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Trombadas

O pecado peçonhento de Beto

Christian Carvalho Cruz/UOL
Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL
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Christian Carvalho Cruz

Christian Carvalho Cruz nasceu no Jaçanã, em São Paulo. É jornalista, trabalhou nas revistas Placar, Quatro Rodas, Época Negócios, no portal Pelé.Net, nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, entre outros. É autor do livro ?Entretanto foi Assim que Aconteceu? (ed. Arquipélago Editorial), criador do projeto Trombadas e militante da revista eletrônica "Grama - O Futebol Utópico".

Colunista do TAB

21/04/2022 04h01

Naquele dia em que a cascavel me pegou eu não tinha o veneno da ira dentro de mim. E nem sabia que era capaz de ter. Pra dizer as verdades, eu não tinha quase nada e sabia ainda menos. Um menino de 12 anos? Nessa idade o balaio da gente carrega pouca coisa dentro. Se eu já fosse mais crescido ia conhecer os descaminhos da vida, principalmente nas partes do sentimento. Ia saber que uma atitude leva a outra, depois a outra e mais outra, até desaguar nesse aperto no peito que não tem arrependimento que faça ele ir embora. Mas eu era inocente. Não tinha malícia. Nem sapato eu conhecia. Corria aqueles pastos todos de sola descalça e achava que era assim. Foi aí que a danada pulou no meu calcanhar.

Eu ia indo pelo trio levar a boia do meu irmão mais velho, que tava no serviço de destocar mato no morro. Antes de mim tinham passado uns bois por aquele caminhozinho fino e eu acho que o tropel deles assanhou a maldita. Quando deu a minha vez de cruzar, tchum!, senti um bolo gelado agarrar no pé. Gritei de susto. Só que não senti dor nem vi ferida. A cobra escorregou pra debaixo do cupinzeiro e eu segui pelo trio até encontrar meu irmão. Cheguei e ele foi logo perguntando:

-- Por que você gritou?
-- A cascavel pulou em mim e eu assustei. Mas acho que não mordeu não.
-- Onde foi?! Deixa eu ver?!

Aí, nessa hora, eu notei dois pontinhos miudinhos de sangue bem aqui onde o pé junta com a perna. Meu irmão largou a marmita e pegou a foice. Os olhos dele aumentaram do tamanho igual fundo de garrafão de pinga:

— Corre pra casa! Da porteira você já grita avisando que a cascavel te pegou, que é pro pai e a mãe acudirem. Eu vou atrás do bicho, pra ele não pular em mais ninguém, e sigo depois.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Caminhei meia hora de volta pra nossa casa. Quando bati na porteira, o pai e a mãe colhiam urucum. Até ali eu me sentia bem, mas foi só ver o desespero deles que eu desesperei também. O veneno da cobra subiu do pé pra cabeça e eu ceguei na hora. A visão apagou todinha. Eu reconhecia a fala da mãe, do pai, das irmãs, mas só via escuridão. Nessa época, a gente meiava terra na Fazenda Mundo Velho, que fica 24 quilômetros longe da cidade de Rio Vermelho, norte de Minas. Seis horas de a pé, por isso só dava pra ir uma vez no ano, na festa da Paixão de Cristo. A distância era muita. Tanto que, eu ali na minha cegueira, ouvi um vizinho falar: "Não dá tempo de chegar na cidade, leva o menino pro Siriveste Coelho".

