apartamento 33. Sensacionaaaal.

Depois de um tempo, por incrível que pareça, era só me ver parando a moto que os caras já abriam o portão. Pum, sensacional, portão liberado. Aí pegou. Completamente sem querer. Fui usando e virou uma marca. Meus colegas motoqueiros, os porteiros, até a mãe da dona do China in Box, uma senhora de idade. Eu era o único entregador que ela conhecia pelo nome: "Cadê o Sensacional? O Sensacional já chegou? Chama o Sensacional pra mim". Pegou, véio. Não foi intencional. E o engraçado é que a palavra é grandinha, né? Sen-sa-cio-nal. Difícil de falar, mas sai fácil, a galera fala macio. E tem outra: apelido geralmente pega quando o cara não gosta, quando humilha a pessoa. Tipo "Aí, quatro-olho!", "Aí, bolinha!", "Aí, torto!". No meu caso não. Acho da hora. É sensacional ser Sensacional.

Aí notei também que o sensacional suaviza o cotidiano. Agora eu trabalho aqui nessa loja de equipamentos de som vintage, LPs e espaço pinball na região da Santa Ifigênia. De manhã eu dobro a esquina da General Osório e os seguranças da rua vão me cumprimentando:

— Bom dia, Sensacional.

— Como é que tá essa força, Sensacional?

— Fala, Sensacional, passa aí depois pra gente tomar um café.

TAB Trombadas - Sensacional - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Parece que só de falar a palavra os caras se sentem bem. Acho que tira um pouco do cansaço. Porque trampar nessa região do Centro é combate, né, sensacional? É Platoon todo dia. Campo minado. Puta abandono, ruínas. Do Arouche pra lá ainda se respira. Da Barão de Limeira pra cá só fezes de seres humanos. Eu até pensei numa campanha publicitária pra São Paulo, será que posso falar aqui? Sabe quando você vai pro Nordeste e traz uma lembrancinha? "Visitei Fortaleza e lembrei de você", tá escrito naqueles barquinhos, nas garrafinhas com areia colorida e tal. Então. Minha sugestão pra prefeitura de São Paulo é fazer a mesma coisa com um cocô no potinho. "Visitei São Paulo e lembrei de você", pum, sensacional, e o camarada leva um cocozinho de São Paulo pro seu ente querido. Sensacional.

Gostou, né, mano? Tá vendo como a expressão alivia? Tira a arrogância das coisas, mesmo em situação difícil. Com sensacional você nunca destrata ninguém, é um talismã, só traz coisas boas.

A conversa não tá legal? Você quer pular fora?
-- Brigado, sensacional. Tenho que ir, até outra hora.

Esqueceu o nome do cliente?
-- Bom dia, sensacional, tudo bem? O que vai ser hoje?

Nem o Darth Vader fica imune ao sensacional. Serve pra tudo e pra todos. Funciona com o mais humilde e com os artistas famosos que vêm na loja. O Luiz Schiavon, do RPM, o Edgar Scandurra, do Ira!, toda essa turminha boa dos anos 80. Acho que eles nem sabem meu nome. Pra dizer a verdade, hoje em dia só minha mulher me chama de Denilson. O patrão às vezes, mas aí a gente perde o nosso lance, nossa sintonia, tá ligado? A gente se entende melhor quando ele me chama de Sensacional e eu chamo ele de Caverna. Não consigo dizer "Ô, Carlos, um cliente quer saber se chegou o disco do Sandália de Prata". Porra, sem chance, né? Ele é o Caverna.

Aliás, sensacional, olha que fato incrível. Esses dias estávamos eu e o Caverna aqui depois de fechar a loja. Ele botou pra tocar esse disco do Sandália de Prata, que eu não conhecia. Foi lá, pá, faixa 1 do lado A, Maloqueiro Elegante. Qual a primeira palavra que o cantor me solta? A primeira primeiríssima. "Sensacional!" Te juro! No dia seguinte fiz um vídeo sobre o disco pra mandar pros clientes. Mas tive que pensar pra não repetir muito o sensacional, que sensacional demais também é chato, né, mano? Overdose de sensacional, já pensou? E tem mais, vou te dizer: não é porque eu uso a expressão sensacional que sou um ser humano perfeito. Ninguém é sensacional o tempo todo. Eu já tive meus dias de Luke Skywalker isolado nas montanhas geladas.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Pra contar essa parte a gente tem que passar pelo O Império Contra-Ataca. Aperte os cintos que o pilotou sumiu que a viagem é trepidante, sensacional. Eu nasci no Ipiranga e fui criado em Guarulhos. Minha mãe tinha 15 anos e mal consigo imaginar como deve ter sido assustador pra ela ser mãe tão nova. Fiquei com as tias, irmãs mais velhas dela. Do meu pai não sei nada. Mas do pai dele, meu avô, eu lembro. O seu Vargas. Nos finais de semana ele vinha e me levava no armazém pra comprar doce de abóbora, paçoquinha, maria-mole. Quando completei 18 anos, me mudei pra casa da minha avó materna, que vivia no Centro com o companheiro dela. Eu tinha tanta esperança. Mas o relacionamento com eles não foi legal. O velho vivia preso e minha avó, que também curtia umas coisinhas erradas, mandava jumbo pra ele com dinheiro escondido na dobra do saquinho de pão. Papillon, né, mano? Eu não gostava dos esquemas deles e minha avó não gostava que eu não gostava. Era dureza.

