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Trombadas

O Jaçanã alinhavado de Manolo

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

24/02/2022 04h01

Xaçanã, Xaçanã?
Xaçanã, hein.
Ai, Xaçanã.

Isso aqui mudou muito. Perdeu aquela alegria que existia antes. Sim, sim, sim. Uh, muito mais alegre. Quando cheguei tinham acabado de tirar os trilhos do trem, que passavam aí na frente, mais ou menos onde agora é o meio da avenida. Por um tempo ficaram uns dormentes e, pra aqui e pra ali, vê?, o brejo. Com o tempo foram arrumando. Era 1967. Havia entón sete alfaiates no bairro, comigo oito. Só sobrei eu, pra o senhor ver como é que són as coisas. O povo daqui do Xaçanã podia ser analfabeto, mas era alegre, prestativo, trabalhador. Nunca que alguém me negava um "bom dia, seu Manolo", "boa tarde, seu Manolo". Eu acho que a vida de todo mundo por aí ficou muito solitária. Era completamente diferente.

Mas como o senhor disse que se chamam seus tios? Durvalino Calminha? Nón, nón conheço. Nenê? Nenê de quê? Carvalho. É, Carvalho pode ser. Edinho? Nón, também nón. Carlos Roberto, Nitinho? Nón. Acho que nón conheço nenhum. Mas se eram moços no fim dos anos 60 e começo dos 70 é certo que fiz calça boca de sino pra eles. Fiz pra muita gente. Foi como formei a minha clientela no Xaçanã. Era tanta gente, mas tanta gente querendo boca de sino que todos os dias formava uma fila enorme na porta pra eu tirar as medidas. Entón eu trabalhava até onze da noite, senón nón dava conta das encomendas. Tranquilo, muito tranquilo. O Xaçanã era mais sossegado e fresco que hoje. Soprava uma brisa da Cantareira que refrescava tudo e revigorava a gente. Nón fazia esse calorón.

Eu vim da Espanha em 1954. Vim porque, se ficasse, ia perder dois anos da minha vida no Exército. Chantada, Galícia. Tenho um mapa bem ali na parede, o senhor pode olhar. Eu já trabalhava de alfaiate, embora meu desejo fosse ser mecânico de automóveis. A família me desaconselhou. Disseram que era uma profissón com suxeira, que eu procurasse outra mais limpa. Entón estudei pra alfaiate e nunca fui outra coisa. Àquela altura, com 21 anos, eu pensei: se vou ter que fechar a alfaiataria, entregar o ponto, perder os clientes, pra recomeçar do zero quando sair do Exército, é melhor ir embora. Vim de navio, 13 dias. Desci em Santos e fui primeiro no Bom Retiro trabalhar em indústria de confecçón. Ali conheci a minha esposa, tive meus dois filhos e depois de uns anos apareceu a chance de trabalhar por minha conta. O antigo dono da alfaiataria aqui tinha morrido e a viúva queria vender as coisas. Se chamava Alfaiataria Pauliceia. Eu nón sabia nada do Xaçanã. Comprei o ponto com tudo dentro: as tesouras, as máquinas, os tecidos. No começo eu vinha e voltava pro bairro da Luz, porque morava lá. Mas fui gostando do Xaçanã, da gente do Xaçanã, da alegria, o jeito de cidade pequena, que achei melhor viver aqui de uma vez.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Faz 55 anos. Da minha gaiola, que continua igualzinha do primeiro dia que vim trabalhar, eu acompanho as mudanças todas. É bom, sim. Se fico nesta posiçón no balcón, pela porta eu vejo as transformações do Xaçanã. E pelo espelho, aquele espelho atrás do senhor, eu vejo as minhas. Ah, claro que sim. Quem não muda? Estou com 89. Sim, forte que nem xeléia. Mas, olhando bem, se nota que encolhi um pouco, perdi uns poucos cabelos e muitos amigos. Só o Antônio, meu parceiro de pescaria no Pantanal, ainda vem de vez em quando conversar.

Dos clientes bons mantenho dois ou três, já que nesse ramo não há reposição de freguês: a nova geração prefere comprar roupa pronta. A maior parte do serviço agora é conserto: uma bainha, um ajuste, esse tipo de coisa. Mudou muito. Até o porte da freguesia mudou. O corpo das pessoas. E posso provar com a fita métrica, se o senhor quiser. No começo a gente era mais magra e reta. Hoje é mais barriguda e corcunda.