O Siriveste era um senhor conhecedor que curava com raiz, benzia, tratava de gente e de criação naquele Mundo Velho inteirinho. De adulto e de bebê de colo, ele tirava bucho virado, cansaço, gripe, choro comprido e aflição. De animal, destorcia pata e tirava bicheira. Aproximava a mão do lombo, fazia silêncio, cabeça baixa, olho fechado, e a gente via os vermes pulando pra fora e depois a ferida fechando. Parecia mágica, só vendo pra acreditar. Ô se vi. Muitas vezes. Vi também o Siriveste matar cobra à distância, que era a especialidade dele. Matava sem sair de casa. Você só contava pra ele onde estava a bicha e qual era o tipo, se cascavel, jararaca, urutu-cruzeiro, tinha que saber o tipo, senão não dava certo. Aí ele rezava as rezas, abanava uma fumaça e você podia ir lá conferir: a maldita mortinha como se tivesse sido matada pela mão de alguém. Depois o Siriveste se meteu com mulher casada e o marido chifrudo tocaiou ele, coitado.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Mas não me levaram até ele não. Uma das irmãs viu que tinha um carro parado nas terras do vizinho e correu lá pedir socorro. Aí foi uma fieira de milagres. O dono do carro tinha acabado de comprar o sítio e ido lá pela primeira vez pra inspecionar. Nunca que tinha carro naquele Mundo Velho. Nesse dia tinha. O moço levou a gente pro Rio Vermelho e, quando contornou a praça, o médico tava indo embora. Era sexta-feira. Ele tinha encerrado a semana e ia se recolher na fazenda dele, noutro município. Mas o moço foi atrás e falou do ocorrido. Minha visão apagada ainda, sem ver nadinha. Só ouvi a conversa do doutor com o pai:

-- Por que o senhor esperou o menino morrer pra me trazer?
-- Mas nós viemos o mais rápido que deus permitiu.
-- Vai entrando com ele e vamos ver se dá pra salvar.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Ano passado eu fui passear em Rio Vermelho e deparei com esse médico lá. Bem velhinho, a cabeça toda branca. Ele me olhou, eu olhei ele e acho que nós dois pensamos a mesma coisa na mesma hora: "Você tá vivo ainda?" É o que é: eu vivi porque o doutor me tacou soro madrugada adentro. Meu sangue já tinha coalhado por causa do veneno da cascavel, e foi o soro que fez ele enralecer de novo e me permitiu viver. Fiquei dias no hospital fazendo xixi de sangue, cuspindo sangue, botando sangue por tudo que é buraco do corpo. No fim, recuperei a visão e voltei pra casa.

Mas aí eu tinha mudado. O veneno da lazarenta me alterou de dentro pra fora. Hoje eu penso que, se pelo menos tivessem me levado no Siriveste Coelho depois do hospital, talvez fosse de outro jeito. Porque eu sempre fui calmo, nunca quis o mal de ninguém. Tinha medo do pai. Quando ele falava com a gente, só aceitava uma resposta e não eram duas: "Sim, senhor". Mas eu comecei a achar ruim aquela vida de trabalhar, trabalhar, trabalhar e não ter nada. Eu queria ter um cavalo. Era o meu sonho. Aos domingos eu jogava bola e tinha que andar duas horas pra chegar no campo. Já chegava cansado. E zagueiro cansado não serve de nada. Então eu queria ter um cavalo. Aí, quando fiz 14 anos, desafiei o pai e fui trabalhar de empreitada numa cidade chamada Glória. Ele não gostou, porque eram duas mãos a menos pra botar comida na nossa mesa. Nenhum dos meus irmãos tinha saído de casa. Eu saí mesmo assim. O serviço era de bater pasto pra gado leiteiro. Propriedade grande, enorme, pertencente ao Luís Glória. Ele era tão rico e tinha tanto poder que a cidade levava o nome dele. Eu olhava de cima do morro e via aquelas manchas dos bois divididos por cor. Até mais parecia um tabuleiro de jogo de dama: aqui a manga dos bois brancos, ali a manga dos bois pretos, depois só boi marrom e por último boi pedrês. Era muito boi.

Lá em Glória eu era o mais novo no meio de uns 80 peões. A gente se abrigava do sereno num barracão sem luz, sem água e sem cama. Dormia em cima de papelão, se banhava na cachoeira e o banheiro era no mato. Às vezes um caboclo chegava bêbado de noite, outro mandava aquietar, o primeiro reclamava, aí xingava a mãe daqui, atiçava dali e pronto. Eu fingia que dormia e rezava. Meu medo era os caras se fecharem na foice ali dentro e não ter por onde sair, porque a porta era uma só. Bom, apesar de tudo eu consegui fazer um dinheirinho. Voltei pra casa, comprei cavalo, sela novinha e até os enfeites: chapéu, botina, calça comprida e uma garrucha que nunca viu bala — era só pra pôr na cinta e se sentir feliz.