A única lembrança boa desse tempo é que uma das tias deixava uma cópia da chave de casa comigo pra eu ir lá ouvir meus discos no 3 em 1 dela. E quando pintou a MTV? Porra, que da hora. Videoclipes, Paralamas, Kid Abelha. Eu não estudei muito, né, mano. Oitava série. O pouco que eu sei aprendi vendo e ouvindo a cultura pop dos anos 80. Meu dinheiro só dava pros discos, nunca tive um som. Então essa tia me ajudava nisso, nunca vou esquecer. Valeu, tia, sensacional. Eu tinha uma namorada nessa época. Linda ela. Eu me achando o Tom Cruise de Top Gun e um dia, do nada, a mina chega assim pra mim:

— Denilson, meus pais não querem mais que a gente namore porque você é de família de traficante.

Sensacional, vou te dizer, hein. Golpe duro. Que porrada. Liguei pro meu amigo Magrão:

-- Cara, não tô aguentando a situação aqui, preciso sair fora.
-- Pode vir. Você fica na minha casa e trabalha comigo até se estabilizar.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

O Magrão tinha uma firma de cobrança na Major Sertório e me amparou. Puta anjo da guarda o Magrão. E assim começa meu longo período de 23 anos sem ver ninguém da minha família. Ninguém. Sobrevivência Mad Max. Eu precisava me afastar, dar esse tempo. Fui trabalhar com várias coisas. Fotógrafo de formatura. Entregador dos álbuns de fotos de formatura. Produzi camisetas com silk screen de banda de rock, que eu deixava pra vender em locadoras de filme. Porra, mano, locadora. Você lembra? Muito tempo depois, quando elas foram falindo e se desfazendo do acervo, como eu conhecia vários proprietários, comecei a comprar DVD por R$ 1. Cheguei a ter uns mil títulos em casa. Eu ia por gênero. Guerra. Pá! Quero ver tudo de guerra. Terror. Pum! Vou ver tudo de terror. Diretores. Tudo do Kubrick, tudo do Coppola, tudo do Spielberg.

Tenho dois preferidos. Contatos Imediatos de Terceiro Grau é um. Sensacional, você sabia que nesse filme o Spielberg quis estourar um vidro enorme na cena em que a nave-mãe toca aquela música? Tan-tan-tan-tan-taaan. Só que não estava previsto no orçamento e os caras ficaram regulando a grana. Aí ele disse: "Pode quebrar que eu pago do meu bolso". Olha que coisa. Às vezes, pra fazer bem feito, a gente precisa estourar uns vidros, né, sensacional? A cultura pop ensina a gente. O outro filme predileto, no meu entender o melhor de todos, meu campeão de audiência mesmo, é Poltergeist. Não é um filme de terror, mano. É um filme de família! O filme mais família que eu já vi. O que aquele pai e aquela mãe fazem pra defender os filhos das tretas, assombração e o cacete. Eu percebi isso aí. Que puta luta a deles. Pula na piscina com cadáver! Cade minha filha?! Eu quero a Carol Anne de volta! Devolvam a Carol Anne, seus demônios! O lugar da Carol Anne é com a gente! Não sei se essa era a mensagem do diretor, véio. Mas foi assim que eu entendi o filme. Tem aquela senhora baixinha também, a Tangina, meio espírita, que na hora do aperto dá o maior apoio pra família. Carol Anne, venha para a luz! Venha para a luz, Carol Anne! Eu garotão lá assistindo e vibrando:

— Puta que pariu! Isso que é família!

