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Trombadas

O limoeiro no asfalto de Lúcia

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

07/04/2022 04h01

Bom dia, meu bem. Bom dia. Vamos levando. Aqui? Aqui é Vila Germinal. Isso: Germinal. Pra li fica a Vila Galvão, Guarulhos. Pra cá Vila Mazzei. Cheio de vila desses lados. Mas essa aqui é a Vila Germinal, onde germina o bem o mal. Hahahahahaha. Gostou? Ouvi essa um dia do meu amigo Jorge e puxei pra mim. Hahahaha. Haha ai, ai, ai. Ô Jesus, creiemdeuspai! Ai. Ui. Não se preocupa que essa tosse é antiga. Não é covid não. É cigarro.

As plantinhas? Tudo de reciclagem. A vizinhança se desfaz e a boba aqui pega pra enfeitar a rua, já que é sem saída, não passa carro mesmo. Tem reciclagem de três tipos aí. Primeiro, a pessoa que mora em casa térrea muda pra apartamento e me traz:

-- Ô, Lúcia, você fica com esse vasinho? Não tenho mais espaço.
-- Claro, meu bem, pode pôr aí?

TAB Trombadas - Lúcia Maria da Silva - Christian Carvalho Cruz/UOL - Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

O segundo tipo é a pessoa que sai de férias, vai pra Ocian, Itanhaém, Mongaguá, aquelas bandas de lá, e traz a plantinha pra eu aguar. Só que não volta pra buscar. Fica aí também. E o terceiro é o que eu não consigo entender o que se passa na cabeça. Cimenta o quintal, bota umas lajotas horroríveis, que é horroroso com horrível, e fica sem espaço pra planta:

-- Ai, Lúcia, terra em casa faz tanta sujeira.
-- Tá bom, limpezinha, deixa aí que eu cuido.

Você compreende essas coisas? Nem eu.

A minha preferida? Acho que hoje tô preferindo o pé de limoeiro. Esse aqui, venha ver. Agora não lembro como ele veio pra mim, mas a mudinha ficou um tempão no vaso. Aí um dia a Sabesp abriu a rua pra mexer no cano de esgoto e não fechou direito, pra variar. Ficou um torrãozinho de terra. Eu olhei pro pé de limoeiro e falei: "Quer saber, meu bem? Eu vou te plantar no asfalto". Mas logo as formigas atacaram e ele ficou fraquinho. Eu chegava de manhã, o coitado me olhava com aquela cara conformada e me dizia "Tá bom, Lúcia, tá bom, eu fico".

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Claro, ué, todas falam comigo. Nem preciso perguntar nada, elas leem a minha mente. "Ô, Lúcia, não desanime, menina", eu ouço da renda portuguesa, bem baixinho. "Não fique triste, Lúcia, logo as coisas melhoram", diz às vezes a arvorezinha da felicidade. Aí vem a arruda e "Calma, Lúcia, vai passar. Sempre passa". Da mais forte até a mais murchinha, todas conversam comigo. A gente se ajuda, porque o local aqui é dureza. Muita formiga. As formigas não dão sossego. Se a gente amolece, se a gente não resiste, elas tomam conta, acabam com tudo da noite pro dia. Tô falando de formiga-formiga e de formiga-gente também, tá bom? Sim, senhor. O que tem de formiga-gente querendo me botar pra correr daqui? Ah, você nem imagina.

Eu vim pra cá em 1996. Aí na frente era uma distribuidora de refrigerante. Eu montava minha barraquinha de pastel na porta e vendia pros funcionários. Depois comecei a oferecer PF. Mais adiante completei com cafezinho preto de manhã, quando o pessoal chegava pro serviço, e uma cachacinha à tarde, no final do expediente. Eu tirava a minha sobrevivência desse trabalho. E ainda tiro. Hoje caiu muito, porque agora tem refeitório, máquina de café e até almoço por aplicativo os funcionários pedem. Ficou mais a cachacinha mesmo. Mas antigamente eu montava a barraca na rua, porque nesse canto que estou hoje com o trailerzinho era lugar de descarte de entulho. Lixo, vaso sanitário, resto de obra, poda de árvore, cãozinho morto, jogavam de tudo. Um dia juntei uns meninos, limpamos e me finquei. Foi aí que começaram as formigas. Vinha formiga da polícia, formiga da prefeitura, formiga de construtora de prédio, que é o pior tipo, deusmelivre. Chutei, fui chutada, paguei multa, saí e voltei não sei quantas vezes. E tô aqui. Acho que eles cansaram. Eu não. Não posso, não tenho essa opção. É o meu sustento. Então eu brigo.