Aquele cavalo foi a minha libertação. Com ele eu ia aonde queria e além: eu passei a saber que podia mais coisa. Quando completei 18 anos vim pra São Paulo, de novo contra a vontade do pai. Mas vim. E desde então eu trabalho de caseiro, pedreiro, piscineiro, jardineiro nessa região da Granja Viana, Cotia, Jandira, Carapicuíba. Faço de tudo, mas gostar eu gosto mesmo é de cuidar de canteiro de flor, porque penso na minha esposa e nas minhas irmãs enquanto trabalho. Foi assim que eu construí a minha vida. Casei, tive filhos, comprei carro, terreno, fiz uma casa e uns amigos. Tudo ia indo direitinho até uma tarde em que o veneno da ira me pegou.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Fazia dias que eu dava umas horas no meu terreno, passando um dreno pra água da chuva que escorria da casa do vizinho. Ele, que devia me ajudar, porque o problema era dele também, não: arrancou uns pés de helicônia e largou tudo lá onde eu mexia. Eu vi aquilo e fiquei brabo, mas calei. Busquei o facão dentro de casa e me pus a cortar as folhas, pra ensacar e tirar dali. Nisso o vizinho chegou e veio debochar de mim:

— Tá nervosinho, Roberto?

Ai, ai, ai! A gente começou a bater boca, ele veio pra cima com um pedaço de pau e eu, quando percebi meu corpo, tava com o facão erguido. Foi um segundo. O sangue coalhou de fervura, a vista escureceu e na escuridão dentro dos meus olhos eu vi os bebuns brigando de foice no barracão lá em Glória. A ira era minha agora. Mas no fazer o movimento de levantar o facão, o chão de terra estava molhado e eu, de sola descalça de novo, escorreguei. Tombei pra trás e só a ponta da lâmina triscou na cara dele. Um cortinho raso. Outras pessoas chegaram pra apartar e o entrevero não descaminhou pra fim pior. Agora, passados os anos, não tem dia que eu não me arrependa e tente entender como fui capaz daquilo. O que me salvou dessa vez? Foi sorte? Foi milagre? Foi Siriveste Coelho me passando uma rasteira e me impedindo do mal maior de acabar com a vida de outro homem e com a minha própria? Não achei explicação.

E de tudo ficou essa dor no peito. É uma dor estranha, que não é bem uma dor. É mais uma tristeza, ou uma saudade, tudo misturado com cansaço e falta de ar. Por uns tempos eu consegui esquecer, pensando noutras coisas e puxando muito trabalho. Mas ela voltou quando peguei Covid e não quer mais me deixar. Vem sempre de noite, quando eu deito pra dormir. Já fiz chapa de raio-x, eletro, eco, corri na esteira e não deu nada. A cardiologista disse que era bom eu ir ver um psicólogo. Tô pra marcar.

Uma noite dessas eu virava pra cá, virava pra lá, não conseguia achar jeito de dormir por causa da falta de ar e lembrei da vez que vi uma cascavel morrer de raiva. Essa era duas vezes mais velha que aquela que me pegou no calcanhar: tinha 14 anos, eu contei pelo guizo. A danada se enroscou na goiabeira e a gente dava nela. Foi lá no Mundo Velho ainda. Só que as pauladas não atingiam, porque tinha muito galho na frente. A filha da mãe chacoalhava o rabo e esganiçava, chacoalhava o rabo e esganiçava. Um barulho, mas um barulho que vou te falar. Parecia som de folha verde jogada na fogueira, mas mil vezes pior. Ela tava muito braba. Tava irada. Até que de repente, do nada, o guizo foi diminuindo, diminuindo e parou. A cascavel esticou e tombou lá de cima. Quando chegamos perto pra ver, tava morta. Morreu de tanta ira. Procê ver o problema que é isso aí.

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Imagem: Christian Carvalho Cruz/UOL

Roberto Alves do Nascimento, o Beto, 45 anos

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Histórias célebres de gente anônima: este é o espírito do projeto Trombadas. Nasceu sem destino, intenções, interesses ou desejos, nada além de conhecer e ouvir as pessoas que encontro nas ruas. Então eu saio, vou lá, paro -- é fundamental parar --- e escuto. Depois conto. No fim, é um mergulho. E um reencontro.