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Sensacional, você aceita uma água? Uma Coca-Cola? Eu vou tomar alguma coisa porque a saga entrará agora na fase Em Algum Lugar do Passado. Foi o seguinte: estava eu tocando a minha vida de motoboy, ok, sensacional, quando de repente aquela antiga namorada me acha no Facebook. Combinamos de trocar ideia e ela me deu mais detalhes de tudo o que aconteceu. Eu sempre achei estranho que ela tivesse tantos detalhes do que se passava na casa da minha avó. Sensacional, você não vai acreditar. Um cara que já tinha me roubado uma namorada antes encheu a cabeça dessa mina de bobagem. E ficou com ela também. Só que esse cara era o próprio O Poderoso Chefão, mano. O Poderoso Chefão! Só sei que nesse reencontro, palavra bonita, né?, reencontro, nesse reencontro a mina me pediu desculpas, mas não desculpei, não. Mandei ela pro inferno, que é onde devem ficar ex-namoradas desse tipo. Porra!

Fui puxando as tretas, ligando os acontecimentos, entendendo por que minha avó não gostava de mim e, semanas depois dessa notícia extraordinária, caí numa tristeza profunda. Ao mesmo tempo a mina passa meus contatos pras tias e a gente volta a se ver também. Foi bom porque pude me despedir da minha mãe no leito de morte. Mas no meio disso tudo eu lá desintegrando. Perdi 20 quilos em três meses. Meus amigos do China in Box achavam que eu estava com Aids. Eu chorava o dia inteirinho. Sensacional, você ficaria assustado com a quantidade de lágrimas que o corpo humano é capaz de produzir. O homem chora, viu. E sempre no banheiro, né? Que é no banheiro que a gente resolve as nossas paradas. Um dia, uma senhora de uma banca de jornal na Duque de Caxias bateu o olho em mim e falou:

— Você precisa parar de chorar, meu filho. Procure ajuda.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Ela nunca tinha me visto antes. Como podia saber? Foi meio Arquivo X esse negócio. Eu não entendia por que chorava tanto. Pensava assim, porra, mano, eu não derrubei um avião com 300 passageiros dentro. Não atropelei ninguém. Não tô passando fome. De onde vem esse dilúvio? Essas lágrimas bíblicas? Por que eu tô tão triste? Fui no clínico geral. Ele disse que era grave e me mandou pra terapia. Mas chegando lá a psicóloga era uma menina com idade pra ser minha filha, se eu tivesse tido filhos. Porra, mano, eu arrastando uma história de cangaceiro ducaralho, como é que ia me abrir com uma criança? Não consegui. Não rolou. Comecei a tomar remédio, sensacional. Hoje tô melhor. Espero não cair em mais nenhuma Cilada para Roger Rabbit da vida. Agora consegui o trampo dos sonhos, mexo com som, discos, não preciso mais me estrepar na moto. Tá tudo legal.

No começo do ano peguei covid. Fiquei trancado dez dias em casa. Não saía nem pra passear com o cachorro. Senti remorso de pensar nos meus amigos aqui na loja dando duro e eu lá sem fazer nada. Mas não tinha outro jeito. Revi alguns filmes e ouvi música. Foi nessa, aliás, que conheci Zizi Possi. Porque agora, com essas paradas de Spotify, o que tá indo pro lixo são os CDs. Ninguém quer mais. Tem lugar aqui no Centro que você compra quatro CDs por R$ 10. Eu vou completando a minha coleçãozinha. Tinha comprado esse da Zizi Possi e ainda não tinha escutado. Se chama Um Minuto Além. Botei pra tocar e, mano, o que é aquilo? Que voz maravilhosa. Que coisa doce. Passei a tarde inteira meio avoadão, tá ligado?, achando que a vida é boa. Nem parecia eu. A primeira música do CD, Caminhos de Sol, é uma canção de amor, romântica, mas tem um trecho que serve pra outras coisas, se a gente for pensar:

Nada resta, mas o fruto
Que se tem
É o bastante pra querer
Um minuto além

Sensacional, posso te pedir um favor? Você põe aí essa história da Zizi Possi? Quem sabe ela lê e aparece aqui na loja. Vem tanto artista aqui. Porra, mano, já pensou? Ela passa ali pela porta e "Boa tarde, gostaria de falar com o Sensacional". Véio, aí eu vou no cartório e mudo de nome. De Denilson pra Christopher Lambert, O Guerreiro Imortal. Porque se a Zizi Possi vem aqui eu não morro nunca mais.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Denilson Fernandes Vargas, 54 anos, o Sensacional

Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar — e ouço. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.