Hoje minha situação é indefinida. Parou no tempo e no espaço. Tô que nem a lua: flutuando. A distribuidora de refrigerante mudou de dono e virou empresa de autopeças. Eu fui aparando o mato, plantando uma coisinha aqui e ali, tentando deixar mais agradável. Porque é agradável. Olha em volta. Parece que a gente tá em São Paulo? Tem morro, tem pica-pau, tem sagui, tem gambá, e não tem prédio. Parece uma chácara. É gostoso aqui. Tem até riacho. Pena que tá nesse estado. Dizem que no passado dava peixe e tudo, não sei. Quando cheguei já tava mortinho. Mas ainda serve pra gente ouvir o barulhinho gostoso dele, pra juntar pernilongo e pra fazer a previsão do tempo. Você ri? É verdade. Se eu chego de manhã e o riacho tá fedido é sinal de que à tarde vai chover. Te juro. Depois vêm a moça da previsão do tempo na televisão e confirma tudinho. O riacho não falha.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Mas aí foi isso. Acho que as formigas perceberam que não sou mulher de arregar e que, no fim das contas, eu mais ajudo que atrapalho. Pra você ver uma coisa: de tanto que eu encho o saco do patrão novo da empresa ele colabora com algumas melhorias. Até mandou fazer uma calçadinha e iluminou essa parte dos fundos. Tá vendo? Agora a criançada pode cortar caminho pra escola, os jovens passam de noite na volta da faculdade e os velhinhos que fazem caminhada não se esborracham mais no chão. Mas ainda tá meio feio. Meu sonho era que uns meninos desses que pintam com tinta spray viessem fazer uns desenhos bem bonitos no muro. O dono da empresa já autorizou, falta os meninos aparecerem.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Que mais você quer saber, meu bem? Maior perrengue da minha vida? Bom, é sempre o mesmo de segunda a domingo, não muda: procurar um real na carteira e não achar. Quer perrengue maior que esse? Hoje, pra não mentir pra você, tenho 8 reais. Dá pro ônibus. Ih, amanhã tá longe, até lá deus abençoa e eu levanto mais algum, se preocupe não. Lógico que eu gostaria que sobrasse, cê tá besta? Eu ia comprar um vestido bem elegante e fazer escova no cabelo aos sábados, pra ir bonita à missa no domingo. E ia também voltar a comer um contrafilezinho, né?, que já faz tempo e tô quase esquecendo o gosto. Mas como é que a gente vai reclamar? Pelo menos pro pão com manteiga não falta. E vejo um tanto de gente nessa Vila Germinal sem nem o pãozinho com manteiga. Na pandemia, como eu conheço todo mundo e todo mundo me conhece, o dono da empresa me encarregou de distribuir cesta básica pra vizinhança. Mas era tanta gente que vinha que eu precisava abrir as cestas e repartir as coisas, senão não conseguia atender todo mundo. Feijão pra um, arroz pro outro. Sal pra esse, óleo praquele. Muito triste. No meu caso, quando aperta eu peço ajuda pro Amadeu: "Ô, meu amigo, me empresta cenzão pro mercado? Te devolvo dia 10". Aí o Amadeu me socorre.

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Amadeu
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

O Amadeu é cadeirante e passa o dia aqui comigo. Chega umas onze horas, eu dou o café da manhã dele, depois o almoço, o lanchinho da tarde. Ele joga dominó e conversa fora, vê televisão, toma uma batidinha e às cinco volta pra casa. Um bom amigo. Me paga um extra pra cuidar da roupa dele. Mas bem pouquinho, só uns cruzeiros, por que quanto você acha que um aposentado com salário mínimo recebe? Dá não, né, Amadeu?

— Dá não.