Mudança maior foi aí fora mesmo. Quando cheguei no Xaçanã tinha um asilo de velhos, um hospital de loucos, outro de tuberculosos, duas igrejas, dois campinhos de futebol, uns três salón de baile, muitos bares e muitas fábricas: fábrica de eixo de caminhão, de calcinhas para senhoras, de cadeados, de tijolos. Parece que havia até uma professora de piano, mas essa eu nunca soube onde ficava. As maiores mudanças foram três. O asilo, que ocupava todo o quarterón, vendeu um pedaçón do terreno pra uma lanchonete e um supermercado, e nisso foi embora o espaço dos velórios. Praticamente todo mundo que morria no Xaçanã era velado naquela partezinha do asilo, agora nón sei como fazem. Melhor nem saber. Num dos campos de futebol também construíram supermercado. O outro continua, mas cercaram com tela e puseram grama de plástico. Nón é mais aquele terrón vermelho. É. As coisas mudam mesmo.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Veja os prédios altos. De pouquinho em pouquinho eles vão aparecendo. Por muitos anos só existiu um, aquele perto da rua da Virgem, o senhor lembra? Era ponto de referência do Xaçanã. A turma dizia "naquela loja perto do prédio", "fulano mora no prédio", "a oficina três casas pra lá do prédio" e toda gente sabia onde era, porque era o único prédio alto. Depois fechou a fábrica de sapatos, implodiram a construçón, e subiram prédios ali também. Nesse caso foi ruim, porque com a fábrica de sapatos se foi o apito que avisava da hora do almoço. Era pros operários, mas quem não trabalhava lá podia regular o dia pelo apito, que se ouvia de qualquer lugar. Às vezes você perdia a noçón do tempo e entón o apito da fábrica alertava: 11h45, hora de parar pra comer alguma coisa e descansar um pouquinho.

Por falar em prédio e comida, teve uma grande mudança que foram esses prédios aí da frente, onde antes ficavam umas casinhas, um colégio particular e, entre outras coisas, o bar do português da sardinha. Daqui eu sentia o cheiro da sardinha assada dele. Um espetáculo. Mas aí ergueram os prédios, com lojas no térreo, e montaram uma padaria excelente na frente. Outro dia meu filho veio me ver e nós fomos lá tomar um café. Excelente o café. O pãozinho também muito bom. E melhor ainda a coxinha. Uma maravilha, o senhor precisa ir lá provar. Eu fiquei espantado com a qualidade. Uma mudança e tanto, nón é? Quem podia imaginar que uma coxinha que nem essa no Xaçanã? Nunca.

Só que pra dar lugar aos prédios demoliram o colégio, o bar do português das sardinhas, as casinhas e o comércio do Adón. O senhor conheceu o Adón? Eu sempre achei o Adón um bom representante da transformaçón do Xaçanã. Ele começou com um negócio de compra e venda de caminhón. Era um terreno grande. No meio do pátio ele cavou um buraco e pôs um leitón dentro. No final do ano abatia o leitón pro Natal. Mas aí ele desmanchou o negócio de caminhón e fez um restaurante. Nón deu certo. Ele transformou em sacolón. Também nón deu certo. O Adón foi contraindo dívida, dívida, nón sei no que mais se meteu, até que mataram ele dentro de casa. Quer dizer: o Xaçanã nón era mais um lugar fresco e sossegado. Estava ficando quente.

Antes disso eu mesmo vivi uma experiência de violência no Xaçanã, mas não teve morte. Foi assalto. Eu tinha acabado de comprar um Fuscón zero e estacionava ele bem aí na frente da alfaiataria. Entraram três homens, um deles tão grande, mas tão alto, que só de erguer o braço assim ele baixou a porta de aço. Queriam a chave do meu Fuscón. Eu dei. De todo modo me amarraram, me amordaçaram e levaram o dinheiro do caixa, umas calças que eu tinha feito e as amostras de tecido. O pior veio dois dias depois, quando a polícia chegou e um investigador me chamou pra fora. "O senhor reconhece esses aí?" Dois dos assaltantes que me atacaram estavam dentro da viatura. Mas eu disse "nón, senhor, nón foram esses nón". Sou besta? Eles podiam ser soltos e voltar pra se vingar de mim.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Só que nón teve jeito. O investigador me mandou ir na delegacia, identificar os ladrón através do vidro espelhado. Aí eu confirmei que eram eles. E entón aquilo me desestabilizou. É o grande trauma da minha vida. Eu não conseguia dormir. Por qualquer barulhinho pulava da cama, só pensava que eles me matariam por vingança. Foi um problema tão grande pra mim que, o senhor chegue aqui mais perto que preciso falar baixo, que mexeu até com a minha vida sexual. Eu nón conseguia mais. Levei meses pra me recuperar.

Foi um período muito difícil, mais difícil que fazer uma boa manga de paletó. Porque, o senhor sabe, nón é?, a manga do paletó é uma coisa impossível: um canudo de pano, que é um material mole, mas que não pode ter prega, dobra nenhuma, pra ficar perfeita. E nón existe manga de paletó mais ou menos. Ou é perfeita ou uma porcaria. Entón, a coisa do assalto, com aquelas consequências, foi único desgosto que eu tive no Xaçanã até hoje. Tirando isso, o resto está sendo muito bom.

Nón, o pássaro Xaçanã eu nunca vi. Ao vivo, nón. Só nos uniformes da garotada de uma das escolas do bairro, o CEPEF, que fica atrás da igreja, ao lado do antigo manicômio. Hoje em dia nón é assim, as pessoas vão pra escola vestidas de qualquer jeito, mas antigamente os estudantes usavam um avental branco com um bolso costurado e nesse bolso era pintado o símbolo do colégio: uma tocha, uma pira, e no centro dela havia o desenho de um pássaro Xaçanã. Parece um flamingo, nón é?, só que mais pequeno. Eu nem sei se ele existe de verdade. Acho que nón. Deve ser imaginação da gente daqui.

Mas é. Ai, Xaçanã, Xaçanã.

Dói no senhor também?

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Manolo Blanco, 89 anos

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro -- é fundamental parar -- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.