Sou só eu mesma. Não casei nem tive filhos. E a família ficou em Janaúba, norte de Minas. A lembrança mais forte que eu tenho de lá é de meus parentes brigando por causa de terra. Pode um negócio desse? Brigar por terra? Que nem vai dentro do caixão, vai por cima. Eu sou da opinião que a gente só deve brigar por coisas que dá pra levar pro outro lado. Felicidade, tranquilidade, ajuda ao próximo, paz, essas coisas que a gente sabe que existe mas não dá pra pegar com a mão. Falando nisso, de Janaúba lembro também de minha bisa. Pessoa muito boa. Quando ela ficou doente, de cama, ninguém tinha coragem de dar banho nela. Eu era bem menina e cuidava de tudo sozinha. Com carinho e amor. Aí ela morreu e fui eu que preparei o corpo. Ela foi bonita e cheirosa, muito serena. Tempos mais tarde, já em São Paulo, cuidei de um vizinho que morreu sentado na privada, coitado. Dei banho, escolhi a camisa mais bonita que ele tinha, penteei, cortei as unhas, deixei tudo certinho e fui pra sala falar com a viúva: "A senhora me vê um cafezinho pra eu fumar um cigarro?" Nunca tive problema com a morte não. Porque eu sei que depois fica melhor.

Como eu gostaria de morrer? Mas cada pergunta, hein, meu bem? Bom, eu já falei que quando chegar minha hora eu quero morrer sentada aqui mesmo. Dou tchau pros amigos e vou. Nada desse negócio de morrer dormindo em casa. Eu já moro sozinha. Vivo sozinha. Saio sozinha. Trabalho sozinha. Chega. Na morte eu quero morrer com todo mundo vendo. No fundo todo mundo é sozinho, né? O ser humano é um ser sozinho. Enquanto não nasce, enquanto tá na barriga da mãe, ainda tem alguém, mas pulou pra fora, caiu no mundo, tá sozinho. É assim com todo mundo. Olha quem vem lá! Meu amigo Jorge! Falei dele pra você agorinha, não foi? Ô, Jorge, estou dando entrevista. Você acha que vou virar artista?

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

-- Você já é artista, Lu.
-- Ai, Jorge. Uma cervejinha?
-- Brigado, Lu. Hoje vou de pastel e caldo de cana.
-- Vou buscar.

— Mas qual a sua graça, meu querido? Ah, tá, UOL. Tô ligado. Prazer, Jorge. Então, essa mulher é fera, batalhadora. E esse pedacinho dela aqui é uma referência pra nós. A gente vem jogar dominó, xadrez, tomar um trago, se ver, saber dos amigos, conversar. Se não fosse ela não existia mais isso, porque tem cada vez menos botequim no bairro. E a Lúcia mantém um ambiente de respeito, não deixa chegar pó, pedra, essas coisas. Mesmo o pessoal da manguaça, aquele mais comprometido com o álcool, mesmo essa galera, se exagera, ela briga, se impõe. Pra você ver. Eu sou da Tijuca, no Rio. Casei e minha companheira já vivia aqui. Quando eu vim pela primeira vez achei parecido com o meu território lá no Rio. Esse ar de vila, de comunidade. Agora eu tô ingressando no Uber, mas sou assistente social e mesmo aposentado decidi ficar aqui. É um lugar legal. A Lúcia é a resistência desse modo de vida nosso, sacou? As coisas que o tal progresso atropela. Aqui pelo menos ela segura as pontas pra nós. Não é, Lu? Tô dizendo pra ele que você não deixa as coisas virarem zona não.

— Ah, meu bem, e sou calma, mas se pisar no meu calo eu viro Jiraya.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

— Mas é da paz também, né, Lu? Se não fosse o que aquela pomba branca ia estar fazendo ali tão sossegada? Dá uma olhada. Aliás, tá bonita essa raiz, hein? Que árvore é essa? Foi você que plantou também?

— Não, essa quando eu cheguei já tava aí. Pequeninha, não tinha nem metade dessa altura. Cresceu pra chuchu. Dizem que é fícus, mas não posso provar. Mas pela força da raiz se vê que tá fincada aqui que nem eu. E se o fícus ficas, eu também fico.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Lúcia Maria da Silva, "a idade você pode pôr 200 anos, que é como eu tô me sentindo hoje"

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro — é fundamental parar —- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.